O gramático latino Ernesto Faria (1958, p. 60) admite que o caso acusativo é difícil de categorizar em uma única fórmula, mas ressalta que seu emprego mais genérico ocorre na função “de indicar o objeto ou complemento direto do verbo”. Mira Mateus et al. (2003, p. 284) e Castilho (2010, p. 298) assumem que o Objeto Direto (OD) possui uma relação gramatical central e que essa centralidade é decorrente do fato de esses argumentos serem selecionados pelo verbo. Têm essa relação “os argumentos internos directos de predicadores verbais de dois ou três lugares [...]” (MIRA MATEUS et al., 2003, p. 284).
Ancorados nos gramáticos supracitados, chamamos de acusativo o complemento verbal não preposicionado, conhecido na tradição gramatical como OD28, caracterizado por, na maioria dos casos, ligar-se ao verbo sem intermédio de uma preposição, além de manter uma ligação sintático-semântica com o predicador verbal.
De acordo com Castilho (2010, p. 300)29, o OD “é proporcional às formas pronominais acusativas”. Mira Mateus et al. (2003, p. 288) sugerem três testes para o reconhecimento do OD de uma sentença30; dentre os testes sugeridos, tem-se a possibilidade de substituição do
27 A propriedade de formas átonas é partilhada, também, por outras unidades lexicais, como as preposições e os artigos. (cf. MATEUS et al., 2003, p. 828).
28
Nas palavras de Bechara (2009, p. 416) trata-se do complemento verbal “representado por um signo léxico de natureza substantiva (substantivo ou pronome) não introduzido por preposição necessária [...]”
29 Exemplos adaptados e renumerados.
30 Seguem os dois outros testes sugeridos por Mateus et al. (2003, p. 288): i) passar a oração da voz ativa para a voz passiva e na passiva correspondente, o constituinte que obtiver a relação gramatical de sujeito será o OD – Ex.: “(23)(g) [ Esse livro]su foi comprado por eles em Londres”; ii) pode-se formular questões sobre o constituinte OD, interrogativas do tipo: quem/ o que é que SUV?, quando se tratar de um OD [+hum.] ou [-hum.], constituindo o OD a resposta mínima não redundante, ex.: “(23) (f) interrogativa: O que é que eles compraram em Londres?; Resposta: [ Esse livro]OD.”
“constituinte com a relação gramatical de OD” pela forma pronominal acusativa, como ilustrado abaixo31:
a. Eles compraram [esse livro]OD em Londres./ Eles compraram-[no]OD em Londres. b. O miúdo comeu [um gelado]OD/O miúdo comeu-[o]OD.
Essa estratégia parece funcionar muito bem com os exemplos do Português Europeu (doravante, PE), apresentados pelas autoras. Todavia é importante assinalar que, no PB, estudos anteriores32 constataram que essa correspondência não é absoluta, pois há algumas particularidades, a saber: i) a substituição do clítico acusativo de terceira pessoa o pela forma zero tende a ocorrer, majoritariamente, quando o referente apresenta traço [-animado] e ii) a substituição pela forma pronominal ele é elegida preferencialmente quando o referente apresenta traço [+animado]. Essas possibilidades de substituição são ilustradas a seguir. c. João pôs [o livro] OD na estante -> João pôs [ele/o/ zero] OD pôs na estante.
Com relação ao grupo de propriedades semânticas atribuídas aos argumentos internos diretos33, i.e., os papéis temáticos. Os quais de acordo com Cançado (2009, p.38) podem ser definidos como funções semânticas associadas aos argumentos de um predicador, segundo o sentido específico do predicador. 34
Castilho (2010, p. 301) defende que “o papel temático do OD é paciente, mesmo com verbos causativos”. O gramático brasileiro exemplifica, nos item 55b e 56, sua asserção com as seguintes sentenças: “(55b) viu o rapaz na rua”; “(56) o passageiro desceu o pacote.” Perini (2010) concorda com Castilho (2010) ao afirmar que o OD pode ser interpretado, prioritariamente, como paciente, cf. ilustrado em: a) “O terrorista castigou [três prisioneiros]” (cf. CAVALCANTE; FIGUEIREDO, 2009, p. 6). Tipicamente, o verbo demanda que o AI possua, entre outros, o traço [+animado]; quando esse requerimento é desrespeitado, têm-se incompatibilidade entre o verbo e o argumento, logo surgem as sequências inaceitáveis, como em: “*O terrorista castigou [três pedras]” (cf. CAVALCANTE; FIGUEIREDO, 2009, p. 6).
Os pesquisadores lusitanos Mira Mateus et al. (2003) advogam que o OD tem, tipicamente, o papel semântico tema e ilustram essa constatação, na sentença exposta a seguir:
31Exemplo citado por Mira Mateus et al. (1994, p. 165), renumerado para esta ocasião. No PB, essa sentença seria: “o menino (o garoto/o guri/o moleque, a depender da variação diatópica) comeu um sorvete”.
32 Para maiores esclarecimentos sobre a expansão do objeto nulo, sugerimos consultar Cyrino (1993, 1997), entre outras referências.
33 Rótulo usado por Mateus et al. (2003, p. 284) para se referir ao Objeto Direto (OD). 34
Grifos nossos. Em outras palavras, ainda de acordo com Cançado (2009, p.38), os papeis temáticos podem ser definidos como “o grupo de propriedades semânticas atribuídas a esse argumento a partir dos acarretamentos estabelecidos por toda a proposição em que esse argumento encontra-se.”.
“os amigos ofereceram uma viagem ao Japão aos recém-casados.” (cf. MIRA MATEUS et al., 2003, p. 284).
Cançado (2009, p. 38) reforça ainda que o papel temático de paciente, em geral, é aquele que sofre a ação expressada pelo verbo, havendo mudança de estado, já o tema trata-se daquele que é deslocado por uma ação.
Castilho (2010, p. 301), em consenso com os gramáticos lusitanos Mira Mateus et al. (2003, p. 285), observa que o OD pode ser nulo e, de modo característico, ocorrer sem preposição, como ilustram os exemplos propostos pelos autores supracitados – “João leu [Ø OD] toda a noite”; “ A Ana está a comer [Ø OD]” (MIRA MATEUS et al., 2003, p. 285) e “viu [Ø OD] na rua” (cf. CASTILHO, 2010, p. 300-301). Os gramáticos em tela concordam ainda que, na voz passiva, o OD assume a função de sujeito, como ilustrado na sentença proposta por Castilho (2010, p. 301) “João pôs o livro na estante -> O livro foi posto por João na estante”.
É consenso entre os gramáticos, no entanto, a existência de três casos em que o OD pode ser preposicionado, como ilustram os exemplos dos pesquisadores lusitanos Mira Mateus et al. (2003): (i) quando o OD é o pronome relativo quem, como em “Vi o velhote [a quem]OD o Luís ajudou” (p. 286); (ii) quando o OD é um clítico pronominal com redobro - “Vi-[os]OD a eles à saída do cinema” (p. 286); e (iii) em certas expressões cristalizadas, nas quais o OD aparece precedido da preposição a, como em Amar a (Deus)OD e Temer a
(Deus)OD (MIRA MATEUS et al., 2003, p.286).
No tocante à ordem do OD nas frases básicas, Mira Mateus et al. (2003, p. 287) enfatizam que este argumento interno pode ocorrer: i) 1º argumento à direita do verbo se se tratar de um Sintagma Nominal (SN) que não seja pesado, como ilustrado na sentença “O miúdo deu [o caramelo]OD ao amigo imediatamente”; ii) à direita do argumento com relação gramatical de OI, se for um clítico – “ João deu-[lhe]OI [um livro] OD” e iii) à direita dos restantes argumentos internos e adjuntos, se o OD for um SN pesado ou uma frase – “A Ana comprou [ao Gonçalo]OI [o quadro do vencedor da 2ªBienal de Artes Plásticas de Cerveira]OD / A Ana contou [ao Gonçalo] OI [o filme que foi ver ontem]OD.”.
Na perspectiva da tradição gramatical, o pronome acusativo original de P2 seria apenas o te, conforme defendido por Bechara (2009) e Cunha e Cintra (2008), porém, de acordo com Lopes e Machado (2005), a partir da inserção do pronome inovador você no paradigma pronominal do PB, outras estratégias passaram a ocupar essa posição como o pronome lexical você, os clíticos de terceira lhe e o/a, bem como o objeto nulo [ø]. Logo, conforme estudos anteriores, temos, no PB, cinco possibilidades de realização do OD, são elas: i) te; ii) você; iii) lhe; iv) o/a e v) zero- ø. Os trechos das missivas do RN, expostos a
seguir, ilustram essas possibilidades de realização do complemento verbal não preposicionado.
(21) [...] Fui à Mossoró nos utimos dias | do Congresso, a-fim-de ver-te; mas, não
TE | encontrei[...].(Carta de Lourival para Ruzinete, 22/10/1946).
(22) [...] Aqui estar | tudo bem comigo graças a Deus, e | desejo que esta chegue em suas | maos e LHE encontre com muita sau- | de e que você alcance todos os se- | us objetivos[...]. (Carta de Walter Oliveira para Lucinha, 18|10|92).
(23) [...] Acho que se um dia | você viesse a viver comigo, você | poderia acabar sofrendo, acho VOCÊ | uma pessoa maravilhosa e que vo- | ce pode arrumar coisa melhor pra | você. (Carta de Walter Oliveira para Lucinha, 18|10|91).
(24) [...] Lucinha, tudo bem sei que errei mas peço desculpas por tudo o que fiz; mas embora não lhe agrade, devo repetir-lhe que A amo com todas as forças do meu coração, e como também confeço que se eu morrer amanhã saiba que morri por te amar demais[...]. (Carta de Walter Oliveira para Lucinha, 31|3|93).
(25) [...] Escusado é dizer que a gente governamental não gosta destas monobras. Mas essa gente não é a população. É apenas a força ... que passará. Fico Ø esperando. Ciau (Carta de Câmara Cascudo para Mário de Andrade, 4/1/33). A seguir, trataremos a respeito complemento verbal preposicionado.