5. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
5.1 O Trabalho no CAPS
5.1.1 Complexidade do Trabalho
“É muita coisa que acontece, muita coisa se sobrepõe, é em camadas o negócio aqui. Não é só um quadro psíquico, não é só um diagnóstico. Todo mundo costuma dizer “ah você trabalha com transtorno mental!” e não é, nunca é só um transtorno mental, há sempre uma série de coisas, de situações muito mais graves, sociais, familiares de
uma pessoa que também tem um transtorno. O transtorno às vezes é a ultima coisa da fila.” – Ana
O relato de Ana traz um trabalho que não se realiza em uma linearidade, mas em uma
evolução dinâmica considerando-se vários planos, várias camadas. Para além de uma visão
simplificada, o trabalho no CAPS, na visão da participante, mostra-se complexo em função de
não simplificar ou reduzir as ações se baseando apenas no diagnóstico. Em muitos cenários, o
transtorno que se apresenta enquanto sintoma precisa que sejam incorporadas estratégias
variadas com a família, com o território, com outros mecanismos da rede e tal complexidade
exige que os serviços passem a incorporar toda uma ordem de estratégias, ao seu
funcionamento.
O trabalho em saúde mental vem se reestruturando nos últimos anos a partir da Lei
10.216, conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica (2001), e esse processo de
ressignificação é entendido como complexo por muitos autores (Ribeiro, 2015; Zgiet, 2016)
por reconfigurar as práticas e os serviços para uma nova forma de lidar com a “rede de saberes envolvidos no sistema de cuidado” (Ribeiro, 2015, p. 96).
“Hoje a gente fala muito de empoderamento, eu acho que essa é uma ideia que tem muito a ver com o que se faz no CAPS, a gente tem que dar suporte e dar subsídio para essas meninas e meninos, para eles poderem ser quem eles são dentro do mundo que a gente vive. O cuidado eu acho que é fortalecer essas pessoas que nos procuram, receber isso que pessoas vem de historias e realidades tão sofridas que não conseguem circular. Exercitar essa rede, pensar nos lugares, ir construindo as práticas.” – Isabela
A constituição dos CAPS, enquanto serviço substitutivo ao manicômio, e a premissa
pautada em uma lógica de cuidado que seja inclusiva e empoderadora, exige que os
produzem. Como já citado, fazer a crítica ao modelo manicomial, estando no lugar de práticas
substitutivas é estar no “olho do furacão” (Merhy, 2007).
Na rede de atenção à saúde mental, a complexidade do objeto - o sujeito que sofre e
não foi desapropriado de seu contexto social - redireciona a lógica de organização dos
serviços e dos processos de trabalho, os quais são “impelidos à adoção crítica de uma ética e
uma estética do cuidado, pautada no respeito às singularidades, na atenção integral e na
reapropriação das relações com a cidade e a cidadania” (Sampaio, Guimarães. Carneiro &
Filho, 2011).
Merhy (2007) afirma que, diante dos encargos desafiadores aos quais estão expostos,
os trabalhadores experimentam sentimentos intensos e antagônicos, cobrando de si mesmo e
da equipe uma disponibilidade, versatilidade e abertura difíceis de manter permanentemente, sobretudo “para aqueles que ofertam seu trabalho vivo para vivificar o sentido da vida do outro (Merhy, 2007, p. 6)”. O autor afirma a potencialidade do CAPS como um campo em
que as iniciativas duras e fechadas devem abrir espaço à experimentação e às possibilidades
de construção desse novo modo de cuidado à loucura, para tanto, reitera ser necessário: “construir um campo de proteção para quem tem que inventar coisas não pensadas e não resolvidas, para quem tem que construir suas caixas de ferramentas, muitas vezes em ato,
sendo cuidador, deve ser cuidado (p. 4).”
Merhy (2007) aponta que os CAPS, diante dessa magnitude, tornam-se lugares onde se
manifestam grandes desafios e para dar conta de demandas tão gigantescas e diversas,
necessitando que o profissional esteja aberto a operar no tamanho de sua potência e
governabilidade diante de um objeto complexo: a loucura. Nesse sentido, destaca-se a
importância do cuidado de si. Para Foucault (2009b), as práticas de liberdade criam e
estabelecidas em justa medida. Para o autor, aquele que cuida de si e de suas atividades saberá
manter relações adequadas com os outros.
“Aqui você tem que ter muitos olhares, não é só um. Você tem que sair do lugar de psicóloga, no CAPS você faz vários papéis, você vira enfermeira, você vira farmacêutica, você vira assistente social, você vira avaliador físico...” – Carol
Nessa perspectiva, a fala de Carol nos diz da posição do profissional diante da
complexidade dentro desses serviços. A dissolução de papéis e a necessidade que os
profissionais se reinventem no trabalho, no ato, é estratégia de enfrentamento à complexidade,
mas também indica a dissolução de papéis profissionais.
No dia a dia dos serviços, a demanda pela interdisciplinaridade confronta-se
continuamente com tais questões, gerando implicações importantes para a organização do
trabalho, como na difícil demarcação de fronteiras entre as profissões. O caminho proposto é
o estabelecimento de um espaço mais geral - o campo de competência/responsabilidade - que
não se oferece ao monopólio de nenhum saber ou prática e funciona como uma área de
confluência e de um espaço mais restrito - o núcleo de competência/responsabilidade -, que
estaria reservado às atribuições exclusivas de cada profissão (Merhy, 1997; Vasconcellos,
2010).
Essa construção necessita ser apreendida como um processo dinâmico. Assim, essa
articulação de saberes entre a equipe requer um movimento consciente e ativo dos agentes
para o reconhecimento das diferenças e desigualdades - diferenças técnicas entre as profissões
que são hierarquizadas e disciplinadas por meio de valores e normas sociais (Pedruzi, 2001;
Oliveira, 2008), porém sem esquecer que tais diferenças são igualmente históricas e, em
determinados momentos, podem perder seu sentido, exigindo novas mudanças.
Em suma, defende-se que o profissional que integra as equipes de saúde mental
aspectos que são despertados pelo cuidado de si. Para Gomes et al. (2018) a noção de ética
despertada pelo cuidado de si nas relações dos sujeitos, para consigo e para com os outros,
pode ser o caminho e possibilidade de construir junto, em prol de uma coletividade.