Capítulo 2 – Estimando datas a partir de elementos da epígrafe
4. O ditongo ão, átono e em final de sílaba, era grafado am, e a vogal nasal ã, na mesma situação, por an;
2.2. Características da tipografia
2.2.3. Componente “Padrões”
O último componente considerado na descrição de tipos proposta por Catherine Dixon (2008), são os padrões, que corresponderiam a uma junção do primeiro componente (atributos formais) com o segundo (origens). Logo, um padrão se detecta ao se considerar certos atributos tipográficos formais, que correspondem a uma certa origem histórica.
Higa (2010), em sua iniciação científica, considerando como universo amostral um total de 35 epígrafes arquitetônicas do Acervo Epigráfico Paulistano, verificou a existência de 12 padrões distintos nestas epígrafes, que consistiam em:
• Padrões de origem manuscrita:
◦ letra de mão: Possui influências do art nouveau e “aproxima-se mais de um letreiramento do que de uma tipografia” (HIGA, 2010:8). Por exemplo a inscrição do arquiteto S. M. Roder no prédio da Rua 11 de agosto (Imagem 37).
• Padrões de origem romana8:
◦ serifada antiga: Refere-se às letras serifadas cuja estrutura construtiva aproxima-se da encontrada nas inscrições romanas clássicas. Por exemplo a
8 Apesar de em HIGA, 2010 também constar um padrão de origem romana denominado “sem serifa”, nesta dissertação ele não será considerado, pois concluiu-se que algumas a tipografia das epígrafes incluídas neste padrão são mais próximas de um padrão geométrico de inspiração Art Déco de origens adicionais,
Imagem 37: Vetor da epígrafe arquitetônica do arquiteto S. M. Roder, cuja tipografia
inscrição da Sociedade Arnaldo Maia Lello, Ltda. no Prédio Walter Seng (Imagem 38).
◦ serifada moderna: Refere-se a letras que “tendem a ter uma largura mais uniforme que as letras do padrão serifada antiga” (HIGA, 2010:9). Modifica-se também o eixo de contraste para a posição vertical e os desenhos das serifas. Por exemplo a inscrição de Pilon e Matarazzo, Ltda. no Prédio São Manoel (Imagem 39).
• Padrões de origem vernacular do século XIX:
◦ serifada gorda: Letras que com alto grau de contraste cujo uso se dá em tamanhos grandes. São semelhantes a letras com serifas filiformes, como a
Imagem 38: Vetor da epígrafe da Sociedade Arnaldo Maia Lello, Ltda., cuja tipografia
insere-se no padrão "serifada antiga".
Imagem 39: Vetor da epígrafe de Pilon e Matarazzo Ltda., cuja tipografia insere-se no
Bodoni, porém com contraste mais exagerado. Por exemplo a inscrição da Construtora Paulo Izzo S/A no Prédio José Firmo (Imagem 40).
◦ grotesca: Letras sem serifa que remetem às primeiras grotescas do século XIX. Por exemplo a inscrição do arquiteto C. E. Winter no Edifício Bartyra (Imagem 41).
◦ grotesca retangular: Letras cuja forma assemelha-se à das sem serifas grotescas, porém possuem “estrutura construtiva das letras retangulares, perceptível na letra O” (HIGA, 2010:10). Por exemplo a inscrição do
Imagem 40: Vetor da epígrafe da construtora Paulo Izzo S/A,
cuja tipografia referente ao nome da construtora insere-se no padrão "serifada gorda".
Imagem 41: Vetor da epígrafe do arquiteto C. E. Winter, cuja tipografia insere-se no
engenheiro civil e arquiteto Alfredo Mathias no Edifício Raquel (Imagem 42).
◦ neo-grotesca: Letras sem serifa cujos traços, apesar de remeterem às grotescas, possuem um desenho mais refinado e tendem a ser mais uniformes. Por exemplo a inscrição de Dacio A. de Moraes S.A. no Edifício Martex S.A. (Imagem 43).
• Padrões de origens adicionais:
◦ geométricas: Letras que se constroem através de formas geométricas elementares como circunferências, triângulos e retângulos, entretanto não se
Imagem 42: Vetor da epígrafe do engenheiro e arquiteto Alfredo Mathias, cuja
tipografia insere-se no padrão "grotesca retangular".
Imagem 43: Vetor da epígrafe de Dacio A. de Moraes S.A., cuja tipografia insere-se
assemelham a volumes como as “geométricas gordas” ou são condensadas como as “geométricas finas”. Por exemplo a inscrição de Richter & Lotufo LTDA. no Prédio São João (Imagem 44).
◦ geométrica retangular: Letras cuja estrutura construtiva se dá somente por linhas retas horizontais, verticais e inclinadas, “com o uso mínimo ou mesmo sem o uso de curvas” (HIGA, 2010:12). Por exemplo a inscrição de Pareras & Pladevall no Prédio Paratininga (Imagem 45).
Imagem 45: Vetor da epígrafe de Pareras & Pladevall, cuja tipografia insere-se no
padrão "geométrica retangular".
Imagem 44: Vetor da epígrafe de Richter & Lotufo LTDA, cuja tipografia insere-se
◦ geométrica gorda: Letras com influências do art déco que possuem construção estritamente geométrica, mas não são propícias para composição de textos longos. Possuem desenho simples e grande parte das letras não possuem contraforma, as letras assemelham-se mais a volumes do que a traços propriamente ditos. Por exemplo a inscrição de N. Luiz do Rego e S. M. Roder Ltd. no Edifício Anhembi (Imagem 46).
◦ geométrica fina: Também possuem influências do art déco, entretanto bastante diferentes das geométricas gordas, principalmente no que se refere à espessura dos traços, à proporção condensada e ao refinamento do desenho. Por exemplo a inscrição do arquiteto Álvaro Botelho e da Sociedade Construtora e de Imóveis no Antigo BSP (Imagem 47).
Imagem 46: Vetor da epígrafe de N. Luiz do Rego
e S. M. Roder Ltd., cuja tipografia insere-se no padrão "geométrica gorda".
Imagem 47: Vetor da epígrafe do arquiteto Álvaro Botelho e da Sociedade
Construtora e de Imóveis, cuja tipografia insere-se no padrão "geométrica fina".
Ao considerar-se a localização temporal destes padrões, percebe-se que as epígrafes de serifadas de origem romana são encontradas - dentro da amostra considerada em HIGA (2010) – em prédios datados das décadas de 1920 e 1930, coincidindo com o período em que se encontram as epígrafes inspiradas nas grotescas do século XIX. Já as epígrafes de origem geométrica começam a surgir nas décadas de 1930 (apesar de a mais antiga ser ainda de 1929).
Sabe-se que historicamente a década de 1920 foi marcada por um conflito exaltado entre os emergentes estilos Art Déco e Neocolonial – que apontavam para a modernidade e a geometrização (no caso do Art Déco) e a valorização da cultura nacional (no caso do Neocolonial) - e o Ecletismo Historicista, que começava a sua trajetória para a decadência – que ainda muito se remetiam aos estilos europeus e ao século passado.
Estes dois estilos emergentes também conflituavam entre si, pois, apesar de serem contrapontos ao Ecletismo, enquanto o Neocolonial buscava sua inspiração nos estilos nacionais passados, o Art Déco se inspirava nos modelos construtivos estrangeiros, principalmente vindos dos Estados Unidos, de forma que o segundo foi recebido com maior relutância e só conseguiu consolidar-se definitivamente a partir dos anos 30, sendo logo interrompido pela Segunda Guerra Mundial (D'ALAMBERT, 2003) e depois pela ascensão do movimento modernista funcional.
Assim, pode-se notar que a consolidação do estilo Art Déco coincide com as datas de maior incidência de epígrafes de origem geométrica e também que a coincidência de períodos em que se encontram as epígrafes de origem romana serifada e grotescas, muito provavelmente se justificam pela coexistência de dois paradigmas diferentes de estilo (um, em gradual decadência, que apontava para o classicismo e outro que seguia uma tendência modernizadora e geometrizante). Desta forma, podemos prever que epígrafes cujas letras são serifadas de origem romana muito provavelmente localizar-se-ão temporalmente entre as décadas de 1920 e de 1930, bem como as epígrafes cujas letras são inspiradas nas grotescas; da mesma forma, uma epígrafe com tipografia de origem geométrica, muito provavelmente será inscrita em um prédio construído nas décadas de 1930 ou 1940.
Evidentemente, como já explicitado no começo do capítulo, podem haver exceções a esta regra, de forma que precisar a data pelas características e padrões formais da tipografia epigráfica pode ser enganoso, por isto mesmo fala-se em alta probabilidade e não em certeza, pois sabe-se que a epígrafe tem mais relação com a empresa responsável pelo projeto do prédio do que com o estilo do prédio em si, podendo, por exemplo, uma epígrafe romana serifada estar inscrita num prédio Art Déco. Logo, também é importante que se leve em conta a arquitetura do prédio e não somente sua epígrafe ao buscar por datas prováveis de construção.
Nesta dissertação serão levados em conta estes mesmos padrões para a análise das três epígrafes da firma “Monteiro, Heinsfurter & Rabinovitch”, em conjunto com a arquitetura dos prédios, mas antes da análise propriamente dita é importante que se tenha uma noção da importância desta firma e de seus membros, de forma que passaremos a fazer um breve histórico da empresa e de suas obras mais relevantes.
Capítulo 3 – O escritório de engenharia “Monteiro,
Heinsfurter & Rabinovitch”
Como tratado no Capítulo 1, as epígrafes arquitetônicas surgem em um contexto em que o profissional de engenharia e arquitetura na cidade de São Paulo começa a ser mais valorizado, por meio de ações públicas como o início da regulamentação da profissão, instituição de órgãos de classe e a instalação, na cidade, de instituições de ensino superior que oferecem cursos de engenharia civil e arquitetura, sendo as epígrafes indício deste momento histórico ao explicitar, em local público, o nome do profissional por trás da obra arquitetônica, além de sua titulação, para demonstrar que aquele edifício foi construído por um profissional diplomado e qualificado. Levando-se em conta este caráter da epígrafe, antes de partirmos para sua análise formal delas, parece relevante que também se foque por um momento nos agentes responsáveis pelo projeto dos prédios estudados e sua importância na época das construções.
Para tal levantaram-se alguns dados sobre o escritório de engenharia “Monteiro, Heinsfurter & Rabinovitch” com relação a: obras realizadas, diferentes formações e sócios majoritários, breve histórico de cada um dos sócios e diferentes escritórios. Para as informações compiladas neste capítulo serviram como fonte diversos jornais, revistas e almanaques da época, bem como alguns livros e teses de doutorado.