2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS
2.2 COMPLEXIDADE E CENÁRIOS DISTINTOS DE COMPREENSÕES DA
É fato que nas escolas de educação básica brasileira o exercício da gestão escolar nem
sempre é realizado por pedagogos ou especialistas neste campo. É permitida a ocupação do
cargo de diretor/gestor escolar aos licenciados e aos bacharéis que possuem formação para o
exercício docente. Nesta seara, transitam licenciados em pedagogia ou que possuem
formação em licenciaturas várias.
Não há, no contexto brasileiro, uma Lei Nacional que traga a exigência da certificação
ou curso de pós-graduação para o exercício desta função que, na maioria das vezes, é tratada
como cargo provisório. É comum que seja exercida por pedagogos que passaram por uma
formação geral, o que os habilita a serem professores e a atuar em diferentes funções nos
órgãos de administração educacional e escolar.
Noutros países, a investidura na função de dirigente escolar transita por exigências
diversas. Em Portugal, por exemplo, um dos critérios para candidatar-se ao cargo de diretor
escolar é a formação especifica em Administração Escolar. Entretanto, pelo fato de não
existirem candidatos com formação especializada, permite-se que profissionais sem a
especialidade e com experiência em gestão se habilitem.
No Canadá, cada província cria suas regras de seleção, podendo exigir a
especialização ou mestrado e cursos de capacitação. Na Inglaterra, os candidatos passam por
teste e entrevistas, além de ser obrigatória a sua participação em programa de formação
específica. Países como Espanha, França e Finlândia exigem a experiência na docência.
Na Espanha, um dos critérios para assunção ao cargo de gestor escolar é a experiência
como docente por um período de cinco anos, sendo também exigida aos postulantes à função
a apresentação de uma proposta de gestão à escola. Na França, a experiência exigida como
professor é de dois anos.
A Finlândia, além da docência, exige a especialização na área, sendo a formação
especializada ofertada pelo órgão local promotor da educação. Nos Estados Unidos, a
certificação é exigida e os dirigentes passam por avaliações promovidas pelo Conselho de
Educação local.
Percebe-se nos exemplos citados que cada nação elenca os requisitos profissionais
para o exercício de dirigente das escolas partindo de perfis e critérios que são delineados a
partir do que órgãos nacionais postulam como formação necessária ao bom desempenho do
profissional que pleiteia o seu exercício.
No Brasil, a caracterização quanto ao perfil profissional e formação para o exercício
da direção escolar indica diferentes debates.
Compreensões que acreditam ser a docência um fator de exigência para o cargo de
dirigente encontram respaldo desde Anísio Teixeira (1961), que arguia que a preparação em
administração escolar é caminho para o sucesso pedagógico. Para Lück (2010), esta exigência
evidencia possibilidades e limitações.
Teixeira (1961) criticava a falta de formação neste campo:
Não me consta que os administradores se preparem no Brasil. Parece que não há
administração no Brasil no sentido real de algo que se possa aprender e, muito
menos, em educação, onde, ao que parece, nunca houve busca de administradores
para as escolas. Qualquer pessoa pode dirigir as escolas. Qualquer pessoa pode
administrar o ensino. (TEIXEIRA, 1961, p.44)
Anísio Teixeira (1964) quando assumiu a direção do Departamento de Educação do
Distrito Federal foi defensor ardoroso da formação em nível superior e propôs a criação da
Universidade do Distrito Federal (1935) composta pelo Instituto de Artes, Escolas de
Educação, Filosofia, Ciências, Economia e Direito. No tocante à formação dos quadros de
pessoal que vivenciariam a função de administradores escolares, para este educador, os
saberes desse campo se constituiriam quando o professor estivesse exercendo a docência.
Segundo ele, “ao longo do seu ministério, poderá especializar-se em supervisor, ou professor
de professores, em conselheiro ou orientador, ou guia dos alunos, ou em administrador
escolar” (TEIXEIRA, 1964, p.5).
Anísio (1961) acreditava que a necessidade de termos as especialidades no campo da
administração escolar deviam-se ao fato de não termos, naquela época, professores bem
formados para atender à complexidade de demandas da escola da modernidade, sendo
necessário “saberes especializados”. Ao administrador escolar cabia o papel de coordenador
de equipes, um mediador-inovador, que tinha responsabilidades, mas não era o único
responsável pela organização escolar e sim a equipe que ele coordenaria. Segundo o educador,
o exercício da função docente em sala de aula propicia um olhar da “obra completa da
educação”. (TEIXEIRA, 1961, p.48).
Para Lück (2010), os movimentos na área da gestão escolar apontam a tendência
mundial para a qualificação/profissionalização via formação continuada, considerando que as
exigências técnicas serão atendidas por meio de certificação em serviço.
A gestão escolar como processo de humanização e promotora do exercício da
democracia convive com confrontos que podem vir a produzir consensos cujos efeitos serão
vividos no nível da organização da sala de aula e/ ou no projeto de vida pessoal e coletivo dos
indivíduos que nela convivem.
A gestão escolar da atualidade saiu da zona de distanciamento de informações do que
ocorre no intra-muro da escola. A sociedade do século 21 obriga gestores, pais e estudantes a
conviverem com informações educacionais dos seus contextos locais e globais e neste sentido,
a sociedade cobra compromissos e responsabilidade dos que atuam nos contextos educativos.
Vivemos na sociedade da informação e direta e indiretamente somos cobrados por índices
avaliadores e designadores de desempenhos de ensino e aprendizagens realizadas, como o
Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA), Índice de Desenvolvimento da Educação Básica
(IDEB) e Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).
A Gestão educacional é entendida como área de conhecimento, que tem por
especificidade a compreensão da organização escolar nas suas várias dimensões, e deverá
contribuir para a compreensão dos processos e produtos advindos das interações realizadas no
espaço educacional.
A exigência de formação docente para atuar na administração escolar não é consenso
entre estudiosos deste campo, havendo pensamentos divergentes.
Paro (2009) salienta a necessidade de uma formação “fundamentada no pedagógico e
nas potencialidades da educação como prática democrática” (PARO, 2009, p.456- 459). Já
Libâneo, Oliveira e Toschi (2007) acreditam que não é necessário ser docente para exercer as
funções de coordenador pedagógico ou gestor escolar.
A formação que guiava a profissionalidade dos gestores escolares limitou-se, durante
um bom tempo, à obediência e cumprimento de preceitos legais. Vale salientar que as Leis
de Diretrizes e Bases da Educação Nacionais (LDBEN: Lei 4024/1961/ Lei 5692/71/ Lei
9394/96) não apresentam exigências com especificidades para a função de
dirigente/administrador/gestor escolar. Entretanto, as demandas sociais e as reivindicações das
entidades representativas da categoria fizeram com que este campo percorresse um longo
caminho até os dias atuais.
No contexto brasileiro, a formação continuada dos indivíduos que estarão habilitados
para exercer a gestão escola traduz-se, grosso modo, como uma proposta/ programa de
estudos de curta-duração que propicia o conhecimento de instrumentos da organização
administrativa e pedagógica da escola.
Velhos e novos direitos, problemas e perspectivas apresentam-se aos gestores das
escolas do século XXI: fracasso escolar, repetência, políticas e programas diversificados via
descentralização de recursos, incompreensão e insuficiência de competências formativas para
trabalhar nos âmbitos políticos, pedagógicos, administrativos, sociológicos, psicológicos
presentes no dia a dia escolar. Um campo vasto, que inclui uma multidimensionalidade de
saberes que serão consolidados, significados na arena da cotidianidade escolar.
Dentre os saberes exigidos, imputa-se a este profissional, devido à sua posição
estratégica, a capacidade de gerir processos democráticos e participativos na organização
escolar.
Conforme Nóvoa (2004), a gestão escolar enquanto campo da formação, não deve
alicerçar-se apenas nas dimensões técnicas e tecnológicas. Ele destaca que o processo
formativo precisa ser compreendido sob novo olhar e que se deve dar atenção para “as
pessoas dos formandos e dos formadores”.
Macedo (2007, p. 18), por sua vez destaca
[...] estamos ainda vivendo num ethos e num habitus sociopedagógico que dá
preferência ao modelo, à coisa e ao sistema pré-montado, em detrimento das
pessoas, suas demandas formativas, referenciais culturais e históricas; em
detrimento dos contextos e seus interesses indexalizados ao complexo mundo do
trabalho e da produção; e em detrimento por consequência, do debate de sentidos
que deve ser formulado no coletivo social.
Silva (2007) corrobora com esta preocupação dos sentidos e do efeito da formação na
singularidade do sujeito. “É importante ver o currículo não apenas como sendo constituído de
“fazer coisas” (aquilo que fazemos) mas também vê-lo com “fazendo coisas às pessoas” - os
efeitos – o que ele nos faz”. (SILVA, 1996, p.164)
A este respeito, Lima (2007), referindo-se à gestão das escolas portuguesas, demonstra
preocupação, quanto à natureza das práticas dos dirigentes e questiona os procedimentos
formalísticos.
O problema crucial não reside na quantidade de decisões e micro decisões, ou sequer
no carácter colegial e formalmente democrático de muitos processos deliberativos
que ocorre nas escolas. Reside, sim, na natureza e no alcance dessas deliberações e
na indispensável distinção entre decidir orientações políticas e regras ou decidir
apenas sobre procedimentos gerenciais para a sua execução em conformidade,
mesmo assim fortemente condicionada por um extensíssimo corpus de regras e
procedimentos impostos aos atores periféricos. (LIMA, 2007, p.53)
As interlocuções realizadas durante o processo de formação produzem várias
possibilidades de atuação de um profissional. A significação das aprendizagens vividas por
um pedagogo produz vários discursos. Elas autorizam certos grupos e ao mesmo tempo
cerceiam outros. Neste veio, é importante, pensar a lógica processual formativa adquirida e os
sentidos dados às ações a serem empreendidas por esse ator no contexto de sua
profissionalidade. Isso nos remete à compreensão da ação formativa vivida no seio da
Universidade como ato que intenta a reconstrução do ser responsável, que comporta a
consciência da responsabilidade social.
Responsabilidade é uma palavra que vem do latim respondere, que significa
“responder, prometer em troca”. Situa-se no âmbito dos conceitos complexos, pois nele estão
inseridos elementos advindos da psicologia, da ética, da justiça e do ser individual e coletivo
na consecução de seus atos no mundo.
Desta forma, compreendemos que os futuros pedagogos gestores escolares são pessoas
que respondem por atos seus e de outros no âmbito de uma organização escolar. A
responsabilidade não é algo inato e, no campo do exercício profissional, por vezes, demanda
aprendizagens. Ou seja, o saber construído à gestão escolar não será “mediato e utilitário”, é
construção que promoverá uma ação profissional reflexiva, responsiva, criativa e solidária.
Segundo Jonas apud Normando (2012), há dois tipos de responsabilidade que se
destacam na contemporaneidade: a responsabilidade circunstancial (contratual) e a
responsabilidade global (natural). O autor refere-se à primeira como responsabilidade
“artificial” e à segunda como “responsabilidade natural”. Este autor destaca que, quando
somos investidos numa situação de relação de homem-público e poder, somos investidos de
responsabilidades que extrapolam o circunstancial. “[...] o homem público, no pleno sentido
da palavra, ao longo da duração do seu mandato ou poder, assume a responsabilidade pela
totalidade da vida da comunidade, por aquilo que costumamos chamar de bem público”
(JONAS. H. 2006, p. 180, apud Normando, 2012, p.12).
Neste sentido, nos aproximamos dos argumentos de Morin (2001) que, na sua posição
contrária ao saber especializado, recorda que face ao desenvolvimento de uma civilização
individualista ocorre o degradamento da responsabilidade e da solidariedade pessoal que
existia na comunidade.
Torna-se muito difícil conceber a responsabilidade em um universo
hiperespecializado e hiperburocratizado. Por quê? Porque, em uma administração
compartimentada, cada qual sente-se responsável apenas pelo setor sob sua
jurisdição, tendendo a perder de vista o conjunto e mesmo a função social e solidária
(MORIN, 2001, p.35).
No documento
Universidade Católica do Salvador
(páginas 80-85)