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Capítulo III – Apresentação dos dados e Discussão

2. Componentes fundamentais do Centro de Dia

A categoria componentes fundamentais do centro de dia remete para as principais componentes do centro de dia que procuram satisfazer as necessidades do idoso, e também de que forma é que as satisfazem. Dentro desta categoria emergiram oito subcategorias: (1) promoção da interação social, (2) implementação de rotinas, (3) apoio na saúde/cuidados médicos, (4) atividades de promoção de atividade física, (5) promoção da função cognitiva, (6) fornecimento de um ambiente familiar, (7) equipa multidisciplinar, e (8) fornecimento de apoio logístico.

As atividades de promoção de interação social e a implementação de rotinas, foram as que receberam maior ênfase por parte de todos os entrevistados como sendo as que mais contribuem para o bem-estar do idoso.

Na literatura existente, a interação social está ligada a vários benefícios no âmbito da saúde, como por exemplo a existência de um menor risco de viver uma depressão (Harvard Men’s Health Watch, 2019). Segundo Gruenewald, Liao, & Seeman (2012), idosos que interajam com outras pessoas fora do seu círculo familiar têm uma maior probabilidade de praticar mais atividade física, de ter um olhar mais positivo sobre a vida, e de vivenciar menos sentimentos negativos. A participação do idoso em atividades de promoção da interação social realizadas em centro de dia permitem-lhe melhorar a sua socialização (Quadros & Patrocínio, 2015).

“Ai tem contribuído em muita coisa. Olhe encontrei amigas antigas e fiz muitas amigas novas e percebi que não tem mal nenhum virmos para estes sítios.” (Idoso”)

“…no centro está rodeada de pessoas o dia todo, e para além das atividades todas que existem ela ainda diz que é muito bem tratada pelos funcionários.” (Familiar1)

As relações sociais podem moderar o stress em pessoas que vivenciem situações particularmente difíceis, como por exemplo, a morte de um cônjuge. Perante a existência de um suporte social, espera-se que as pessoas se sintam amadas, seguras, e que tenham um elevado sentimento de autoestima (Ramos, 2002). Durante o processo de envelhecimento, o número de pessoas da rede de relações vai diminuindo, e com o surgimento das perdas comuns a esse percurso, o idoso torna-se mais dependente, saindo cada vez menos de casa e interagindo cada vez menos com outras pessoas. Tal facto pode ter repercussões ao nível da manutenção do autoconceito, vivência de afetividade, ou falta de estimulação para a realização de outras atividades (Carstensen et al., 2011).

Os idosos entrevistados referiram sentir-se mais positivos perante o seu processo de envelhecimento, desmistificando-o, e ao interagirem com outras pessoas com quem partilham essa experiência percebem que não estão sós, contribuindo assim para uma maior aceitação. Também os familiares reconhecem os benefícios das atividades de interação social como resposta à necessidade que mais sentiam previamente à entrada do seu familiar em centro de dia, a solidão.

“Ela própria queria companhia e sentia muito falta disso. A procura do centro foi mesmo no sentido do que ela dizia e passo a citar “estar sozinha não me faz bem”” (Familiar2)

“…o ter uma atividade, o ter com quer falar, isso acho que melhora consideravelmente a vida do idoso no geral.” (Membro da Equipa1)

É importante que as pessoas mais velhas se mantenham ativas física e cognitivamente, e para que tal aconteça é necessário que estas tenham uma rotina diária onde possam desenvolver estas atividades e onde se possam sentir seguras. A implementação de uma rotina diária, vem de certo modo assegurar a continuidade de uma estrutura à vida do idoso e dos seus familiares cuidadores, e permite que tarefas fundamentais como a toma da medicação, higiene, atividade física ou alimentação decorram sem falhas (Palma, 2019). Para além disso, há também evidências que sugerem que a manutenção de rotinas traz benefícios ao nível do controlo da ansiedade, e da melhoria da qualidade do sono, aumentando a vontade de cooperação, e diminuindo o stress dos cuidadores (Pedro, 2019).

Os entrevistados reconheceram a implementação de uma rotina diária como uma componente fundamental do centro de dia com grande polivalência no que diz respeito aos seus benefícios, sendo que variam desde o aumento da motivação para o cuidado da

imagem, à resposta à perda de noção do tempo, ou à manutenção da atividade geral da pessoa.

“Tenho ajuda em muitas coisas dos meus dias. Olhe só o saber que tenho que me levantar cedo e despachar para ir para o centro já me faz bem, porque se ficasse em casa uma pessoa ía perdendo a vontade de fazer as coisas. E depois tenho sempre aquela coisa de me querer arranjar, porque eu quando era mais nova era uma moça muito vaidosa. Agora também gosto de ir bem.” (Idoso2)

“Quando eu disse que ela descompensa estava a falar mesmo do perder a noção do decorrer do dia, como se a falta de uma rotina a deixasse descompensada. Olhe agora que penso bem isso acaba por ser a outra grande necessidade da minha mãe, o ter um acompanhamento que a oriente/guie no cumprimento das rotinas quando eu estou ausente.” (Familiar1)

““Nós” oferecemos aos nossos utentes uma rotina diária que permite a que os mesmos mantenham a sua atividade ao máximo que lhes for possível (tendo em conta a especificidade de cada caso).” (Membro da Equipa2)

Dentro do segundo grupo de componentes fundamentais mais mencionados, encontra- se o apoio na saúde/cuidados médicos. Com o apoio do centro de dia, há um acompanhamento constante feito sobretudo por enfermeiros que tem como funções realizar o controlo dos sinais vitais de todos os utentes, fazer curativos, bem como preparar e administrar corretamente a medicação (Quadros e Patrocínio, 2015). O apoio no âmbito da saúde é considerado como sendo muito importante no processo de envelhecimento por todos os entrevistados, que enfatizam o sentimento de segurança e de assistência.

“E temos de tudo aqui menina, olhe que se for preciso irmos ao médico até vão connosco!" (Idoso1)

“Os nossos Enfermeiros fazer um check up quando necessário e estão prontos para qualquer eventualidade, e também são eles que administram a medicação, preparam as caixas dos medicamentos para que os Idosos levem tudo certinho para casa.” (Membro da Equipa2)

A promoção de atividades físicas e cognitivas foram reconhecidas pelos idosos como estimulantes para a manutenção e recuperação de determinadas capacidades, nomeadamente, a melhoria da condição física, surgimento de novas relações de proximidade, e recuperação de hobbies antigos.

“Pronto a minha necessidade maior era mesmo a falta de me mexer. E depois disseram- me que no Centro de Dia havia aulas de ginástica e eu achei logo que era uma coisa que me ia fazer muito bem, e olha que fez mesmo menina. Aquilo não é assim ginástica mesmo a sério, é assim mais só movimentos nos braços e nas pernas e andarmos à roda, mas ajudou-me muito com as minhas dores. Era mesmo aquilo que me faltava!” (Idoso2)

“A minha esposa até já faz renda e tudo, ela dizia que já não se lembrava de nada como se fazia, e desde que viemos para o centro e ela fez amigas novas que também faziam renda começou a lembrar-se de tudo! (Idoso1)

Todas as questões que precisem de ser resolvidas e que envolvam uma logística em que o idoso tem que deslocar a algum lado, por norma são resolvidas pelos familiares cuidadores. Mas caso estes estejam impossibilitados de o fazer por incompatibilidade com o seu horário de trabalho, é o centro de dia que presta esse apoio logístico, como por exemplo, o acompanhamento a consultas médias, ou a irem buscar a casa utentes que tenha dificuldade na mobilidade.

“…sempre que ela precisa de tratar algum assunto durante o dia em que nenhum de nós se pode ausentar do trabalho ela vai com acompanhamento de alguma auxiliar.” (Familiar1)

“Temos carrinhas que os vão buscar a casa com uma auxiliar que os ajuda na deslocação, desde a porta de casa até chegarem ao Centro de Dia.” (Membro da Equipa2)

A equipa multidisciplinar, o fornecimento de um ambiente familiar, e o fornecimento de apoio logístico foram as componentes do centro de die mencionadas por menos participantes, não deixando no entanto de também ter a sua importância. Os entrevistados reconhecem-nas como meios importantes que proporcionam a realização de atividades fundamentais direcionadas para as necessidades dos utentes. A equipa multidisciplinar, qualificada para o trabalho gerontológico, realiza uma avaliação multidimensional do idoso, investigando o estado funcional, a saúde mental e social do idoso (Oliveira e Tavares, 2014). Os entrevistados referem ainda, que o fornecimento de um ambiente familiar permite a que sintam um conforto e uma tranquilidade em relação à necessidade de procura de uma alternativa à prestação de cuidados necessários, fornecendo também um apoio logístico para a realização de variadas tarefas.

“Há um acompanhamento do Idoso por parte de uma equipa multidisciplinar composta por Assistentes Sociais, Psicólogos, Nutricionistas, Enfermeiros, Auxiliares de Geriatria, Cozinheiros e por aí fora, que tem como funções fornecer um acompanhamento do Idoso em todos os prismas que fazem parte da sua vida diária.” (Membro da Equipa2)

“Tentamos fornecer tudo o que for possível para que haja um bom cuidado do utente que influenciará também os seus familiares, mantê-los ativos, com atividades variadas, cuidados a vários níveis, mas com a manutenção dos mesmos nas suas residências. Eles não precisam de ir para lares e de se “alienar”, é possível cuidar e acompanhar, mas fomentando sempre a independência e o ambiente familiar. Isso para mim é fundamental e imperativo!” (Membro da

Equipa2)

“…sempre que ela precisa de tratar algum assunto durante o dia em que nenhum de nós se pode ausentar do trabalho ela vai com acompanhamento de alguma auxiliar.” (Familiar1)

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