CAPÍTULO III RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.2 O QUE NOS DIZ OS PROFESSORES: análise das entrevistas
3.2.4 Segunda Categoria –Educação e Complexidade
3.2.4.2 Complexidade educacional
Educação e sociedade são discutidas por Moraes (2008), como sendo sistemas complexos por envolver diferentes áreas do conhecimento e que apresentam uma forma de olhar com maior abrangência para se chegar à solução de problemas.
A respeito desta realidade, os informantes foram questionados sobre suas concepções de complexidade educacional. 80% (P7, P3, P9, P2, P5, P6, P8 e P10) apresentaram respostas coerentes, tais como: teia de informação, educação transdisciplinar, diferentes níveis de conhecimento, mudança e dinamismo. Por outro lado, apenas 20% (P1, e
No
me
1º ASPECTO: TEORIA DA COMPLEXIDADE
Dinâmico de variáveis Pluralidade conhecimento Conjunto de formado Todo por partes
Obstáculo Não quis falar
P1 X P2 X P3 P4 X P5 X P6 X P7 X P8 X P9 X P10 X 2ª CATEGORIA
P4) apresentaram respostas confusas como, dificuldade de educar e desequilíbrio entre razão e emoção.
A seguir, a figura 18, expõe fragmentos dos discursos de professores que apresentaram conceitos relacionados ao aspecto: complexidade educacional.
Figura 18: Representação do aspecto- complexidade educacional (1ª parte) /segunda categoria. Fonte: Pesquisa de campo.
“Olha eu nunca estudei teoria da complexidade com o foco na educação, mas eu vejo que essas dinâmicas que causam rupturas e quebram os paradigmas é que provocam um processo de novas mudanças para essas rupturas”. (P9)
COMPLEXIDADE EDUCACIONAL “É o todo com várias partes, com várias vertentes,
por exemplo, você está hoje dentro de uma concepção pedagógica e mais a frente ela está sendo mudada, então precisa ter a inovação, e é por isso que é tão complexa. Quando você pensa que entendeu ela já está sendo mudada, isso porque a mudança é a única constante.” (P7)
“Eu acredito que trabalhar educação é naturalmente complexo, porque os campos de saberes e os vieses são
diversificados. Acredito que essa teia de informação é que gera essa complexidade, pois é um
emaranhado de informações, [...]. (P5)
A complexidade está relacionada com esse
dinamismo em que a sociedade se encontra e que os conceitos que se prega atualmente ele já não atendem o que realmente é exigido nesse mundo
turbulento e louco em que nos encontramos.”(P2)
“É a complexidade do pensar, da cultura, das opiniões diferentes, eu estou sempre mostrando aos meus alunos que é preciso ter respeito pela opinião de cada um”. (P8)
“[...] acredito que seja algo que envolva vários conteúdos que abrange todas as disciplinas de maneira transdisciplinar, [...]”. (P6)
“Olha [...] trabalhamos com alunos de origens diversas, temos aqui alunos de escolas particulares e públicas e o nosso aluno chega aqui com muita dificuldade em avançar e compreender o que estamos trabalhando, pois são muito heterogêneos em nível de conhecimento, e isso pra mim é uma forma de complexidade educacional”. (P10)
“A minha linha de formação foi baseada em cima da teoria das inteligências múltiplas, então a concepção que eu tenho é que cada um tem as suas habilidades, e cabe ao ducador analisar o aluno, saber se ele tem um raciocínio lógico mais apurado ou não, se ele possui uma linguística verbal melhor, uma inteligência rítmica mais desenvolvida do que o outro colega. Logo a gente parte do princípio de que cada pessoa é única e que essa heterogeneidade de cada pessoa é que vamos formar essa teoria da complexidade”. (P3)
Na perspectiva de P7 e P9, a ideia de complexidade educacional, relaciona-se a um processo de mudança, em que a realidade está sujeita a rupturas de paradigmas: “[...] eu vejo que essas dinâmicas que causam rupturas e quebram os paradigmas é que provocam um processo de novas mudanças para essas rupturas”. (P9). Para Torre (2002), a mudança é a
prova serena de qualquer processo formativo, nos permitindo perceber a importância de nossos erros como níveis mais abrangentes. Assim, a mudança é entendida como uma espécie de organizadora da realidade e base para a construção do conhecimento.
Deste modo, observou-se também na fala do P7 uma confirmação sobre a fala do
P9: “[...] por exemplo, você está hoje dentro de uma concepção pedagógica e mais à frente
ela está sendo mudada, [...] Quando você pensa que entendeu ela já está sendo mudada, isso porque a mudança é a única constante.” (P7).
Neste mesmo viés, Freire (1979) explica este processo de mudança como sendo uma realidade dialógica e não dialética. Entretanto, o autor esclarece que a questão da dialógica não se relaciona com uma ação descomprometida, mas com uma mudança constante da realidade sem manipulação. Sendo assim, dentro de uma perspectiva didática, significa envolver o diferente e unir cada elemento do processo ensino-aprendizagem (NAVAS, 2010). Em uma postura harmônica a esta questão, P2 entende este processo de mudança dentro de um dinamismo próprio da sociedade atual: “A complexidade está relacionada com
esse dinamismo em que a sociedade se encontra [...]”.
No entanto, foi percebido na continuidade de seu discurso, um tom forte e negativista, na medida em que adjetiva a sociedade atual como sendo um mundo louco e turbulento: “[...] os conceitos que se prega atualmente ele já não atendem o que realmente é exigido nesse mundo turbulento e louco em que nos encontramos”. Contribuindo com esta
discussão, Nerici (1973) reforça que o processo didático deva ser uma realidade dinâmica e não estática, que esteja em constante processo de ajuste da realidade.
Doravante, o informante P5, que no aspecto anterior, se recusou a responder sobre a teoria da complexidade, alegando desconhecer totalmente o assunto, quando perguntado sobre o que pensa de complexidade educacional, apresentou conceito bastante relevante, como sendo uma teia de informação: “Eu acredito que trabalhar educação é naturalmente
complexo, porque os campos de saberes e os vieses são diversificados. Acredito que essa teia de informação é que gera essa complexidade, pois é um emaranhado de informações, [...]”.
A fala deste participante é confirmada por Capra (1996) em uma discussão importante para a complexidade na sua obra “teia da vida”. O autor explica que a teia da vida é uma concepção muito antiga, explorada inclusive por filósofos e poetas na tentativa de transmitir seu sentido de entrelaçamento e de interdependência de todos os fenômenos.
Reconectar-se com a teia da vida, diz o autor, implica construir, nutrir e educar comunidades sustentáveis, alcançando objetivos e necessidades sem comprometer as gerações futuras. O autor ainda explica, que para atender a tal desafio, é preciso aprender a ser ecologicamente alfabetizados, reestruturando as comunidades, sobretudo, as comunidades educativas, para que se manifestem atuando com base em princípios que envolvam educação, administração e política.
Mantendo o nível e coerência sobre a temática em questão, o P6 entende a complexidade educacional como sendo uma realidade transdisciplinar. “[...] acredito que seja
algo que envolva vários conteúdos que abrange todas as disciplinas de maneira transdisciplinar [...]”. Observa-se aqui, uma visão aberta do conhecimento, em que um
conteúdo perpasse por todas as disciplinas, sem delimitação de um início ou um fim.
É justamente neste ponto, que Nogueira (1998), chama atenção para o fato que esta realidade transdisciplinar pareça ser um tanto quanto utópica, pelo fato de não ser apenas uma integração de saberes, mas, um sistema sem fronteiras, impossibilitando identificar o começo ou o fim de uma disciplina.
Para Morin (1994), a dificuldade de se chegar a este nível de realidade, se dá pela influência ainda presente do pensamento cartesianista e reducionista, próprio da ciência positivista moderna. Tal mudança só seria possível através da reforma do pensamento guiada pelos princípios da complexidade.
É possível ainda observar na fala de outro participante (P10), sua dificuldade de lidar com seus alunos em razão dos diferentes níveis de conhecimento: “Olha [...] temos aqui alunos de escolas particulares e públicas e o nosso aluno chega aqui com muita dificuldade em avançar e compreender o que estamos trabalhamos, pois são muito heterogêneos em nível de conhecimento [...]. Esta questão de níveis de realidades diferentes, precisa ser percebida e
explorada com muita sensibilidade, como explica o informante P3:
“[...] cada pessoa é única, e que essa heterogeneidade de cada pessoa é que vamos formar essa teoria da complexidade”.
Moraes (2010) acrescenta que a realidade é complexa, por apresentar níveis de realidades diferentes. Além do mais, sem a compreensão desta questão, o indivíduo se torna incompreensíveis e intolerantes com o outro. Assim estes níveis de realidades, permitem lidar e reconhecer outras formas de conhecimento, facilitando, o processo de aprendizagem (NICOLESCU, 1999). A figura 19 informa as falas dos dois professores que apresentaram dificuldades em conceituar complexidade educacional.
Figura 19: Representação do aspecto- complexidade educacional (2ª parte) /segunda categoria. Fonte: Pesquisa de campo.
Dos dez participantes, estes dois são os que apresentaram mais dificuldade em elaborar um discurso mais coerente em relação ao aspecto complexidade educacional. Observe que o P4 associa o desequilíbrio entre razão e emoção como sendo uma educação complexa: “[...] é que nós temos alunos de diversas áreas de formação e de conflitos
familiares que muitas vezes têm uma dificuldade em achar o equilíbrio entre razão e emoção, por isso a educação atinge um grau de complexidade muito grande [...]”
O grande problema desta fala é a velha compreensão dualista de tomar o simples como referência para o complexo. Ou seja, para P4, o fato de encontrar dificuldade na relação entre razão e emoção, caracteriza-se como um processo educacional complexo. Afirmar isto é um equívoco, pois a complexidade caracteriza-se por sua reintegração dialógica da realidade,
[...] é que nós temos alunos de diversas áreas de formação e de conflitos familiares que muitas vezes têm uma dificuldade em achar o equilíbrio entre razão e emoção, por isso a educação atinge um grau de
complexidade muito grande. Por isso muitas vezes nós não atingimos o nível que gostaríamos e por esse motivo às vezes trabalhamos na média. Nós, muitas vezes queremos criar um processo mais
aprofundado e não conseguimos, felizmente a educação ela gera essas discussões mas a gente não consegue avançar como
gostaríamos”. (P4)
“Educar já é difícil por si mesmo, sem que tenhamos de especificar exatamente um problema, passar o conhecimento é complexo, pois não há como medir nível de educação de forma simples, uma vez que existem muitas opções, probabilidades e possibilidades. Educação é complexa pela dificuldade de reconhecer se a educação está sendo realizada.” (P1)
COMPLEXIDADE EDUCACIONAL
entre fé e razão, arte e ciência, homem e natureza. Trata-se, portanto, de uma rede com interconexões apoiada na transdisciplinaridade (NASCIMENTO, 2008; MORIN 2002).
Doravante, foi percebido em seu discurso um tom de frustração em razão desta realidade ao relatar que muitas vezes, não atinge o nível que gostaria limitando-se sempre a uma atuação média nas suas atividades.
Neste mesmo caminho, P1 atrela o fator “dificuldade” ao processo educacional complexo: “Educar já é difícil por si mesmo, sem que tenhamos de especificar exatamente um problema, passar o conhecimento é complexo, pois não há como medir nível de educação de forma simples, [...] Educação é complexa pela dificuldade de reconhecer se a educação está sendo realizada.”
O quadro 07 destaca os principais elementos que foram identificados nas falas dos professores, quanto ao aspecto, “complexidade educacional.”
Quadro 07: Principais falas do 2º aspecto “complexidade educacional/2ª categoria. Fonte: Pesquisa de campo.
Sobre o aspecto complexidade educacional, constatou-se que 80% dos professores (P7, P3, P9, P2, P5, P6, P8 e P10) ainda que não conhecendo sistematicamente a teoria da complexidade, conseguiram elaborar conceitos relevantes para uma educação complexa. “Diferentes níveis de conhecimento” foi a categoria que envolveu maior número de participantes (P3, P8 e P10), seguido da categoria “mudança” envolvendo dois participantes (P7 e P9). Na mesma perspectiva de coerência, dinamismo, teia de informação e
No
me
2º ASPECTO: COMPLEXIDADE EDUCACIONAL
Mudança Dinamismo informação Teia de
Educação trans disciplinar Diferentes níveis de conhecimento Dificuldade de educar Desiquilí brio entre razão e emoção P1 X P2 X P3 X P4 X P5 X P6 X P7 X P8 X P9 X P10 X 2ª CATEGORIA
transdisciplinaridade foram categorizadas cada uma delas por três professores. Por outro lado, na contramão da discussão, dois professores (P1 e P4) demonstraram não conhecer a concepção de uma educação complexa, apresentando conceitos incoerentes como: dificuldade de educar e desequilíbrio entre razão e emoção.