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6 AUTISMO E COMPLEXIDADE

6.1 Complexidade

Complexidade é uma noção utilizada em vários campos do saber cuja definição varia significativamente conforme a área do conhecimento. Aqui será tratada conforme abordada pelo filósofo Edgar Morin.

O filósofo francês Edgar Morin é um crítico contundente de abordagens simplificadoras e reducionistas das grandes questões. Propõe uma abordagem que leve em conta de modo amplo todos os aspectos e ambiguidades que cercam essas questões (complexas), ao que chama “pensamento complexo”. A necessidade dessa abordagem seria imposta progressivamente ao longo de um percurso onde surgiriam primeiro os limites, as insuficiências e as carências do pensamento simplificador.

A ciência e a técnica têm se desenvolvido lançando mão de modelos simplificados para representação de sistemas mais elementares. Esses modelos simplificados visam observar os aspectos mais significativos dos fenômenos, desprezando-se os menos significativos. Por exemplo, em mecânica é comum ser estudado o movimento de um objeto empregando-se modelos que desprezam a resistência do ar ao movimento, desde que o objeto se mova em baixa velocidade. Com base em simplificações como essa, modelos matemáticos descritos por

equações lineares são adotados para representar sistemas reais que efetivamente operam de modo não linear. Modelos simplificados desprezam diversas causas secundárias, supondo que os fenômenos dependam apenas de uma causa principal ou poucas causas principais.

Mas há sistemas de tal complexidade que a adoção de modelos muito simplificados conduzem a grandes erros. Os sistemas ecológicos de grande escala são um exemplo: são tantos os fatores em jogo que as simplificações produzem modelos por vezes geradores de conclusões falsas e perigosas. Fenômenos naturais de grande impacto frequentemente surpreendem os analistas. Em Economia, como alerta GEORGESCU-ROEGEN (2012), são usados modelos que apenas descrevem a circulação do poder de compra em um sistema fechado, como se nele nada entrasse e dele nada saísse. Esses modelos não levam em conta o papel da natureza, a qual interage com o processo econômico pelo fornecimento de matéria (finita) que retorna a essa natureza sob a forma de resíduos e poluição.

Os fenômenos que envolvem o comportamento humano são ainda mais complexos e de difícil previsão. O autismo envolve o comportamento humano e é um problema de grande complexidade. Diversas são suas supostas causas, diversos são seus efeitos nas pessoas, diversas são as propostas de seu manejo.

Para Edgar Morin,

A complexidade surge onde o pensamento simplificador falha. [...] Enquanto o pensamento simplificador desintegra a complexidade do real, o pensamento complexo integra o mais possível os modos simplificadores de pensar, mas recusa as consequências mutiladoras, redutoras, unidimensionais e finalmente ofuscantes de uma simplificação que se considera reflexo do que há de real na realidade (MORIN, 2011, p. 6).

Morin propõe o que denomina “paradigma da complexidade” para a análise dos problemas

complexos, e assinala que a consciência da complexidade faz compreender que jamais se poderá escapar da incerteza e que jamais se poderá ter um saber total.

Morin não acredita em uma totalidade que seja capaz de traduzir em si uma explicação completa de grandes questões complexas. Para ele, há que se conviver com as incertezas inerentes aos grandes problemas, com abertura às distintas interpretações e ideias que surgem. Valoriza o que

chama “princípio da dialógica”, variante da dialética, pelo qual os conceitos que se opõem

lembrando da física o fenômeno da luz: certos efeitos da luz são explicados pelo conceito de onda, outros pelo conceito de partícula, um único conceito não sendo suficiente para explicar todos os efeitos do fenômeno).

Combatendo a abordagem reducionista e simplificadora no tratamento dos problemas complexos, Morin afirma que não se pode conhecer o todo através da sua subdivisão em partes separadas. Para Morin, enquanto cada parte traz em si uma imagem parcial do todo (como um holograma), a reunião das partes é mais, e ao mesmo tempo menos, que sua soma, gerando a emergência de propriedades somente contidas no todo e escondendo propriedades singulares das partes. E resume, parafraseando Blaise Pascal, dizendo que “ [...] considero impossível conhecer as partes enquanto partes sem conhecer o todo, mas não considero menos impossível

a possibilidade de conhecer o todo sem conhecer singularmente as partes.” (MORIN, 2014, p.

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Esses elementos do pensamento de Morin servem como referência quando se percebe que considerar o autismo exige pensar as deficiências em sentido amplo, e, se se quer pensar a questão da deficiência, não se pode deixar de considerar o autismo. Além disso, o autismo é uma condição sobre a qual pairam grandes incertezas em relação a praticamente todos os seus aspectos, como anteriormente comentado.

O autismo, como uma deficiência cognitiva, é uma das mais enigmáticas condições, com diferentes teorias que tentam sua explicação a partir de diferentes conjecturas. Apresenta várias formas de comprometimento e recebe distintas abordagens terapêuticas. As pessoas autistas são discriminadas como o são as que possuem outras condições de vulnerabilidade. Ao mesmo tempo o autismo apresenta certas características únicas.

Interessa tentar encontrar o que é essencial entre as pessoas autistas independentemente do seu tipo de comprometimento. Sendo o autismo uma deficiência cognitiva, interessa observar também o que traz em comum com outras deficiências cognitivas, o que tem em comum com qualquer tipo de deficiência, e o que as pessoas autistas têm em comum com as pessoas vulneráveis e discriminadas em geral.

Em outro sentido, interessa ver, dentre os vulneráveis e discriminados, o que é específico das pessoas com deficiências em geral, dentre essas o que é específico daquelas com deficiências

cognitivas, e dentre estas o que é próprio das pessoas com autismo, e que seria ocultado se apenas considerado um conjunto muito amplo.

Reconhecendo a complexidade do autismo e as inevitáveis incertezas em sua interpretação, observa-se aqui o autismo evitando o abandono apriorístico das diversas teorias que tentam abordá-lo e explicá-lo, e justamente reunindo as visões, em princípio conflitantes, que podem conviver no sentido de serem encontrados os melhores caminhos para as pessoas dessa condição.