4. GEOLOGIA LOCAL
4.2 LITOESTRATIGRAFIA E PETROGRAFIA
4.2.1 Complexo Serrinha-Pedro Velho
Trata-se do embasamento cristalino, a unidade mais antiga, que aflora na porção leste da Zona de Cisalhamento Picuí-João Câmara (ZCPJC). É constituída de diferentes litotipos ortoderivados de composição variando de ortognaisses graníticos a granodioríticos, com predomínio de biotita-hornblenda ortognaisses leucocráticos. Estas rochas se apresentam frequentemente migmatizadas, com níveis mais feldspáticos (leucossoma) e níveis ricos em máficos (melanossoma), definindo o neossoma (Figura 14.a e 14.b). Também aparecem como diatexitos, migmatitos bem homogêneos, preservando localmente estruturas anteriores, como visto nos lajedos na margem do rio Seridó, no SE da área (Figura 14.c). Na mesma região também foram encontrados enclaves de dioritos nos gnaisses migmatizados (Figura 14.d). Embora encontradas com frequência durante o mapeamento, as porções migmatíticas não constituem zonas passíveis de serem discriminadas no mapa.
Figura 14: Afloramentos com litotipos da unidade Complexo Serrinha-Pedro Velho. (a) Ortognaisse migmatizado, (b) com paleossoma (P) preservado, onde neossoma apresenta leucossoma (L) granítico e melanossoma (M) rico em máficos; (c) migmatito granítico (diatexito), apresentando dobras suaves geradas no evento D3, (d) com enclaves de dioritos. Cabo do martelo e ponta da bússola apontando para o norte.
Nas zonas de maior strain, nas proximidades da ZCPJC, as rochas se encontram milonitizadas, apresentando estiramento mineral, além de uma foliação de mergulho forte. Faixas miloníticas registradas nos ortognaisses, evidenciam esta deformação através do estiramento e afinamento dos minerais (Figura 15.a). Em alguns afloramentos são visualizados porções de augen gnaisses, com porfiroclastos de K-feldspatos de até 5 cm. (Figura 15.b).
Na porção NE, níveis anfibolíticos podem ser visualizados nos biotita-hornblenda ortognaisses, onde há predomínio de minerais máficos, como diopsídio e, principalmente, hornblenda, quando comparado ao plagioclásio e quartzo presente. Essa associação aponta para um protólito ígneo máfico, como diques de basalto ou diabásio. Estes ortoanfibolitos apresentam dobras intrafoliais, e tem foliação transposta por zonas de cisalhamento dextrais, apontando para uma idade de colocação anterior aos últimos eventos deformacionais- metamórficos (pré -D2 e D3) (Figura 16).
Figura 15: Algumas feições dos ortognaisses graníticos a granodioríticos do Complexo Serrinha-Pedro Velho. (a) Banda milonítica, apresentando intenso estiramento, nas proximidades da zona de cisalhamento Picuí-João Câmara (cabo do martelo indicando o norte); (b) augen gnaisse, com porfiroclastos facoidais de K-feldspato, de até 5 cm (cabo do martelo apontando na direção de estiramento).
Figura 16: Níveis anfibolíticos, ricos em hornblenda, encontrados nos ortognaisses do Complexo Serrinha-Pedro Velho. Apresenta dobras intrafoliais características do evento D2.
Os biotita-hornblenda ortognaisses graníticos tem a foliação destacada principalmente pela orientação dos máficos hornblenda (4-7%) e biotita (4 - 6%), que se encontram numa matriz félsica, de textura média predominante, com cristais xenomórficos a hipidiomórficos de microclina (35%), quartzo (30%) e plagioclásio (25%), conferindo uma textura granolepidoblástica. Como acessórios tem-se os minerais opacos (Tr-1%), titanita (Tr-1%), epidoto (Tr), apatita (Tr) e zircão (Tr).
A microclina tem cristais com tamanho variando de 0,3 mm a 2,5mm, apresentando típica geminação Tartan e contatos curvos com os demais grãos. O quartzo também apresenta contatos arredondados com os demais grãos, com cristais em geral de tamanho submilimétrico, chegando até 2 mm, e por vezes exibindo extinção ondulante. O plagioclásio, predominantemente xenomórfico, tem granulação variando de 0,2 mm a 2,2 mm, podendo exibir geminação polissintética e extinção ondulante. Os grãos deste mineral estão frequentemente alterados para cristais muito finos de mica e epidoto (saussuritização), denotando uma aparência empoeirada, principalmente nos núcleos, mais ricos em cálcio (Figura 17.a e d).
Os cristais de hornblenda tem hábito prismático e uma coloração verde intensa característica, com tamanho variando de 0,3 mm até 1,5 mm. Encontram-se orientados e frequentemente alterados para biotita, opacos e titanita (Figura 17.a e b). As ripas amarronzadas de biotita, variando de 0,1 mm a 1,2 mm, também seguem a foliação e estão associadas a grãos de quartzo e plagioclásio, apresentando inclusões de apatita e zircão. Também exibem alteração para cristais de epidoto. Este último é encontrado substituindo partes das biotitas e plagioclásios, com tamanho muito pequeno, chegando no máximo à 0,3 mm (Figura 17.c e d).
Os minerais opacos podem chegar a grãos de até 1 mm, estando associados a biotita, em meio aos feldspatos e quartzo, apresentando bordas de titanita por meio de processo de esfenitização (Figura 17.b). Aparece também, com tamanho diminuto de no máximo 0,4 mm, nas bordas e clivagens dos minerais hornblenda e biotita, como produto de alteração das mesmas. A titanita, além de formar coroas nos minerais opacos, também está presente na forma de agregados de grãos (0,2 mm) e pequenos cristais (0,5 mm), associados aos minerais opacos, hornblenda e biotita.
Figura 17: Fotomicrografias do biotita-hornblenda ortognaisse granítico do Complexo Serrinha-Pedro Velho. (a) Cristais xenomórficos de hornblenda (Hb) alterados para biotita (Bt) e opacos (lamelas pretas), associados a plagioclásio (Pl) que apresenta-se alterado; (b) minerais opacos (de cor preta) mostrando bordas alteradas para titanita (Ti) e foliação marcada pelo alinhamento das ripas de biotita e hornblenda em meio a matriz quartzo-feldspática; (c) biotita mostrando alteração para opaco e epidoto (Ep); (d) cristais de epidoto destacados pela alta/moderada birrefringência, formados a partir da biotita e plagioclásio, este último intensamente saussuritizado (N// = Nicóis paralelos; NX = Nicóis cruzados).
A seção delgada referente aos níveis anfiboliticos desta unidade demonstra uma composição mineralógica onde predominam hornblendas hipidioblásticas (75%), ocorrendo de forma orientada em duas direções de foliação, em meio a menores quantidades de plagioclásio (13%) e quartzo (7%), conferindo textura granonematoblástica à rocha.
Os cristais de hornblenda, de coloração verde, apresentam diversos tamanhos, de 0,2 mm até 3 mm, e são consumidas por diopsídio (5%). Este piroxênio apresenta leve pleocroísmo,
verde claro a incolor, e alta a moderada birrefringência, formando cristais xenomórficos a partir dos anfibólios (Figura 18). O plagioclásio e quartzo aparecem recristalizados, xenomórficos a hipidiomórficos, preenchendo os espaços entre os cristais de anfibólio. Este último tem tamanhos variando entre 0,3 mm a 1,8 mm, com os menores grãos como inclusões na hornblenda. Os minerais acessórios presentes são titanita (Tr), opacos (Tr) e apatita (Tr), sendo o primeiro mais comum, na forma de grãos (0,2 mm), crescendo sobre os anfibólios. Os outros dois formam diminutos grãos de no máximo 0,2 mm como inclusões das outras fases minerais.
Figura 18: Fotomicrografia dos ortoanfibolitos do Complexo Serrinha-Pedro Velho. (a) Diferentes gerações de hornblenda (Hbl) hipidioblásticas, alteradas para diopsídio (Di), com plagioclásio e quartzo preenchendo os espaços entre os cristais de anfibólio (N// = nicóis paralelos); (b) a mesma imagem, com nicóis cruzados (NX), destacando a alta birrefringência do cristal de diopsídio.