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4.2 A OBRA DO CONCÍLIO DE TRENTO

4.2.1 Complementos da Obra Conciliar

Antes dos padres de Trento se separarem, fizeram um pedido à Santa Sé porque não haviam terminado uma obra que esteve em pauta. Referia-se ao índice de livros perigosos ou suspeitos, com intuito de substituir o publicado por Paulo IV em 1558. Roma foi cuidadosa sobre esse ponto. Publicou, em 24 de março de 1564, um conjunto de regras, com orientações aos cardeais e superiores na execução da obra. A mais importante delas é a quarta regra, que fala das traduções da Bíblia. É conveniente citá-la, pois determinou por um grande tempo, a ligação dos católicos com a Sagrada Escritura.

Dado que a experiência ensina que a Sagrada Bíblia, desde que se permita seu uso em língua vulgar indiscriminadamente, faz mais mal do que bem, por causa da cegueira dos homens, os bispos e os inquisidores adotarão nessa matéria a posição seguinte: após o parecer do pároco ou do confessor, eles (bispos e inquisidores) poderão permitir a leitura em língua vulgar de Bíblias traduzidas por autores católicos a pessoas sobre as quais não haja dúvida de que tirarão dessa leitura um benefício para a própria fé e piedade; essas pessoas deverão ter uma autorização por escrito. Quanto aquelas pessoas que se permitiram ler ou possuir essas Bíblias sem permissão, deve entregá-las ao bispo antes de poder receber a absolvição dos seus pecados”. Enfim, penas pesadas são previstas para as livrarias que vendam Bíblias em língua vulgar sem autorização. (ALBERIGO, 2005, p. 349)

Essa posição pareceu mais negativa que cautelosa, pois colocava a Bíblia, no nível das obras heréticas. O povo católico, ao invés da Bíblia, teria um catecismo.

Em janeiro de 1566, o papa Pio V28 submeteu a obra a uma nova revisão, feita pelo cardeal Sirleto. Foi publicada inicialmente em latim e italiano e depois em alemão,

28 Pio V: Papa de número 225, batizado Antonio Michele Ghisleri, nasceu em 17/01/1504 em Bosco (Alessandria), faleceu 01/05/1572. Seu pontificado teve início dia 17/01/1566 e terminou com a sua morte.

francês e polonês. O Catechismus ex decreto concilii tridentini, chamado desde esse tempo também de Catecismo Romano, é um catecismo ad parochos, voltado aos párocos para instruírem os fiéis corretamente. Para identificar o catecismo como obra indireta do Concílio, mencionamos Jean-Claude Dhôtel, um especialista em texto catequético.

Apesar das limitações impostas pelas suas perspectivas, apesar da sua forma literária polida demais, e das suas subtilezas teológicas, que o tornariam inacessível a uma parte do clero ainda não bem formada, a obra fornecia aos pastores os elementos de uma catequese doutrinária, bíblica e espiritual que não visava somente à intelecção das verdades cristãs, mas à educação e ao crescimento da fé. (ALBERIGO, 2005, p.

350)

Em se tratando do breviário, este foi reformado e publicado em 1568. Já o missal, aprovado pelo papa Pio V, em 1570, só no século XX foi elevado a símbolo.

Ficou faltando a elaboração de uma versão corrigida da Vulgata, para atender a todos as solicitações do Concílio. O papa Sisto V29 tomou para si a missão de finalizá-la, fazendo as correções. Em 1590, o papa apresentou sua edição da Vulgata. Apesar de ter passado por uma minuciosa correção, foi recolhida logo após a sua morte em agosto de 1590. Novamente o trabalho de correção começou, sendo conduzida por Roberto Belarmino e levada a término sob o pontificado do papa Clemente VIII30 em 1592. Como haviam sido feitas algumas correções, a versão oficial da Vulgata foi chamada de sistoclementina.

No geral, do Concílio de Trento, recém-terminado, não teve nenhuma oposição. Com relação aos protestantes, continuaram ignorando-o. Devido ao longo tempo da divisão, Trento não acrescentou muita coisa para uma unidade cristã.

O papa Pio V, durante o seu pontificado, não sossegou e escreveu aos bispos e aos príncipes, solicitando que os decretos tridentinos fossem colocados em prática. Em 1566, ele escreveu a todos os bispos da catolicidade, conforme se pode constatar no fragmento a seguir:

Para curar as muitas feridas da Igreja e aplacar a cólera de Deus, só nos resta um remédio: que os decretos do santo concílio geral de Trento sejam observados por todos com fidelidade e diligência. Por isso,

29 Sisto V: Papa de número 227, nome Felice Peretti, nasceu dia 13/12/1521 em Grottammare (Itália) . Seu pontificado iniciou dia 01/05/1585 e terminou com sua morte dia 27.08.1590.

30 Clemente VIII: papa de número 231, nome Ippolito Aldobrandini, nasceu dia 24/02/1536 na cidade de Fano (Itália). Seu pontificado teve início dia 09/11/1592 e terminou com sua morte em 03/03/1605.

exortamos e pedimos a vossa fraternidade, tomando como testemunha o juiz divino: tudo o que no concílio foi estabelecido e decretado com tanta autoridade apostólica, que o tornou obrigatório em todos os lugares, procurem realizá-lo e cumpri-lo sem demora. ( ALBERIGO, 2005, p. 353)

Pio V reitera nos pontos: corrigir os eclesiásticos indignos, tornar o clero exemplo, abrir seminários, repelir a investida dos hereges.

Alberigo menciona a importância do tempo, quase meio século, tão decisivo quanto seus decretos para serem fixadas as novas propriedades da Igreja católica.

A aplicação do concílio de Trento não foi obra só da introdução dos decretos em toda a Igreja que estavam em comunhão com Roma; foi igualmente, obra criadora e, enquanto tal, implica toda uma série de opções cuja relação com o espírito do concílio não foi sempre (apesar das repetidas profissões de lealdade) dócil e clara. ( ALBERIGO, 2005, p. 255)

Logo após ao Concílio de Trento, verificou-se que vários papas dedicaram-se em aplicar as reformas conciliares, acentuando a autoridade da Santa Sé e a sua capacidade de intervir no desenvolvimento das Igrejas locais.

Roma torna-se, através das ações dos jesuítas, incentivo dos papas e, um núcleo de vida intelectual, sendo respeitada no âmbito da ciência religiosa e profana. Em síntese, é extremamente romano o catolicismo pós-tridentino.

5 CONSIDERAÇÕES

A realização deste trabalho teve como objetivo principal identificar o contexto histórico e os motivos que levaram à separação e à divisão dos cristãos bem como a ação da Igreja Católica nesse contexto.

O primeiro passo foi identificar o fenômeno chamado “renascimento”.

Constatamos que este movimento originou-se, com um conjunto de eventos originados em épocas distintas, acompanhado de inúmeros fatores: religioso, econômico, social, político, demográfico. Obviamente a Igreja sofreu os efeitos dessas mudanças, pois o humanismo afirmou a autonomia criativa do indivíduo, não negando a revelação cristã, mas colocando em segundo plano os conceitos tradicionais de autoridade, dogma, teologia sistemática, revelação e tradição, priorizando a reflexão pessoal e crítica, fazendo com que o clero se adaptasse a esse modo de vida.

Ademais foi possível constatar que os Papas da renascença foram defensores da ciência, arte, literatura, mas também se envolveram em lutas e guerras, tudo isso contribuiu para que estes se distanciassem dos prazeres do espírito. Também o nepotismo e a corrupção se faziam presentes como práticas do clero especificamente nesse contexto.

A realização deste trabalho identificou que a imagem dos papas renascentistas não foi boa, devido às suas preocupações estarem voltadas à arte e aos próprios prazeres, deixando assuntos importantes relacionados a Igreja, muitas vezes em um segundo plano. Mas, apesar de tanta futilidade, por parte da corte, havia uma luta imensa para viver no espírito do Evangelho; temos como exemplo, a Irmandade da Vida Comum, também conhecida como devotio moderna.

Também ficou evidente, no decorrer de nossa pesquisa, que a Reforma da Igreja estava em andamento, mesmo antes das aspirações reformistas de Martinho Lutero. Mas esse movimento só eclodiu bem mais tarde, depois do movimento luterano.

Constatou-se que a publicação das 95 teses originou o conflito de Martinho com a Igreja. As teses de Lutero tratavam basicamente das indulgências que o povo

se empenhava tanto a receber, rezando perante as relíquias e colocando os seus gulden nas caixas de esmolas.

Essa pesquisa deixou claro que a Igreja entendia como indulgência a remissão total ou parcial das penas que cada indivíduo deveria sofrer, mas também que, para alcançar a remissão, era e é vital o estado de graça e os jejuns, orações, visitas às Igrejas, com um firme propósito de mudança e um querer interior. Dentro dessa perspectiva, as indulgências não eram um meio imediato de receber perdão sem esforço.

Evidenciamos, também, que a venda das indulgências tinha um valor muito grande para a Igreja, muitos projetos eram financiados com a publicação delas.

Sendo assim, a Cúria papal e o Estado dependiam financeiramente dessa arrecadação. Mas não podemos deixar de mencionar que já existiam movimentos contra o excesso dessas indulgências, sendo uma voz que, muitas vezes ou quase nunca, foram ouvidas.

Um ponto de grande relevância foi no ano de 1520, quando após apreciação e aprovação do Papa, foi publicada a bula Exsurge Domine. Os escritos de Lutero deveriam ser destruídos, era-lhe proibido ensinar teologia, pregar e precisava, no prazo de dois meses, retratar-se, para não correr o risco de excomunhão.

Em dezembro desse mesmo ano, quando ele tomou conhecimento, que seus livros seriam queimados, reuniu-se na porta da Catedral de Wittenberg com seus amigos e lançou ao fogo ao texto da Bula e em um volume do Direito canônico. “Já que corrompeste a verdade divina”, gritou ele “que o fogo te consuma!”. No outro dia, durante seu curso, explicou que a queima do exemplar fora apenas um símbolo, porque, na verdade, quem deveria ser queimado era o Papa. Em 3 de janeiro de 1521, Lutero foi excomungado com a bula, Decet Romanum Pontificem, sendo assim, consumada a ruptura.

Dando sequência, o estudo demonstra que, quando sancionada a pena canônica, esperava-se que o Imperador Carlos V procedesse à prisão do Monge e o entregasse à Santa Sé. Mas, devido a problemas políticos que envolvia a Espanha, não quis indispor-se com os alemães. Convocou então uma Dieta em Worms, na qual Lutero reafirma suas teses. Sendo refugiado em Wartburg, ele escreve e produz muito. Muito conteúdo de sua teologia é fruto deste tempo.

Entretanto, no período em que permaneceu ausente, os seus amigos e outros reformadores quiseram realizar a reforma com métodos radicais (iconoclastia), produzindo desordens e sublevações. Lutero deixou então Wartburg e voltou em 1522 a Wittenberg para estabelecer a ordem, por meio de prédicas, ao movimento que tinha começado, a fim que não tomasse o caminho supracitado. Paralelamente, as doutrinas que apregoava continuavam a difundirem-se graças sobretudo à imprensa, que se tornava cada vez mais importante na Europa moderna.

A pesquisa revelou também o posicionamento de Lutero na Guerra dos Camponeses. Com seu posicionamente, ele sofreu muitas críticas, devido ter se manifestado contra os camponeses, incentivando o massacre pelos príncipes, sendo acusado de ser o responsável por essa guerra.

Também destaca-se que a adesão ao luteranismo pelos senhores, tinha por trás, o interesse pelos bens da Igreja. Aqui podemos citar Alberto de Brandenburgo, que consultou Lutero sobre sua luta de consciência. Este recebeu o conselho de romper com seus votos e secularizar para seu próprio proveito os bens da Ordem.

Esse movimento cresceu e alguns bispos secularizaram suas dioceses, inclusive o duque e o Eleitor da Saxônia, seguirem os exemplos.

A pesquisa demonstra que Lutero representava todas as correntes reformistas, mesmo algumas que lhe pareciam heréticas. Mas a de Zwinglio, por ser considerada a mais importante e não podemos deixar de citar, construiu uma Igreja de Estado, onde os burgueses seriam os chefes, fiscalizados pelo Conselho civil. O reformador foi o iniciador do Estado-Igreja, cuja teologia adaptou-se a seu plano político.

Encerramos nossa pesquisa, desse contexto, com a Reforma Católica, que encontrou dois desafios: o distanciamento de um grande número de cristãos das fontes e da sustentação da religiosidade, e, de outro lado, os preconceitos, a ignorância e as superstições. A necessidade de definir determinados artigos de fé, no século XVI, era evidente, e foi o Papa Adriano VI quem deu início a isso.

Com a realização do Concílio de Trento, fruto desse movimento reformista houve uma coroação a um conjunto de ações eclesiais. Concomitantemente uma expressão de fortalecimento interno da Igreja Católica e de sua autoestima reconquistada. O concílio estendeu-se em muitas direções, mas, de maneira

simplificada, podemos resumir em quatro capítulos: “a revelação, ao pecado original, à justificação e aos sacramentos”.

Logo após ao Concílio de Trento, verificou-se que vários papas dedicaram-se em aplicar as reformas conciliares, acentuando a autoridade da Santa Sé e a sua capacidade de intervir no desenvolvimento das Igrejas locais.

Hoje vivemos a aproximação dos 500 anos da Reforma Protestante, e os 50 anos do começo do diálogo entre católicos e luteranos. O contexto é outro e regamos a esperança que teremos muito progresso, pois o Papa Francisco participa com a ideia de transmitir que as diferenças teológicas das duas tradições, já não motivam mais os ataques e guerras que ocorreram nos séculos passados. Assim, pedimos ao Pastor da Messe, que nos reconduza a uma perfeita união, pois desejamos ser um só rebanho, ouvindo o único e Bom Pastor, Nosso Senhor Jesus Cristo!

REFERÊNCIAS

ALBERIGO, Giuseppe. História dos Concílios Ecumênicos. 3. ed. São Paulo:

Paulus, 2005.

CÂMARA, Jaime de Barros. Apontamentos de História Eclesiástica. 3. ed.

Petrópolis: Vozes, 1957.

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DREHER, Martin N. História do Povo Luterano. São Leopoldo: Sinodal, 2005.

LENZENWEGER, Josef. História da Igreja Católica. São Paulo: Loyola, 2006.

MONTEIRO, Rodrigo Bentes. As Reformas Religiosas na Europa Moderna. São Paulo:

PIERINI, Franco. A idade média: Curso de História da Igreja II. 2. ed. São Paulo:

Paulus, 2006.

ROPS, Daniel. A Igreja da Renascença e da Reforma I. São Paulo: Quadrante, 1996.

SUFFERT, Georges. Tu és Pedro: A história dos primeiros 20 séculos da Igreja fundada por Jesus Cristo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

w2.vatican.va/contente/vatican/it.html. Acesso em 30 set. 2016.

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