CAPITULO 3. BOOM MINEIRO-ENERGÉTICO E APROFUNDAMENTO DA
3.2. Boom minero-energético e mudança na pauta de comércio exterior pós-1990
3.2.2. Comportamento das importações no século XXI
Tal como apontado anteriormente, as importações foram uma variável fundamental durante o padrão industrial de reprodução do capital na Colômbia. O processo de industrialização substitutiva consistiu basicamente em substituir com produção local grande parte da demanda interna que se satisfazia com importações. Dessa forma, a política econômica daquele período privilegiou e impulsionou o crescimento de alguns setores industriais de produção de bens de consumo corrente, através do aumento das tarifas de importação desse tipo de produtos, mas diminuição dessa taxação quando se tratasse de importação de matérias-primas e bens de capital para a indústria nacional. Com isso, pela primeira vez na história do país, os bens de consumo começaram a diminuir gradativamente sua participação no valor total das importações, chegando a representar 7,3% do total no começo dos anos 1960. Por sua parte, a importação de bens intermediários e de capital, naquele mesmo período, atingiu 90% do valor total importado (VER
TABELA 1.11).
A interrupção do padrão industrial no final da década de 1970 e a conseguinte liberalização comercial imposta ao país impediu que continuasse a dita tendência. Apesar dos bens intermediários e de capital continuarem representando o grosso das importações, os dados
71 No final de 2014 também foi aprovada uma reforma tributária pelo Congresso da República, através da qual se
buscava obter maior arrecadação para compensar parcialmente a queda das receitas tributárias provenientes do setor minero-energético.
72 Segundo o Ministério da Fazenda e Crédito Público, entre 2013 e 2016 se produziu a diminuição mais pronunciada
das receitas fiscais do Governo Nacional nos últimos 35 anos (de aproximadamente 3,4% do PIB), como consequência da queda dos preços do petróleo. Somente o setor petroleiro contribui com mais de 20% das receitas correntes do Estado colombiano. Portanto, a queda acentuada dos seus preços tornou-se a preocupação principal da política econômica desde 2014.
mostram que os bens de consumo voltaram a ter sua participação incrementada nos últimos vinte anos. As tabelas 3.11 e 3.12, a seguir, apresentam esse comportamento.
Há que destacar que a ruptura da tendência descrita acima é consequência da constituição do padrão exportador de especialização produtiva nos últimos anos do século passado, que jogou a produção industrial numa estagnação progressiva que se mantém até hoje, tanto na Colômbia quanto nas economias latino-americanas. Nesse sentido, podem salientar-se alguns fatores estruturais que têm limitado o crescimento do setor industrial no país nas últimas décadas: a vulnerabilidade da estrutura produtiva diante das perturbações externas ou choques associados a mudanças no entorno internacional, a velocidade da abertura comercial, os efeitos das flutuações e turbulências macroeconômicas, a gestão da política cambial - especialmente durante a década de 1990 -, fatores estruturais no nível setorial e a incapacidad estatal para planejar um modelo de desenvolvimento setorial de longo prazo, que incentive a transformação produtiva e possibilite a consolidação de um aparelho industrial competitivo internacionalmente (MALDONADO, 2010).
Tabela 3.11. Importações totais segundo Classificação CUODE e participação percentual para anos selecionados, 2000-2015 (milhões de dólares CIF).
2000 Part. (%) 2003 Part. (%) 2006 Part. (%) 2009 Part. (%) 2012 Part. (%) 2015 Part. (%) TOTAL IMPORTAÇÕES 11.757 100 13.882 100 26.162 100 32.891 100 59.048 100 54.058 100 Bens de Consumo 2.208 18,78 2.666 19,21 5.289 20,2 6.675 20,3 12.956 21,9 12.125 22,4 Não duráveis 1.407 11,97 1.399 10,08 2.332 8,9 3.279 10 6.298 10,7 6.213 11,5 Duráveis 801 6,81 1.267 9,13 2.958 11,3 3.396 10,3 6.659 11,3 5.912 10,9 Matérias primas e produtos intermediários 5.914 50,3 6.412 46,19 11.515 44 13.193 40,1 25.473 43,1 23.310 43,1 Combustíveis, lubrificantes e conexos 234 1,99 239 1,72 681 2,6 1.197 3,6 5.668 9,6 5.135 9,5
Mat. Prim. e Prod. Int. para
agricultura 497 4,22 559 4,03 863 3,3 1.236 3,8 2.030 3,4 1.955 3,6 Mat. Prim. e Prod. Int. para
Indústria 5.183 44,08 5.614 40,44 9.972 38,1 10.760 32,7 17.775 30,1 16.220 30 Bens de Capital e
Materiais de Construção 3.633 30,9 4.790 34,5 9.340 35,7 13.001 39,5 20.591 34,9 18.601 34,4 Materiais de construção 172 1,46 223 1,6 583 2,2 1.050 3,2 1.959 3,3 1.739 3,2 Bens de capital para
agricultura 24 0,21 55 0,39 61 0,2 126 0,4 176 0,3 163 0,3
Bens de capital para
indústria 2.337 19,88 2.879 20,74 5.636 21,5 6.890 20,9 11.772 19,9 11.006 20,4 Equipamento de transporte 1.099 9,35 1.633 11,77 3.060 11,7 4.935 15 6.684 11,3 5.693 10,5
Não classificados 3 0,02 13 0,1 18 0,1 22 0,1 27 0 23 0
Tabela 3.12. Importações totais por setor econômico segundo CIIU Rev. 3 e participação percentual para anos selecionados, 2000-2015 (milhões de dólares CIF).
2000 (%) 2003 (%) 2006 (%) 2009 (%) 2012 (%) 2015 (%)
TOTAL IMPORTAÇÕES 11.757,00 100 13.881,70 100 26.162,40 100 32.891,10 100 59.047,70 100 54.057,60 100 Setor agropecuário, caça e silvicultura 799,2 6,8 949,5 6,8 1.241,30 4,7 1.733,30 5,3 2.684,90 4,5 2.330,40 4,3
Setor mineiro 92 0,8 89,1 0,6 272,4 1 94,5 0,3 184,2 0,3 124,6 0,2
Setor Industrial 10.856,30 92,3 12.825,60 92,4 24.621,60 94,1 31.042,10 94,4 56.152,60 95,1 51.578,90 95,4 Produtos alimentícios e bebidas 726,9 6,2 758,3 5,5 1.237,00 4,7 1.844,70 5,6 3.546,80 6 3.422,00 6,3
Produtos do tabaco 36,1 0,3 24,8 0,2 23,7 0,1 14,5 0 77,2 0,1 82,5 0,2
Fabricação de produtos têxteis 447,7 3,8 469,6 3,4 768 2,9 772,8 2,3 1.571,20 2,7 1.381,60 2,6
Fabricação de roupas 59,1 0,5 52,4 0,4 108 0,4 206,9 0,6 602,2 1 534,5 1
Couro e seus derivados; calçado 90,8 0,8 101,5 0,7 233,7 0,9 327 1 748,2 1,3 552,6 1 Indústria da madeira 23,1 0,2 35,4 0,3 80,8 0,3 110 0,3 248,8 0,4 246,8 0,5 Papel, papelão e seus derivados 409,9 3,5 395,6 2,8 609,1 2,3 614,9 1,9 844,4 1,4 759,5 1,4 Atividades de edição e impressão 115,3 1 100,9 0,7 142,9 0,5 165,4 0,5 205,6 0,3 176,7 0,3 Fabricação de produtos para refino do petróleo 187,8 1,6 199,2 1,4 486,6 1,9 1.198,40 3,6 5.650,60 9,6 5.117,00 9,5 Fabricação de substâncias e produtos químicos 2.930,50 24,9 3.167,30 22,8 5.280,40 20,2 6.118,50 18,6 9.783,00 16,6 9.751,10 18 Fabricação de produtos de borracha e plástico 412 3,5 442,7 3,2 876,4 3,3 1.156,70 3,5 2.062,50 3,5 1.885,90 3,5 Outros produtos minerais não metálicos 118,3 1 137,1 1 307,9 1,2 368,9 1,1 713,1 1,2 839,4 1,6 Fabricação de produtos metalúrgicos básicos 666 5,7 749,6 5,4 2.006,90 7,7 1.982,10 6 3.440,50 5,8 2.687,60 5 Produtos elaborados de metal 259,4 2,2 203,8 1,5 440,3 1,7 548,2 1,7 1.131,40 1,9 1.010,40 1,9 Fabricação de maquinaria e equipamento 1.222,70 10,4 1.577,70 11,4 2.929,50 11,2 4.455,30 13,5 6.662,80 11,3 5.346,50 9,9 Fabricação de maquinaria de escritório 426,2 3,6 563,7 4,1 858,9 3,3 1.061,60 3,2 1.821,00 3,1 1.527,50 2,8 Fabricação de maquinaria e aparatos elétricos 372,1 3,2 334,9 2,4 744,9 2,8 1.020,70 3,1 1.784,00 3 1.840,30 3,4 Fabricação de equipamento de telecomunicações 635,6 5,4 945,2 6,8 2.256,20 8,6 1.837,20 5,6 3.488,10 5,9 3.507,00 6,5 Fabricação de instrumentos médicos 337,7 2,9 385,3 2,8 808 3,1 1.063,30 3,2 1.778,30 3 1.821,60 3,4 Fabricação de veículos 667,5 5,7 1.029,10 7,4 2.794,20 10,7 2.389,50 7,3 6.231,70 10,6 4.043,30 7,5 Fabricação de outros tipos de transporte 538 4,6 983,7 7,1 1.216,90 4,7 3.324,50 10,1 2.773,70 4,7 4.178,20 7,7 Fabricação de móveis; indústrias manufatureiras 164,5 1,4 160,8 1,2 359,4 1,4 458 1,4 966 1,6 854 1,6
Reciclagem 9,2 0,1 7,1 0,1 52,1 0,2 2,9 0 21,5 0 13 0
Demais Setores 9,5 0,1 17,5 0,1 27,2 0,1 21,3 0,1 25,9 0 23,7 0
A tabela 3.11 apresenta os dados sobre importações na Colômbia a partir da Classificação Segundo o Uso e Destino Econômico (CUODE), bem como a participação percentual de cada tipo de importação no valor total importado. É evidente que ao longo deste século a Colômbia continua tendo uma participação muito alta das importações de matérias- primas, produtos intermediários e bens de capital para a indústria de transformação. Porém, a importância desse tipo de importações no século XXI não responde ao estabelecimento de políticas protecionistas em favor da indústria nacional, como aconteceu no período de pós-guerra. Este comportamento representa, muito pelo contrário, a ausência de uma indústria nacional de produção de bens de capital, que somada à politica de tratados de livre comércio com economias centrais como a de Estados Unidos e alguns países europeus, só aprofunda a inserção do país na divisão internacional do trabalho enquanto exportador de bens primários e importador de produtos intensivos em capital e tecnologia.
Por sua parte, os dados da tabela 3.12, usando outro tipo de classificação, refletem a mesma situação. De acordo com ela, o setor industrial tem sido responsável por mais de 90% das importações colombianas desde o começo da década passada, voltadas principalmente para os setores de produção de substâncias e produtos químicos, fabricação de maquinaria e equipamento, de veículos e, mais recentemente, de produtos para o refino do petróleo.