PARTE I – OS “ARS” E OS ANOS 30 EM PORTUGAL
Capítulo 3.º – Condição hipertextual e desafio hermenêutico
3.1. Desafio hermenêutico
3.1.1. Complexidade hipertextual
Será difícil estabelecer uma hierarquização para a complexidade relativa de cada período histórico.
No entanto, dada a sua proximidade temporal, esta é uma época que ainda não nos é oferecida em palimpsesto, isto é, como uma sobreposição ordenada e estratificada de camadas temporais e
semânticas, mais ou menos actuantes umas sobre as outras, de um modo mais ou menos rasurado, mais ou menos nítido.
A comparação que nos parece mais adequada para a leitura deste tempo é a do hipertexto, ou seja, a de um conjunto de nódulos interactivos – e não de estratos – de significações múltiplas e variáveis. Vejamos de seguida as justificações para a plausibilidade desta comparação.
• Uma primeira explicação para esta complexidade hipertextual poderá ser encontrada na
elevada e veloz mutabilidade da época e dos seus protagonistas. Como vimos, este foi um
tempo de revoluções e de convulsões, que o foram tanto a nível político e económico, mas
também social, cultural e artístico.
Como já tivemos oportunidade de vincar, esta mutabilidade tinha por contrapartida a consciência aguda do passado histórico e da gravidade das heranças culturais que lhe estavam associadas, em especial daquelas ligadas às ideias de nação, de grupo ou de classe.
O que nem sempre é notado é que, perante estas alterações drásticas, os protagonistas assumiram
também posições extremas e convolvidas, mas muitas vezes contraditórias entre si. Se nos depa-
ramos com afirmações decididas e claras por parte de algum deles, logo as podemos ver negadas, ou
pelo menos veladas, imediatamente a seguir.
A desmultiplicação, a dissimulação, a blague e a ironia, mas também o cinismo e o cabotinismo, foram armas e recursos muitas vezes utilizados, e que turvam a nossa visão do papel de cada um dos
actores nas múltiplas tragédias e epopeias que então se desenrolaram. Em 1930, analisando esta
situação, notou Ortega y Gasset (s/d, p. 109):
Quase todas as posições que se tomam são internamente falsas. Os únicos esforços que se fazem visam a fuga do seu próprio destino, a cegueira ante a sua evidência e o seu apelo profundo, evitar cada qual a acareação com esse tem que ser. Vive-se humoristicamente e tanto mais quanto mais tragicómica for a máscara adoptada.
Em Portugal temos a cristalização artística máxima de todas estas estratégias de vivência, quando não mesmo de sobrevivência, na obra de Fernando Pessoa. Parece-nos, também, que o grande
especialista político desta arte, talvez um dos maiores entre os seus contemporâneos, foi Salazar,
que a elevou à condição superlativa e maquiavélica de condução dos assuntos do Estado, estendo-a
• Aqui surge a segunda possibilidade de explicação para a especificidade deste período. As
gerações que a conformaram foram também muito peculiares. Não será por acaso que os americanos classificam a geração que enfrentou sucessivamente a Primeira Grande Guerra, a
Grande Depressão e a Segunda Grande Guerra como The Greatest Generation. Uma geração de maiúsculas, portanto.
Tudo indica que ocorreu neste momento exacto da História ocidental uma confluência do aumento da
quantidade e da qualidade da escolarização a nível liceal e universitário, por um lado, com um lastro de uma visão estóica, quase monástica ou militarizada, da vivência da adolescência e da juventude, por outro.
Esta conjugação terá contribuído para a criação, a nível internacional e pela primeira e última vez na
História, de um escol de seres que combinavam uma elevada preparação académica com uma obsti-
nada combatividade, e a quem facilmente podemos chamar extraordinários.
Os exemplos abundam, e a análise de qualquer uma das suas biografias é suficiente para se
compreender como os seus percursos são tão diferentes dos nossos, mesmo com meros sessenta ou setenta anos de diferença.
Para fugir deliberadamente da figura do artista-herói, cuja perspectiva nietzschiana, predominante-
mente masculina, foi já amplamente estudada e divulgada, 62 tomemos três exemplos femininos: a crítica italiana Margherita Sarfatti, a arquitecta austríaca Margarete Schütte-Lihotzky e a fotógrafa americana Lee Miller. 63 Para Portugal, a uma outra escala, tomemos como quarto exemplo a figura da pintora Sarah Afonso. 64
Esta geração gerou teias internacionais e intercontinentais de relacionamento e de entendimento, que se sobrepunham, se confundiam, se aproximavam ou se repeliam conforme as circunstâncias. Para um exemplo português, basta pensar na viagem de António Lopes Ribeiro a Moscovo, e no seu rela-
cionamento profissional com Eisenstein. Como é bem sabido, esta não foi uma situação isolada no
nosso país, como provam os Ballets Russes e o caso dos Delaunay. 65
• Uma terceira explicação para esta condição hipertextual pode ser encontrada no modo como
hoje observamos aquele período, ou seja, através de uma sucessão de filtros que foram inter-
calados pelo imediato pós-guerra. Estes filtros não só devolvem este período a preto e branco,
como se encarregam também de obscurecer alguns factos e protagonistas, para mais facil-
mente branquearem outros.
62 Tivemos já oportunidade de escrever sobre este assunto (O lugar da arquitectura : notas para uma
estética da edificação, 1999 p. 261). Na altura, baseámo-nos nas obras de Charles Jencks (1973) sobre
Le Corbusier, e de Fritz Neumeyer (1991) sobre Mies.
63 Margherita Sarfatti, n. Grassini: 1880, Veneza – 1961, Cavallasca, Itália. Margarete Schütte-Lihotzky:
1897 – 2000, Viena, Áustria. Lee Miller, pseud. de Elisabeth Miller: 1907, Poughkeepsie, EUA – 1977, Chiddingly, RU. Esta última artista foi assim quase completamente contemporânea dos “Ars”.
64 Sarah Afonso: 1899 – 1983, Lisboa.
65 António Lopes Ribeiro: 1908 – 1995, Lisboa. Sergei Mikhailovich Eisenstein: 1898, Riga, Letónia –
1948, Moscovo, Rússia. Robert Victor Félix Delaunay: 1885, Paris – 1941, Montpellier, França. Sonia
Parece evidente que a própria época se presta a ser lida através desses filtros simplistas: há algo
de intrinsecamente sinistro nos extremos ideológicos que então se digladiaram, como a história da Guerra Civil de Espanha tão eloquentemente nos demonstra, para citar um exemplo que nos está
próximo em termos geográficos.
Como vimos, Auschwitz e Hiroxima são o culminar, hediondo e sem precedentes, de uma escalada de atrocidades que se presta a oferecer esse filtro: cavaleiros das trevas de um lado, justiceiros da
luz do outro. Terríveis, ambos. O efeito psicológico, social e cultural da concomitância destes aconte- cimentos deve ter sido de grandes dimensões: aquilo em que se acreditou desapareceu num ápice, pela violenta repugnância provocada pelos campos de concentração e pelo intenso horror suscitado pela bomba atómica.
As democracias parlamentares – liberais, burguesas e capitalistas – surgiram então como triunfantes,
tanto em termos bélicos como nas opções políticas. Acima de tudo, vitoriosas a nível moral, vitória essa que se fez acompanhar de um programa simultaneamente tecnológico, cultural e estético,
eloquentemente materializado no chamado Plano Marshall.
Julgamos que o International Style de Hitchcock e Johnson 66 se incluiu neste plano global, e apareceu como uma prescrição expedita e comprovada. Embalada numa designação apelativa e fácil de entender e de compreender, quase um pequeno slogan ou uma marca registada, envolta numa aura de clareza, nitidez e pureza, a sua imposição tanto a aliados como a neutros e a derrotados deve ter
sido fácil, porque quase auto-evidente: unânime e, num certo sentido, também totalitária. Não admira
que tão prontamente tenha gerado a reacção neo-regionalista, primeiro, e pós-moderna, depois.
No entanto, por um período ainda longo, este internacionalismo adoptou para si o termo moderno, involucrando-se moralmente como equivalente solidário de progressista, igualitário e democrático:
Bom, porque também Belo e Justo. Todas as outras opções passadas ficaram imediatamente cono-
tadas como o seu contrário.
Quanto a uma adesão serôdia a este moderno por parte de alguns seus protagonistas mais retar-
datários, não é preciso pensar-se em pusilanimidade ou cobardia, apesar de todos conhecermos o
efeito que o medo pode produzir nas nossas vidas. Basta pensar na quase auto-evidência dos factos, tal como já atrás referimos: uma mistura perigosa de nacionalismo, tradicionalismo e classicismo tinha como equivalente construído um determinado tipo de arquitectura; reciprocamente, a saída só
poderia estar no internacionalismo, e na sua promessa de uma fraternidade transcultural, pós-bélica
e pós-discursiva.
As consequências deste processo de assimilação sobre a apreciação da arquitectura dos anos 1930 são duplas. Não só os que haviam propugnado uma arquitectura distinta desta “boa arquitectura” passaram automaticamente para o “lado mau”, enquanto equivalente a não progressista, não iguali-
tário e não democrático, como todos os que haviam tentado esta arquitectura “boa” passaram também
a ser automaticamente “bons”.
66 Henry-Russell Hitchcock: 1903, Boston – 1987, Nova Iorque, EUA. Philip Cortelyou Johnson: 1906,
Para esta leitura, de pouco interessaram as ambiguidades ideológicas e os colaboracionismos de
Le Corbusier ou de Mies, ou até mesmo as assertivas, declaradas, opções políticas de Terragni ou de Libera. Eles eram dos bons, e assim haviam de ser recordados pela História: mesmo quando
foram fascistas, foram-no porque iludidos ou ingénuos. A mesma complacência nunca viria a ser dedi-
cada aos arquitectos tradicionalistas: Muzio e Piacentini hão-de ser sempre os arquitectos do regime fascista italiano, por mais que a realidade dos factos ateste matizes distintos.
Em Portugal, ainda um outro filtro se intromete, que é o da revolução de 1974 e da descolonização
de 1975. Num certo sentido, só aí se concluiu o nosso pós-guerra. A arquitectura produzida nos anos
1930 ficou involucrada em designações que não se lhe ajustam, pelo menos na totalidade: moder-
nismo, Art Déco, arquitectura do ou no Estado Novo, arquitectura fascista, Português Suave.
Em resumo, os factores que nos permitem propor a leitura desta época enquanto experiência hiper-
textual são então três:
• A acelerada mutação das condições tecnológicas, culturais e ideológicas;
• A excepcionalidade dos protagonistas e das redes por eles criadas, ligadas por uma forte consciência de geração;
• A excepcionalidade dos eventos, filtrada quer pela proximidade em relação ao nosso tempo,
quer pela leitura imposta por um tempo intermédio.
A figura pretende oferecer uma imagem gráfica para a representação da noção de filigrana hipertex-
tual que aqui propusemos (Figura 28).