A liberdade civil do trabalhador, refém do salário ao alienar sua força produtiva, restringia-se à liberdade de ir e vir de casa para o trabalho, passando as horas de seu tempo produtivo na fábrica – até 18 horas de trabalho/dia. Não resta tempo e posses para ir e vir. Desta forma, interesses coletivos passam a ser identificados por esta determinada classe: direito ao trabalho digno – máxima jornada de 8 horas -, à saúde, à educação, alimentação etc., direitos com uma finalidade social e supra-individual. Estes interesses coletivos constituem-se enquanto síntese dos interesses
individuais.299 Conquanto originários de interesses individuais, possuem fim teleológico coletivo: a consecução dos interesses coletivos atinge mesmo terceiros não participantes do exercício coletivo do interesse coletivo. Não significa, portanto, a soma dos interesses individuais, enquanto exercício coletivo de um feixe de interesses individuais, cujo fim são aqueles sujeitos individualmente considerados, mas trata-se de interesses identificados como pertencentes à dimensão social e econômica de todo e qualquer ser humano. Direitos óbvios à vida digna.
A crescente organização da sociedade em torno de reivindicações por interesses que atingem não um indivíduo particularmente, mas um coletivo de pessoas ligadas por uma situação jurídica (contratos trabalhistas, por exemplo) ou de fato (a exemplo da concentração de terras que ligam os “sem-terra”) – direitos coletivos e difusos – configuram conflitos inéditos na esfera jurídica das sociedades, o que resulta na construção de várias cadeias normativas que passam a refletir os múltiplos valores e interesses dos diferentes grupos sociais em confronto na realidade. Deste modo,
“centros de produção normativa periférica ou semi-autônoma, por delegação estatal ou afirmação social, aumentam a complexidade do direito, realçando a variabilidade do conteúdo, da forma e do encadeamento sistemático das normas jurídicas300.
Os diversos sujeitos e grupos sociais agrupam-se em torno de determinados interesses surgidos de acordo com sua posição na sociedade (consciência de classe do proletariado faz emergir os interesses coletivos, eleitos por toda a sociedade como bens juridicamente tutelados e materializados nos chamados direitos econômicos e sociais ou 2º dimensão dos Direitos Humanos) ou de acordo com a consciência de sua condição humana no mundo ( como criança, idoso, mulher, determinado povo, etnia ou raça), o que faz com que alguns bens da vida até então irrelevantes e invisíveis para a normatividade estatal sejam considerados dignos de tutela. Pode-se afirmar, portanto, que o movimento do despertar dos interesses coletivos (não confundindo-se com o exercício coletivo de direitos individuais) e difusos (pertencentes a todos e a cada um simultaneamente) faz brotar novos direitos, novas formas procedimentais de tutelá-los e novas formas de lutar pela efetividade deles.
No Brasil, principalmente nas décadas de 70 e 80, esta politização do direito realizada pela efervescência social daquele contexto em torno das lutas pelo
299 MANCUSO. Op.cit. p.54.
300 FARIA, José Eduardo. Direitos Humanos, Direitos Sociais e Justiça. São Paulo:Malheiros, 2002, p.21.
reconhecimento de direitos humanos e sociais pela coletividade marginalizada pelo tipo de desenvolvimento empreendido, faz brotar legislações de conteúdo transindividual e publicístico, como a Lei de Ação Civil Pública (Lei nº 7.347/85), a própria Constituição Federal de 1998 e posteriormente o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078/90), garantidoras de direitos sociais e econômicos e de solidariedade.
Ocorre, portanto, uma complexificação das subjetividades de acordo com a eleição pelas sociedades de bens e interesses até então relegados pelo ordenamento jurídico, como o meio ambiente ecologicamente equilibrado, o patrimônio histórico cultural, o patrimônio biológico e genético, a esfera dos direitos personalíssimos e os direitos morais, a economia popular, soberania alimentar, a autodeterminação dos povos e etc.
Observa-se contemporaneamente uma indeterminação da titularidade dos direitos, ao mesmo tempo “não-públicos, não-coletivos e não individuais301”. Assim como, do ponto de vista objetivo, bens da vida passam a ser caracterizados por sua indivisibilidade, ou seja, a satisfação ou lesão não se dá de modo fracionado à um titular, a satisfação ou lesão de um significa a satisfação ou lesão de todos. A lesão ao meio ambiente e à diversidade biológica atinge indistintamente todos e cada um, por exemplo. A emergência de direitos meta ou transindividuais (difusos, coletivos e individuais homogêneos) cobram não apenas a tutela ao interesse do titular-possuidor individualmente considerado em relação à bens disponíveis; mas de interesses personalíssimos, coletivos e difusos pertencentes a um e a todos, como os direitos morais, a função social da terra ou a soberania alimentar e nutricional, de natureza irrenunciável, imprescritível, intransferível, intransmissível e inembargável.
A crise do direito subjetivo como direito à adquirir e dispor de propriedades se coloca em favor de um direito subjetivo que é conformado simultaneamente pelas dimensões privada, coletiva, difusa e pública dos direitos. Direitos que vem sendo construídos (pluralismo jurídico stricto senso ou instituinte negado), reivindicados (positividade combativa ou instituído sonegado), e ressignificados (uso alternativo do direito ou instituído relido)302 por n sujeitos contextualizados, de carne e osso (partidos
301 MANCUSO, Rodolfo de Camargo. op.cit.p. 136
302 Amilton Bueno de Carvalho, magistrado gaúcho, sugere, nos anos 90, uma tipologia para esclarecer as vertentes distintas que influenciavam o pensar-agir dos operadores do direito no Brasil, quais sejam: o
políticos, sindicatos rurais e urbanos, organizações de camponeses, Movimentos sociais, povos indígenas, populações tradicionais), e que, embora não classificados ou reduzidos pelas fôrmas individualistas e patrimonialistas jurídico-estatais, vem sendo responsáveis pelas sínteses normativas e o amadurecimento social do que hoje são considerados os direitos humanos em suas múltiplas dimensões303. A importância destes
“novos” sujeitos neste eterno movimento constituinte de abertura constitucional e eficácia social dos direitos será abordado mais detidamente no terceiro e último capítulo.
Não obstante tais conquistas sociais materializadas ou não em estatutos legais especiais vir deslocando o Código Civil da posição hegemônica e central no ordenamento jurídico, muitos outros micro-sistemas jurídicos desde a década de 90, sob a égide do Consenso de Washington e do neoliberalismo, foram editados por força dos lobbies dos monopólios transnacionais, reposicionando os direitos subjetivos proprietários. Trata-se de uma nova onda privatística e patrimonialista reivindicada, agora coletivamente, por pessoas jurídicas transnacionais, em clara violação aos Direitos Humanos e as lutas populares pela efetivação de direitos sociais e econômicos.
São estes diplomas legais que vêm encarcerando a vida concreta camponesa e seus múltiplos sujeitos (desde movimentos sociais, comunidades tradicionais como os povos faxinalenses, quebradeiras-de-coco-babaçu, fundos de pasto, quilombolas, povos indígenas aos agricultores familiares tradicionais) à fôrmas jurídicas que violentam seus direitos à existência e resistência física, sócio-cultural e econômica.
“uso alternativo do direito”, enquanto método reinterpretativo dos direitos positivados; “positividade combativa”, enquanto a luta pela efetiva concretização de conquistas democráticas já erigidas à condição de lei, mas sem aplicação alguma – as chamadas normas de efeito encantatório e o “direito alternativo em sentido estrito”, enquanto normas extra-estatais emergidas de espaços geopolíticos marginais, que merecem efetivação, como as lutas dos movimentos por moradia, reforma agrária e etc. O professor Edmundo Lima de Arruda Junior denomina tais categorias de outra forma: “instituído relido” (“uso alternativo do direito”); “instituído sonegado”(“positividade combativa”) e “instituinte negado”
(“pluralismo jurídico”). In: MACHADO, Antônio Alberto. Ensino jurídico e Mudança social. Franca:
Unesp-FHDSS, 2005.
303 Entende-se que a partir da constatação de uma multiplicidade de práticas jurídicas não-estatais, ou seja, do exercício de um pluralismo jurídico comunitário-participativo que contém o direito, permite-se uma nova interpretação e exigência de aplicação do já positivado. Tanto a reinterpretação do direito já constante no ordenamento jurídico – “instituído relido” -, como a exigência de aplicação de conquistas democráticas já positivadas – “instituído sonegado”, derivam de experiências não só teóricas dos juristas, em seu exercício militante de se “colar” à realidade social e dela constatar expressões de direito que tencionam seu pensar-agir, mas das próprias experiências jurídicas não-estatais desenvolvidas por estes grupos. Assim, tais operações de interpretação e aplicação do direito não são exercidas apenas pelo operador do direito, mas por estas organizações populacionais – movimentos sociais - que também produzem direitos a partir da organização de suas carências e necessidades.
A lei de Propriedade Industrial nº 9.279/1996, a Lei de cultivares nº 9.456/92, a MP 2.186/01 que regulamento o acesso aos recursos genéticos e conhecimentos tradicionais e a repartição de benefícios, a Lei de sementes nº 10.771/03, como veremos, ao cumprirem determinações das políticas internacionais de comércio (OMC/Trips), vêm cumprindo fins não factíveis com a afirmação e promoção dos direitos dos camponeses em suas múltiplas dimensões (principalmente ao livre uso dos recursos da agrobiodiversidade), assim como violam o direito difuso de todos e cada um à soberania alimentar e nutricional e a um meio ambiente ecologicamente equilibrado.
E assim o mesmo triângulo segue conformando a visão filosófico-jurídica do mundo ao regular e criar as relações sociais e naturais entre sujeito-objeto-fato ou ainda pessoa-bem-contrato e que ao retirar as máscaras jurídicas, pode-se traduzir:
donos dos meios de produção ou proprietários - não-proprietários ou propriedades (natureza, trabalho, conhecimentos, organismos vivos) e circulação de bens.
Quando o meio ambiente deixa de ser obstáculo para o desenvolvimento do capital, quando passa a ser valorado em suas mínimas partes como reserva de informações e recursos genéticos, é lhe conotado o sentido de valor-de-troca ou mercadoria, estando apto a integrar o conjunto dos bens jurídicos em seu componente tangível (recursos genéticos) e intangível (conhecimento associado). As legislações nacionais e internacionais levantam-se para dar suporte às novas relações pós-industriais da ciência como meio de produção, elevando a biodiversidade como bem sob a soberania de novos sujeitos de direitos: as nações (onde se encontram os povos e comunidades com conhecimento associado) e toda a humanidade (patrimônio comum da humanidade), principalmente a parte econômica desta homanidade.
2.3 INDIVIDUALIZAÇÃO DO CAMPONÊS: DA PROLETARIZAÇÃO AOS