As construções completivas declarativas (731 ocorrências)80, descritas como completivas plenas em 4.2.1. e F2 em 4.2.2, tiveram maior produtividade funcional no corpus que as interrogativas totais (nove ocorrências) e interrogativas e exclamativas parciais (nove ocorrências). Apesar do baixo rendimento funcional, as completivas interrogativas totais ou indiretas, cujo traço distintivo formal é o transpositor se, partilham das propriedades sintáticas das completivas declarativas por admitirem sujeito correferente (103) e disjunto (104) e por serem prototipicamente functivos que preenchem os espaços requeridos por functemas F2: (103) a. É bom que anualmente façamos consultas regulares para sabermos se temos esta ou aquela doença (JA. Cuidados com a saúde”. 31 de janeiro de 2017).
b. Na verdade, não sei se serei capaz de satisfazer as expectativas (JA. “A globalização da indiferença”. 12 de março de 2017).
c. […] a Federação Angolana de Futebol tem de ver bem se acata ou não a "sugestão" avançada pelo ministro (JD. “A sugestão do ministro”. 28 de fevereiro de 2017).
(104) a. Perguntam-me se o funge deve ser retirado da dieta de um atleta. E eu digo que podemos e devemos comer (JA. “Especialistas ajudam atletas”. 30 de abril de 2017).
b. […] a grande questão que se coloca agora é saber se os atletas consentem um último sacrifício, e evitar que o percurso do técnico termine manchado (JD. “Na corda bamba”. 01 de novembro de 2016). c. Vamos ver se o projecto de ter uma equipa sénior feminina de basquetebol não fique na intenção (JD. “Passivo milionário enferma Benfica”. 27 de fevereiro de 2017).
Em (103), a correferência de sujeito, tal como já se referiu com Neves (2002) e Duarte (2003), deve-se ao facto de o sujeito da oração subordinante (sujeito morfológico de primeira pessoa, em (103a-b)) partilhar das propriedades gramaticais do sujeito da oração encaixada (sujeito morfológico de primeira pessoa (103a-b) e terceira pessoa (103c)). Desta feita, as completivas interrogativas totais ou indiretas são estruturas que não impõem restrições referenciais entre o
sujeito da oração matriz e o da oração encaixada, padrão idêntico ao das completivas plenas ou F2, porém, diferente ao das completivas F1 ou subjetivas e F4 ou oblíquas. Do ponto de vista semântico e axiológico, os enunciados de (103-104) parecem revelar que, na norma atual do PA, as completivas totais ou interrogativas indiretas são de flexão modal zero, ou seja, não admitem oposição funcional entre indicativo e conjuntivo, por um lado e, por outro lado, não admitem reforço de traços sémicos de [+] irrealidade/ [+] mundo possível. Assim, tal como em espanhol, «[l]as substantivadas por el si completivo suelen ir en indicativo o potencial, pues ya los propios transpositores caracterizan su predicado como incierto o dudoso» (Martínez 1999: 60).
Foram igualmente observadas no corpus orações completivas interrogativas (105) e exclamativas (106) parciais introduzidas por transpositores pronominais e adverbiais e selecionadas por predicadores epistémicos (entender, saber), declarativos (demonstrar,
ilustrar) e sensitivos (ver) cuja matriz morfológica é formada por um verbo suporte (conseguir, ir, poder):
(105) a. Até não consigo entender como é possível eles reivindicarem o direito de votar nas eleições da FAF, quando não o fizeram pela APF (JD. “Eles não podem tomar esta posição”. 24 de novembro de 2016).
b. Até o final da tarde (de ontem), vamos saber quantos países estão para vir a fim de decidirmos sobre o arranque da actividade amanhã (hoje) (JD. “Ausências adiam Zonal IV”. 28 de abril de 2017). c. Era difícil saber quem era o familiar consanguíneo e o vizinho (JA. “A globalização da indiferença”. 12 de março de 2017).
d. Não vejo como podem destruir involuntariamente as provas, logo não acredito nesse cenário (JA. “Investigar antes de prender”. 09 de março de 2017).
e. Um conto onde se pode ver como algumas pessoas usam o mal para terem êxitos (JAAL. “"Antropologia Recreativa", ou a Decomposição do Homo Sapiens”. 17 de janeiro de 2017).
(106) a. No final do acto, os galardoados mostraram-se satisfeitos com os troféus alcançados, disseram que tais distinções demonstram quão aplicados estiveram em favor da causa do futebol nacional (JD. “Presidente Carlos Hendrick recebeu troféu”. 30 de novembro de 2016).
b. Em termos globais, o ténis tem dado passos significativos e que podem nos ilustrar o quão longe podemos ir caso sejam cumpridos todos os pressupostos (JD. “Tempos novos”. 20 de janeiro de 2017).
Em termos funcionais, as completivas interrogativas e exclamativas parciais também são construções formadas pelo mecanismo da transcategorização sintática, afinal, são, como assinala bem Bechara, verdadeiras estruturas qu- que perderam o respetivo «contorno melódico» (2009: 465). Relativamente à participação das entidades na enunciação, não foram observadas construções interrogativas (105) e exclamativas (106) parciais cujos sujeitos da oração regente e regida são correferentes. A amostra obtida não é representativa para se falar
de restrições referenciais nestes subtipos semânticos de orações completivas finitas. Do rendimento funcional das completivas declarativas (731 ocorrências), interrogativas totais (dez ocorrências) e interrogativas e exclamativas parciais (oito ocorrências) no corpus constituído de três dos mais representativos periódicos da imprensa angolana:
Gráfico 4: Subtipos semânticos e pragmáticos de orações completivas finitas
5.3. Completivas assertivas e não assertivas
Na literatura linguística sobre o PA, Adriano (2014: 294) e Campos (2016: 51) observaram, na imprensa oral e escrita angolana, cerca de 1281 casos de transposição semântica de orações completivas cujos sintagmas superiores, muitos dos quais pertencentes à subclasse dos adjetivos avaliativos (importante, bom, fundamental) e verbos volitivos (querer, esperar), selecionam indicativo na oração subordinada, em vez do conjuntivo; oração completiva assertiva, em vez de oração completiva não assertiva:
(107) a. […] é importante que o nosso presidente se preocupa também com a nossa cultura (Adriano 2014: 303).
b. […] aquelas pessoas também que / não sabem seguir no Partido /então é bom que apostam no Partido (Idem).
(108) a. […] eu quero que o Partido ajuda-nos na melhoria das propinas escolares (Adriano 2014: 305).
81 Oito ocorrências por Adriano (2014) e quatro por Campos (2016).
b. […] ou ainda por falta de esclarecimento, se pretende que uns têm prevalência sobre os demais (Campos 2014: 51).
Este quadro de transposição axiológica ou reconversão semântica observado por Adriano e Campos parece mais frequente nos utentes do sistema oral e escrito do PA. Indo aos factos: os trabalhos atentos à linguística das línguas, como a presente gramática da frase, são pelo realismo imanente na observação e descrição de usos concretos. Das 820 construções completivas, registadas no corpus e analisadas (cf. Tabela 3), foram observadas 73 ocorrências de orações completivas não assertivas, irreais ou hipotéticas, valor muito abaixo do esperado (9%) relativamente à produtividade no sistema, se comparado com as completivas assertivas ou factuais cuja frequência é de 90% (747 ocorrências). Na generalidade dos casos, as completivas não assertivas foram selecionadas por sintagmas avaliativos (109), volitivos (110) e deônticos (111):
(109) a. É compreensível que as autoridades e a sociedade civil se preocupem com as questões ambientais (JA. “A defesa do ambiente”. 02 de novembro de 2016).
b. […] é importante que empenhemos todos os nossos esforços e energias no trabalho comum de dar corpo aos projectos (JA. “Um momento especial”. 10 de novembro de 2016).
c. É positivo que se trabalhe para que haja desenvolvimento dos municípios (JA. “Os servidores e as comunidades”. 27 de março de 2017).
d. O importante é que não se acumulem problemas e se os pudermos prevenir melhor ainda (JA. “Os servidores e as comunidades”. 27 de março de 2017).
(110) a. […] pedindo aos seus apoiantes que estejam voluntariamente nas urnas a monitorizar o processo de votação (JA. “Trump vai à frente de Hillary Clinton”. 03 de novembro de 2016).
b. Esperamos que seja o MPLA (JA. “Pré-campanha tem início em Dezembro”. 06 de novembro de 2016).
c. […] o partido pretende que os cidadãos continuem a depositar confiança no seu programa de governação (JA. “Pré-campanha tem início em Dezembro”. 06 de novembro de 2016).
d. Queremos que os nossos bancos comerciais comprem dinheiro, de modo a criarem investimentos e ajudem a financiar os projectos que temos cá no país (JA. “Início Economia Investimentos Bons negócios com a China”. 08 de novembro de 2016)
(111) a. Esse atraso […] obrigou a que estejamos numa espécie de repetição daquilo que foram os esforços feitos após a proclamação da Independência Nacional, 41 anos atrás (JA. “Um momento especial”. 10 de novembro de 2016).
b. […] exige que se redobrem os esforços para conter as irregularidades (JA. “Polícia apreende trinta mil litros de combustível na fronteira do Luvo”. 20 de novembro de 2016).
c. Recomendamos que, este ano, seja actualizado o registo das manifestações artísticas angolanas (JAAL. “Carolina Cerqueira define desafio tridimensional da Cultura”. 17 de janeiro de 2017).
d. […] exige que se redobrem os esforços para conter as irregularidades (JA. “Polícia apreende trinta mil litros de combustível na fronteira do Luvo”. 20 de novembro de 2016).
Foram, igualmente, observadas orações completivas selecionadas por predicadores causais como verbos principais de estruturas perifrásticas (112), bem como predicadores avaliativos e epistémicos de dupla seleção modal (113) e por predicadores cujo valor de irrealidade é determinado pela adjacência de um monema de negação (114):
(112) a. As cooperativas estão efectivamente a fazer com que os estrangeiros não tenham espaço no nosso território (JA. “Mais diamantes e menos receitas”. 16 de janeiro de 2017).
b. Assim sendo, vamos fazer com que aquelas cooperativas com melhor performance se transformem em pequenas empresas (JA. “Mais diamantes e menos receitas”. 16 de janeiro de 2017). c. “As cooperativas estão efectivamente a fazer com que os estrangeiros não tenham espaço no nosso território (JA. “Mais diamantes e menos receitas”. 16 de janeiro de 2017).
d. […] a antecipação feita pela Confederação Africana de Boxe na semana passada sobre a realização do Campeonato Africano de Brazzaville qualificativo ao Campeonato do Mundo […] faz com que os países com limitações financeiras cancelassem à última da hora a participação no zonal IV (JD. “Ausências adiam Zonal IV”. 28 de abril de 2017).
(113) a. […] mas não vemos nada que sugira [que esta nova sondagem] esteja correcta”, disse o assessor (JA. “Trump vai à frente de Hillary Clinton”. 03 de novembro de 2016).
b. Não acredito que seja este o único e mais grave dos problemas (JD. “Quero ver o Artur sem "caça às bruxas"”. 20 de dezembro de 2016)
(114) a. Alguns jovens acreditam que o Carnaval seja algo para os mais velhos (JA. “Grupo de carnaval na disputa do pódio”. 24 de fevereiro de 2017).
b. A partir da barragem do Laúca, Pedro Sebastião acredita que com o fornecimento de energia, o desenvolvimento económico do município ganhe outro impulso (JA. “Quedas de Calandula potenciam o turismo”. 22 de fevereiro de 2017).
c. "Duvido que haja mudanças no futebol" (JD. “"Duvido que haja mudanças no futebol"”.16 de novembro de 2016).
O tratamento estatístico dos dados revelou maior produtividade dos predicadores volitivos (36 ocorrências) que os demais por se assinalar 24 ocorrências de predicadores avaliativos, quatro de predicadores deônticos, cinco de predicadores causativos, três de predicadores de dupla seleção e duas de predicadores cujo valor de irrealidade/mundo possível é determinado pela adjacência de um monema de negação:
Tabela 6: Predicadores não assertivos
Predicadores Frequência Percentagem
Volitivos 36 49
Avaliativos 24 33
Deônticos 06 04
Causativos 12 1
Relativamente às completivas assertivas, as mais produtivas no corpus foram as selecionadas por predicadores declarativos (376 ocorrências) - explicar, informar, dizer, fazer saber, referir,
sublinhar, adiantar, esclarecer, acrescentar, avançar, frisar -, secundados pelas subclasses dos
predicadores epistémicos (195 ocorrências) – verdade, é verdade, facto, informação,
esperanças, tese, pensamento, conhecimento; claro, é claro, consciente – e avaliativos (173
ocorrências ) – entender, achar, alertar, pensar, acreditar, parecer. Com baixo rendimento funcional, destacam-se as completivas assertivas selecionadas por predicadores psicológicos pronominais e não pronominais (12 ocorrências) – lembrar, recordar, esquecer – e sensitivos (cinco ocorrências) - sentir. Do rendimento funcional dos predicadores assertivos no corpus: Tabela 7: Predicadores assertivos
Predicadores Frequência Percentagem
Declarativos 376 49
Epistémicos 195 26
Avaliativos 173 23
Psicológicos 12 1
Sensitivos 05 1
Os valores constantes nas tabelas 6 e 7 são indicadores, mais uma vez, de que no PA e nas demais normais nacionais do português as noções de evidencialidade e mundo real se sobrepõem às noções de irrealidade e de mundo possível nas cadeias discursivas de expressão da experiência. Fora do padrão do quadro de referência das outras construções observadas e já exemplificadas e como forma de complementação aos trabalhos de Adriano (2014) e Campos (2016), foram observados seis casos de transposição axiológica de orações completivas finitas cujas propriedades são marcadas pela perda do valor de irrealidade/mundo possível do sintagma verbal da oração encaixada, migrando, desta feita, de orações completivas não assertivas a assertivas:
(115) a. […] a Direcção quer que eu continuo, mas nos próximos dias inclusive irei ter uma reunião com o director-geral (…). (JD, “Sambilas precisam de Albano César”, 17/11/2016).
b. […] no sentido de fazer com que aquelas áreas que de alguma forma funcionavam como chamariz dos estrangeiros deviam ser outorgadas aos angolanos, sob forma de cooperativa (JA. “Mais diamantes e menos receitas”. 16 de janeiro de 2017).
c. É consensual, com efeito, que a ajuda angolana ao povo sul-africano durante os anos de exílio do ANC (1960-1990) foi, historicamente, de grande valia (JA. “Os símbolos da Namíbia e a libertação de Nelson Mandela”. 28 de fevereiro de 2017).
e. Isso faz com que o passivo tende a aumentar (JD. “Passivo milionário enferma Benfica”. 27 de fevereiro de 2017).
f. Não restam dúvidas de que Bangão é um artista insubstituível. (JAAL. “30 anos a trabalhar um sonho”. 11 de novembro de 2016).
Se o conjuntivo é uma “área crítica” na regência de orações completivas em português, o indicativo não estará muito longe disso, visto que também se observou a transposição semântica com predicadores que “hipoteticamente” selecionam exclusivamente o modo indicativo: (115) É certo que depois da eleição do elenco de Artur de Almeida e Sila pudesse haver outras questões prioritárias, embora, esta também seja (JD. “FAF em dia de decisão”. 08 de março de 2017).
Em (115), a transposição axiológica, semântica ou significativa ocorreu de forma inversa: de representação de mundo real à representação de mundo possível e, portanto, de uma oração completiva finita assertiva a uma oração completiva finita não assertiva ou irreal. Na trilha de Fonseca e Suelela (2017: 114), e orientados pelo princípio de «[e]l cambio en el modo se corresponde con el cambio en el significado» (Bosques 1990:156), os enunciados de ((114)- (115)), bem como outros do mesmo tipo, passarão a ser denominados orações completivas dessemantizadas se, por conseguinte, se entender com Ramos que dessemantizar «significa dizer que o item/a expressão linguística não tem apenas o significado denotativo e original, pois perde algumas características semânticas e ganha novas. Ao ganhar novas propriedades semânticas, é usada em outros contextos, o que caracteriza o parâmetro da extensão» (Ramos 2016: 39).
A transposição axiológica ou semântica, tal como a transposição sintática, decorre do funcionamento e dinâmica dos sistemas linguísticos. Acredita-se que, no PA, a reconversão significativa de orações completivas assertivas e não assertivas e vice-versa seja determinada pela força ilocutória dos falantes e pela modalidade discursiva assumida pelo falante no momento da enunciação. Na versão mais clássica, modalidade, contrariamente ao tempo e aspeto, «differs from tense and aspect in that it does no refer directly to any characteristic of the event, but simply to the status of the proposition» (Palmer 2007: 1). Assim sendo, mais do que diferenças de forma, as orações completivas assertivas, não assertivas e dessemantizadas são variantes estruturais que se opõem e se alternam no sistema escrito do PA. É nesta conformidade que se entende com Martinet e seguidores que semântica não é sinónimo de axiologia, muito embora sejam disciplinas complementares: a semântica estuda «os diferentes efeitos de sentido que se podem encontrar numa mesma unidade» (Martinet 1995: 59); a axiologia estuda «los valores que se oponen y se distinguen entre sí – de las unidades bien estabelecidas (Hoyos-Andrade 1992:114).
Do ponto de vista da produtividade ou rendimento funcional no corpus, as orações completivas dessemantizadas, comparativamente às assertivas e não assertivas, representam, por enquanto, «microvariações na variedade angolana do português» (Campos 2016: 86):
Gráfico 5: Classificação semântico-pragmática de estruturas completivas
Os casos de transposição axiológica, a nível dos modos verbais, contribuem para a elevação das estratégias de representação de evidencialidade/ mundo real (90%) no PA. A tendência de modalizar o discurso por parte dos falantes poderá estar na base da reconversão semântica dos modos verbais no PA. modalizar o discurso é, portanto, a atitude linguística que alude às «apreciações do locutor sobre o conteúdo proposicional das orações e seus interesses e intenções quanto às tarefas enunciação» (Azaredo 1990: 122).