3. CONCEPÇÃO EPISTEMOLÓGICA: ESCOPO DO MÉTODO
3.1. Complexidade e multirreferencialidade: fundamentando um olhar mais
A pesquisa compõe-se de forma multirreferencial, com a intenção de desenvolver uma compreensão mais sensível ao contexto e à complexidade do tema. Visa abarcar os campos do currículo e da formação, transversalizados pelas questões dos saberes e experiências locais, contextualizados e emergentes, como nos legam os estudos fenomenológicos e complexos. A opção de trazer a complexidade e a multirreferencialidade como abordagem epistemológica e teórico- metodológica que nos amplia a condição de reconhecer o outro e seus saberes fora feita.
O termo complexo nesta teoria deriva-se do latim complexus, que é entendido como aquilo que é tecido em conjunto, na realidade como um todo, um tecido interdependente, antagônico e também complementar.
A complexidade de acordo com Morin;
À primeira vista é um fenômeno quantitativo, a extrema quantidade de interações e de interferências entre um número muito grande de unidades. De fato todo sistema auto-organizador (vivo), mesmo o mais simples, combina um número muito grande de unidades da ordem de bilhões, seja de moléculas numa célula, seja de células no organismo [...] Mas a complexidade não compreende apenas quantidades de unidade e interações que desafiam nossas possibilidades de cálculo: ela compreende também incertezas, indeterminações, fenômenos aleatórios. A complexidade num certo sentido sempre tem relação com o acaso (MORIN, 2005, p.35).
O complexo nos termos de Morin (2005) contrapõe-se ao pensamento simplificador, tal pensamento é denominado pelo autor como “Paradigma Simplificador, [...] um paradigma que põe ordem no universo, expulsa dele a desordem” (MORIN, 2005, p.59). O complexo é aquilo que engloba em várias dimensões espaço temporais, diferentes realidades, mas não como uma soma apenas, e sim com interações com unidade. É importante compreender que a complexidade não conduz à eliminação da simplicidade. O pensamento complexo atravessa todos os prováveis modos simplificadores de pensar, no entanto não dá
espaço às implicações redutoras, unidimensionais e mutiladoras, diferente do pensamento simplificador, que desfaz a complexidade da realidade.
Nessa teoria, é importante compreender também as distinções entre complexidade e completude. O objetivo da complexidade é manejar as articulações entre os distintos campos disciplinares que são desconectados pelo pensamento disjuntivo. Desse modo, o pensamento complexo busca o conhecimento multidimensional. Porém reconhece a impossibilidade de alcançar o conhecimento por completo. Sendo assim, Morin (2005) sugere o reconhecimento de um princípio de incompletude e incerteza, além do reconhecimento da ligação entre os aspectos que a mente deve distinguir sem isolar uma das outras, constituindo a noção de completude.
O pensamento complexo almeja um saber não fragmentado, que não seja redutor, e reconheça que qualquer conhecimento está incompleto, inacabado, e sendo assim, pode ser questionado e reformulado. O pensamento complexo propõe o respeito às diversas dimensões do conhecimento, rejeita os universalismos, as generalizações. Além disso, procura reavaliar o papel do/a pesquisador/a, na relação sujeito e objeto, fazendo uma critica a visão do sujeito encarado como neutro no processo de pesquisa. A complexidade não compreende a neutralidade, a imparcialidade entre sujeito e objeto, a não interferência do sujeito no objeto e do objeto no sujeito. Combate o hiperatrofiamento cognitivo, decorrente de hiperespecialização, e considera uma patologia a crença de que a razão pode reduzir tudo a um sistema coerente de ideias e explicações.
Nos estudos acerca da multirreferencialidade, Ardoino (1998), busca “fornecer uma contribuição analítica à inteligibilidade das práticas sociais”. Essa contribuição nos traz elementos fundamentais para desenvolvermos uma compreensão do sujeito cultural na condição de (co)autor de si mesmo e de sua realidade no diálogo com sua própria experiência e com o outro, abrindo-nos para “diferentes perspectivas de leituras possíveis” do real.
Assumindo plenamente a hipótese da complexidade, até mesmo da hipercomplexidade, da realidade a respeito da qual nos questionamos, a abordagem multirreferencial propõe-se a uma leitura plural de seus objetos (práticos e teóricos), sob diferentes pontos de vista, que implicam tanto visões específicas quanto linguagens apropriadas às descrições exigidas, em função de sistemas de referências distintos, considerados, reconhecidos explicitamente
como não redutíveis uns aos outros, ou seja, heterogêneos (ARDOINO, 1998, p. 24).
Contribuições da abordagem multirreferencial são importantes serem trazidas para esta discussão. Objetivando uma melhor compreensão dos fenômenos sociais – mais especificamente aos que se atêm no âmbito da formação –, a discussão da abordagem multirreferencial no âmbito da educação estabelece uma linha diferenciada dos pressupostos teóricos positivistas, amplamente sedimentados no campo educacional. O modelo positivista de pensar e fazer ciência vem sendo confrontado por paradigmas que adotam a complexidade, onde o pensamento simplificador perde eficácia na explicação dos fenômenos sociais, físicos e biológicos.
A perspectiva multirreferencial está diretamente atrelada ao reconhecimento da complexidade e da diversidade, que caracterizam as práticas sociais no processo educacional. Em suas palavras multirreferencialidade é a “pluralidade de visões dirigidas a uma realidade e, em segundo lugar, uma pluralidade de linguagens para traduzir esta mesma realidade e os olhares dirigidos a ela” (ARDUINO, 1998, P.205). Ardoino desenvolveu o que foi chamado de modelo da inteligibilidade das organizações de sínteses, o que o conduziu à aproximação com outras correntes com intuito de compreender o complexo. Na perspectiva de Ardoino, o surgimento da abordagem multirreferencial está atrelado ao reconhecimento da complexidade e da heterogeneidade. Explicita a abordagem multirreferencial assumindo a complexidade, que de acordo com a sua compreensão é o “que contém, engloba […], reúne diversos elementos distintos, até mesmo heterogêneos” (ARDOINO, 1998, p. 24).
O método multerreferencial caracteriza-se sobretudo pelo entendimento não particularizado, pela pluralidade e heterogeneidade. A noção de multirreferencialidade propõe-se, portanto, abordar as questões provenientes dos estudos epistemológicos – com a perspectiva de estabelecer interpretações mais complexas – a partir da junção de diversas análises teóricas, de uma pluralidade das referências. Tal olhar, nos ajuda a elucidar ascontribuições desta teoria para nossa pesquisa.
Tendo em vista o papel central das/os atrizes/es da pesquisa, enxergando- as/os como atrizes/es não imbecilizados, consideramos a noção de autorização para a multirreferencialidade como basilar para o desenvolvimento deste estudo. “O
conceito toma importância etnoconstitutiva na medida em que, predominantemente, nossas ações ditas formativas têm uma longa e violenta história desautorizante” (MACEDO, 2016, p. 82). Autorização aqui está diretamente ligada à prática dos indivíduos no mundo, à sua condição de intérprete das suas realidades e à sua experiência existencial como ação transformadora.
A perspectiva de autorização, para Ardoino, está intimamente ligada à compreensão de prática como práxis, como política. No processo de ação sobre o mundo, o sujeito transforma-se e esta ação de transformação pessoal e mundana é política, é práxis (MACEDO DE SÁ, 2013, p. 36).
Tais conceitos apresentam-se para a pesquisa como teoria que fundamenta a escolha de olhar mais diretamente para as experiências dos indivíduos, considerando tanto o caráter coletivo e social quanto o existencial dessas experiências, sem abrir mão de descrevê-las nas suas particularidades. Fundem-se na compreensão da necessidade de estabelecer uma sintonia para um conhecimento amplo, que não limita-se apenas a um campo para ter uma visão mais abrangente e integradora.