2.5 Compostos bioativos do café
2.5.1 Componentes do café versus atividade funcional quanto à Diabetes
Alguns compostos do café apresentam atividade antioxidante, um deles é o ácido clorogênico muitas vezes citado por seu poder hipoglicemiante (Farah & Donangelo, 2006). Diversos mecanismos propõem efeitos benéficos do ácido clorogênico (Figura 1) no metabolismo da glicose, uma vez que eles reduzem a absorção de glicose pelo intestino e inibem a atividade da glicose-6-fosfatase 1 (enzima que, no fígado, hidrolisa o glicogênio em glicose). Pela inibição desta enzima a concentração de açúcar no sangue diminui (Van Dam, 2006).
A maioria dos efeitos fisiológicos do café está relacionada com a cafeína, mas a associação inversa entre o consumo de café e o diabetes mellitus tipo II não pode ser explicada pela presença desta. Dentre os efeitos conhecidos da cafeína, além da diminuição da sensibilidade à insulina e da tolerância à glicose, ocorre também o aumento na absorção intestinal da mesma (Greenberg et al., 2006). Battram et al. (2005) e Lee et al. (2005) citam que a cafeína impede a mediação insulina-glicose em humanos, sendo que o mecanismo pelo qual esse processo ocorre ainda não está claro.
Os ácidos clorogênicos presentes no café podem retardar a absorção de açúcar no intestino e a ingestão de componentes do café demonstrou melhorar o metabolismo do açúcar em ratos (Van Dam & Feskens, 2002; Van Dam, 2006).
Os ácidos clorogênicos podem atuar também como um metal quelante devido à sua atividade antioxidante, assim esses compostos podem introduzir minerais nos tecidos, formando complexos quelados que podem alcançar outros tecidos mudando a composição mineral do mesmo e podendo melhorar a tolerância à glicose pelo aumento da sensibilidade à insulina. Dessa forma, beneficiando pessoas com diabetes mellitus tipo II, obesos e cardiopatas que geralmente apresentam concentrações alteradas de minerais (Sotillo & Hadley, 2002; Van Dam & Hu, 2005). Também, é pressuposto que os ácidos clorogênicos possam inibir a formação de compostos N-nitrosos no intervalo
gastrintestinal (Clifford, 1999) sendo que os mesmos contribuem para o desenvolvimento de diabetes mellitus tipo II com efeitos tóxicos nas células beta (Van Dam & Feskens, 2002).
Café também contém magnésio, o que poderia interferir positivamente na tolerância à glicose devido ao aumento da secreção e sensibilidade à insulina (Tuomilehto et al., 2004 apud Garambone & Rosa, 2007; Van Dam & Hu, 2005).
O magnésio é um dos micronutrientes deficientes mais comuns em diabéticos. O decréscimo do nível de magnésio ou aumento de perda por excreção urinária tem sido documentados tanto em diabetes mellitus tipo 1 quanto diabetes mellitus tipo 2 (Mooradian et al., 1994).
O magnésio é um íon importante como um cofator de muitas enzimas. O relacionamento entre a insulina e o magnésio tem sido estudado recentemente, em particular mostrou-se que ele tem um papel de segundo mensageiro para a ação da insulina, sendo que a insulina é um hormônio regulador importante da acumulação intracelular de magnésio (Paolisso et al., 1990; Paynter et al., 2006). As circunstâncias associadas com a resistência à insulina, tal como a hipertensão ou o envelhecimento são associadas igualmente com os baixos índices intracelulares do magnésio. Em diabetes mellitus sugere-se a relação entre um baixo teor de magnésio intracelular e resistência insulínica aumentada (Paolisso et al., 1990; Kao et al., 1999; Lima et al., 2005).
O magnésio modula o transporte da glicose através das membranas envolvendo-se em diversas ações enzimáticas, que influem na oxidação da glicose podendo a sua deficiência contribuir para resistência à insulina, ou ser consequência dela (Mooradian et al., 1994; Barbagallo et al., 2003). Várias evidências mostram relação entre hipomagnesemia e atividade da tirosina; quinase ao nível do receptor da insulina, o que pode gerar maior resistência
periférica a ação da insulina (Reis et al., 2002; Rodriguez-Moran & Guerrero- Romero, 2003).
Um índice intracelular reduzido de magnésio contribui para a resposta e a ação danificada da insulina que ocorre no diabetes mellitus tipo II. O suplemento crônico do magnésio pode contribuir para melhoria na resposta das células beta das ilhotas de Langerhans e na ação da insulina em indivíduos insulino - resistentes (Paolisso et al., 1990; Reis et al., 2002).
Em experimentos, a resposta insulínica se apresentou mais baixa em ratos com deficiência de magnésio, isso pode ser devido ao índice reduzido da produção de insulina pelo pâncreas dos mesmos, o que gera subsequentemente uma tolerância diminuída à glicose. Essa tolerância diminuída à glicose foi corrigida com dieta elevada de magnésio (Legrand et al., 1987).
Tuomilehto et al. (2004, apud Garambone & Rosa, 2007) relataram que o possível mecanismo responsável pela associação inversa entre o consumo do café e o diabetes seria a inibição da atividade da glicose-6-fosfatase pelo ácido clorogênico. Esta enzima regularia a glicemia, já que é responsável pela alta produção de glicose hepática em diabéticos. Sendo assim, a redução na hidrólise ou na produção da glicose-6-fosfatase, levaria a redução na liberação de glicose e consequentemente a uma menor glicemia. Outro suposto mecanismo seria a inibição pelo ácido clorogênico dos transportadores de glicose dependentes de sódio no intestino. O café interferiria na secreção de peptídeos gastrintestinais tais como, GLP1 e polipeptídio inibidor gástrico, conhecidos por seus efeitos
hipoglicemiantes.
O efeito ocasionado pelo consumo de café sobre o metabolismo da glicose não é semelhante ao ocasionado pela cafeína isolada; a cafeína aumenta a intolerância à glicose e o café não tem esse efeito. O café descafeinado tem efeito ainda mais pronunciado de melhorar a tolerância à glicose. Este trabalho tem grande relevância, pois foi realizado em protocolo duplo-cego e
randomizado o efeito do consumo de cápsulas de cafeína, café integral, café descafeinado e placebo (dextrose) que evidenciaram o erro perpetuado de assumir como semelhante o consumo de café e cafeína (Van Dam, 2006).
Na verdade, o consumo de cafeína (substância) tem o efeito de favorecer a intolerância à glicose, enquanto o consumo regular e crônico de café, especialmente o descafeinado, tem efeito de melhorar a tolerância à glicose e consequentemente, proteger os consumidores habituais contra o diabetes mellitus tipo 2 (Battram et al., 2006).