3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.5 Indicadores de Desenvolvimento Sustentável
3.5.2 Componentes e Características de Indicadores de Sustentabilidade
Grande parte dos sistemas de indicadores utilizados atualmente foi criada por razões peculiares: são indicadores ambientais, econômicos e sociais e não podem ser considerados indicadores de sustentabilidade por si só. Porém, estes indicadores possuem um potencial representativo dentro do contexto do desenvolvimento sustentável (BELLEN, 2002).
Ainda de acordo com o autor, os problemas do desenvolvimento sustentável requerem indicadores inter-relacionados e, até mesmo, a agregação de diferentes indicadores.
Existem poucos sistemas de indicadores que lidam especificamente com o desenvolvimento sustentável, sendo em sua maioria em caráter experimental, e estes sistemas foram desenvolvidos com o propósito de melhor compreender os fenômenos relacionados à sustentabilidade (BELLEN, 2002, p.32).
Em alguns casos, admite-se que indicadores devem ser desenvolvidos a partir da associação de dados ou variáveis de nível mais baixo, como a abordagem da pirâmide de informações apresentada na Figura 1. Mas esta estratégia não deve ser exclusiva, já que pode rejeitar conceitos importantes sobre a potencialidade de outras metodologias e tipos de indicadores envolvidos (GALLOPIN, 1996, apud BELLEN, 2002).
Outro aspecto referente aos indicadores relacionados ao desenvolvimento sustentável é a dimensão tempo. Segundo Dahl (1997), apud Bellen (2002), os indicadores podem ser escalares ou vetoriais. É denominado vetor um número de indicadores apresentados ao mesmo tempo, mas não agregado, para mostrar um perfil das condições ambientais. De outra forma, um índice escalar consiste num número gerado da agregação de dois ou mais valores.
Os adeptos das medidas vetoriais argumentam que a complexidade do sistema pode ser melhor compreendida a partir de medidas vetoriais, enquanto outros estudiosos alegam que a utilização de medidas escalares tem entre as principais vantagens a simplificação (BELLEN, 2002).
Ao se discutir a sustentabilidade e seus indicadores, deve-se estar ciente de que julgamentos de valor estão presentes nos sistemas de avaliação e podem ser implícitos, que provêm de aspectos não facilmente observáveis e que são inconscientes e relacionados a características pessoais e de uma determinada sociedade, ou explícitos, que são tomados conscientemente e compreendem uma parte fundamental do processo de criação de indicadores. É necessário ter em vista, também, que há diferença entre os diversos domínios em que se mede a sustentabilidade: esfera mundial ou global, nacional, regional, local ou comunitária, que é resultado dos mais diversos fatores que influenciam os valores que predominam nestes ambientes (BELLEN, 2002).
Wall et al. (1995), citado por Bellen (2002), argumentam, a respeito da questão da agregação dos dados na formulação de indicadores, que, embora indicadores agregados sejam úteis para aumentar o grau de consciência a respeito de certas questões, indicadores desagregados são fundamentais para que se possa tomar iniciativas peculiares de ação, pois, a partir de uma informação fornecida pelo indicador agregado, não é possível adotar medidas de correção dentro de áreas específicas.
Os indicadores agregados apresentam o obscurecimento de informações, o que ameaça a visualização da situação efetiva do sistema, disfarçando alguns setores e realçando outros. Entretanto, há a necessidade de indicadores com um certo grau de agregação para acompanhamento da questão da sustentabilidade, porém os dados devem ser estratificados em termos de grupos, setores ou regiões. A generalização deve, então, atender à regra de que o indicador consiga apanhar eventuais problemas de uma maneira clara e concisa (BELLEN, 2002).
No que diz respeito às funções dos indicadores, Hardi; Barg (1997), citados por Bellen (2002), afirmam que estes podem ser indicadores sistêmicos ou indicadores de performance. Os primeiros descrevem um grupo de medidas individuais para diferentes questões e comunicam as informações mais relevantes para os tomadores de decisão. Já os indicadores de performance, incorporam indicadores sistêmicos e referências a um objetivo político específico e são instrumentos para comparação. Eles provêem os tomadores de decisão de informações a respeito do sucesso no cumprimento de metas.
Segundo Bellen (2002), no processo de desenvolvimento de um índice, os diversos indicadores que fazem parte do mesmo devem ser ponderados, porém, quando se consideram aspectos ambientais e sociais, esta monetarização ou ponderação não é muito simples.
(...) a crescente utilização de indicadores mostra que estes são importantes ferramentas para a tomada de decisão e para melhor compreender e monitorar as tendências, sendo, portanto, úteis na identificação dos dados mais relevantes e no estabelecimento de sistemas conceituais para a compilação e análise de dados (BELLEN, 2002, p.36).
Outro aspecto importante, atentado por Gallopin (1996), citado por Bellen (2002), é que a grande heterogeneidade entre os países e grandes regiões se torna uma barreira para a utilização de indicadores em escalas generalizadas. Sendo assim, os maiores empenhos, no que diz respeito ao desenvolvimento de indicadores, têm sido concentrados em técnicas aplicáveis nos níveis subnacional, regional e local.
O mesmo autor sugere, ainda, que sistemas de indicadores de desenvolvimento sustentável devem seguir algumas condições: os valores dos indicadores devem ser mensuráveis, deve existir disponibilidade dos dados, a metodologia utilizada deve ser transparente e padronizada, os meios para construir e acompanhar os indicadores devem estar disponíveis, os indicadores devem ser financeiramente viáveis e deve existir aceitação política dos indicadores no nível adequado.
Bellen (2002) cita ainda Jesinghaus (1999), que levanta a questão da importância da seleção dos indicadores, que deve seguir três estágios: o preparatório, o de estabelecimento de objetivos e cronogramas e o que se refere a institucionalização do grupo de indicadores, de sua atualização, revisões, alocação de recursos, entre outros aspectos. Para o autor, a seleção pode ser feita a partir de duas abordagens: a top-down e a bottom-up. De acordo com a primeira abordagem, o grupo de indicadores e o sistema são definidos pelos especialistas e pesquisadores, enquanto na abordagem bottom-up há a participação da sociedade envolvida na seleção dos indicadores. Ambas possuem vantagens e desvantagens.
A partir desta discussão, verifica-se que os indicadores devem ser holísticos, representando a visão do todo, devem ter embasamento científico, devem ser confiáveis e transmitir informações claras para os tomadores de decisão e a quem mais interessar.