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8. PODER GERAL DE COERÇÃO

8.1 COMPLETUDE DA TUTELA EXECUTIVA

Com efeito, quando se pensa na utilização de uma nova via processual, ou seja, quando se trata de lançar mão da tutela executiva para satisfazer uma prestação que não foi, espontaneamente, satisfeita, ganha relevo o problema relativo à efetividade do processo. Além da própria prestação descumprida, não se pode perder de vista os danos

marginais do processo22.

Nesse enfoque, um sistema executivo tende à completude, quando: a) quanto maior a existência de remédios processuais voltados à tutela das diversas modalidades de prestação não adimplidas; b) quando esses instrumentos podem ser utilizados por quem detinha interesse jurídico em fazê-lo; c) quando a tutela confere total e exata satisfação do que não foi adimplido, num prazo adequado ao caso concreto e com um volume reduzido de atos processuais.

Como se sabe, o ideal da efetividade, de matriz constitucional, não se compatibiliza com a existência de um sistema que não dê a quem dele se utiliza a proteção plena ao direito violado. Em outras palavras, a falta de meios aptos a uma efetiva tutela do direito pleiteado em juízo, em última análise, subverte a ordem jurídica, em evidente prejuízo à paz social.

Portanto, afigura-se razoável concluir que, qualquer sistema de realização da tutela executiva que pretenda atender à exigência do acesso à justiça, deve tender à completude, ou seja, deve prever ou ao menos permitir o emprego de meios aptos a efetivar a satisfação de prestações que não foram espontaneamente adimplidas, no menor espaço de tempo e com a prática de um mínimo de atividade processual.

21 NETO, O. O. - O Poder Geral de Coerção; 1ª edição; São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2019.

22

Cf. NETO, O. O. - O Poder Geral de Coerção; 1ª edição; São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2019, pág. 219.

Houve uma evolução parcial, rumo à completude do sistema executivo, no CPC de 1973.

Em sua redação original, o CPC de 1973 não ostentava a completude como uma de suas características, sendo bastante protetivo em relação ao executado, e afastando-se em boa medida do ideal de efetividade, como visto no capítulo 2, retro.

Entretanto, se comparado ao seu antecessor, o CPC de 1939, houve uma tênue evolução no sistema executivo, representada pela aproximação do perfil da multa coercitiva ao perfil das astreintes do direito francês.

Como era evidente a necessidade de dotar a tutela jurisdicional, em especial, a tutela executiva, de maior efetividade, paulatinamente, introduziu-se em nosso ordenamento jurídico preceitos que permitiram a expansão da aplicação das medidas coercitivas, a começar pelo art. 84, da Lei nº 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor), que permitiu a aplicação de multas diárias, sem prejuízo das perdas e danos. Posteriormente, a Lei nº 8.952, de 1994, alterou a redação do art. 461, do CPC de 1973, estendendo essa mesma mecânica para todas as espécies de obrigações de fazer e de não-fazer. E, a Lei nº 10.444, de 2002, introduziu no CPC de 1973 o art. 461-A, estendendo o alcance daquele microssistema também para obrigações de dar coisa certa ou coisa incerta. Idêntica sistemática era aplicável às tutelas antecipadas, por força do disposto no art. 273, par. 3°, do CPC de 1973.

Toda essa evolução transformou nosso sistema executivo, que até então seguia o princípio da tipicidade dos meios executivos, e passou a se caracterizar como um sistema misto, permitindo ao juiz, de ofício ou a requerimento, determinar as medidas coercitivas necessárias e de conteúdo variável segundo as exigências do caso concreto.

Pode-se, nessa medida, afirmar que o CPC de 1973 evoluiu parcialmente rumo à completude do sistema executivo, faltando-lhe apenas a inserção de uma regra geral permissiva da concessão da tutela coercitiva em qualquer espécie de atividade executiva, inclusive, na obrigação de pagar quantia. Em síntese, faltou criar um poder geral de coerção, o que fez o CPC de 2015.

Como vimos (capítulo 2, retro), por muito tempo, os ideais do Estado liberal se fizeram sentir no processo civil de muitos povos, inclusive, no Brasil, com o oferecimento ao jurisdicionado de um sistema típico de tutela executiva, sem a liberdade de emprego de técnicas diversas daquelas, expressamente, previstas pela lei, com prejuízo evidente à efetividade da jurisdição.

Com o passar dos anos, e a evolução das necessidades sociais, esse sistema típico executivo mostrou-se insatisfatório para conferir ao jurisdicionado a efetividade quanto à satisfação de uma prestação não adimplida, dando ensejo às inúmeras alterações do CPC de 1973, que, como vimos, levaram à adoção de um sistema misto.

De conseguinte, a evolução rumo à completude do sistema executivo, completou- se com a entrada em vigor do CPC de 2015, que apresenta uma série de medidas coercitivas que devem ser aplicadas nas hipóteses previstas em lei, mas, que também confere ao magistrado, por força do seu art. 139, IV, o ‘poder geral de coerção’, permitindo-lhe determinar medidas coercitivas não previstas de forma geral, desde que sejam necessárias e pertinentes à obtenção da satisfação no caso concreto.

Entretanto, a existência do instrumental adequado de nada adiantará se a sua utilização não ocorrer de modo racional e dentro dos limites que o próprio sistema deverá estabelecer, à luz da evolução doutrinária e jurisprudencial.

Faz-se necessário, portanto, objetivar (ao máximo) o regime jurídico de aplicação das medidas coercitivas, o que reduzirá eventual arbítrio judicial, notadamente, em um sistema de precedentes judiciais, e também servirá para conferir segurança ao próprio sistema, encorajando o julgador a utilizar essas medidas, sempre que elas forem necessárias e adequadas ao caso concreto. Busca-se um equilíbrio, ainda que inexista uma fórmula padronizada para tal mister, o que precisa ficar claro.

8.2 O ART. 139, IV, DO CPC, COMO REGRA MATRIZ DO PODER GERAL DE

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