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Eu e você Tom Jobim

6.3. A composição do arquivo de células para a rodada binária

6.4.5. Comportamento de grupo de fatores Contexto desencadeador

Neste grupo de fatores foram analisados os advérbios de tempo, negação, lugar, afirmação e interrogativos, distribuídos no córpus, conforme tabela abaixo:

Tabela 36 – Grupo de fatores contextos desencadeador, em números absolutos, porcentagens e pesos relativos.

Tipo de advérbio

Futuro Sintético Ir + infinitivo

Totais Ocor. % P. R. Ocor. % P. R.

Afirmação 3 75 .81 1 25 .19 4

Tempo 115 60 .61 78 40 .39 193

Lugar 16 59 .51 11 41 .49 27

Negação 137 55 .50 114 45 .50 251

Interrogativos 50 43 .31 66 57 .69 116

Totais 321 54 270 46 591

O futuro sintético ocorre mais, nesse córpus, com os advérbios de afirmação e de tempo, com .81 e .61 de peso relativo, respectivamente, porém o número de ocorrências de advérbio de afirmação é extremamente escasso e enviesa possíveis conclusões. Conforme já mencionado, o futuro sintético denota certa carga de promessa em sua forma, o que pode estar sendo confirmado com esse peso relativo alto para a combinação futuro sintético / advérbio de afirmação. Se a variante tem atribuído em si uma ideia maior de comprometimento, de obrigação, de promessa, quando se tem advérbio de afirmação essa ideia se torna acentuada, reforçada. Possivelmente venha daí a maior tendência de uso da forma canônica com esse tipo de advérbio, que apresenta apenas 4 ocorrências em todo o córpus, 3 delas com o futuro sintético:

(286) Agora sim, começará o nosso telégrafo a trabalhar, disse eu comigo mesmo. (A Moreninha, 1840, Joaquim Manuel de Macedo, pág.8, adulto sozinho.)

164 (287) Sim, minhas Senhoras, é um jovem inconstante, acessível a toda as belezas, repudiando-as ao mesmo tempo para correr atrás de outra, que será logo deixada pela vista de uma nova, como se ele fosse a inércia da matéria, que conserva uma impressão, mas que não a guarda senão o tempo que é gasto para um novo agente modificá-la! (A Moreninha, 1840, Joaquim Manuel de Macedo, pág. 22, jovens entre si.)

(288) Eu acho que o partido certamente terá outras pessoas de mais capacidade... (Meninos no Poder, Domingos Pellegrini, 1970, pág.

38, adultos entre si.)

O futuro sintético também tende a ocorrer com advérbios de tempo, com .61 de probabilidade para esse encontro, como em:

(289) Mas logo mais perderei, vocês vão ver. (Fluxo – Floema, Hilda Hilst, 1950

Dos 5 advérbios do grupo de fatores em estudo, 2 apresentaram-se no ponto neutro, ou seja, sem nenhuma tendência de ocorrer com qualquer uma das duas variantes.O que significa que ocorrem tanto com uma quanto com a outra variante de aplicação da regra variável de representação do tempo futuro aqui em análise. O que se tem, então, é que quando há advérbio de lugar ou de negação em frases onde há a necessidade de representar o tempo futuro, esse se faz indiferentemente com o futuro sintético ou com ir + infinitivo: como se pode observar nos exemplos abaixo:

(290) Juro-te que nossa filha não passará pelas mesmas angústias por que passei, nem resvalará em nenhum dos muitos modos de ser da prostituição! (O Livro de uma Sogra, Aluisio de Azevedo, 1880) (291) E não serei eu quem o jogará na cadeia. Será o próprio regente. (Boca

do Inferno, Ana Miranda, 1970, pág. 69, entre iguais.)

(292) Eu sozinho não vou fazer muito. (Meninos no Poder, Domingos comprometimento, o que parece não corresponder a interrogações, que estariam mais para dúvidas do que para promessas, como abaixo:

(294) Quanto você vai ganhar? (O Feijão e o Sonho, Orígenes Lessa, 1920)

165 (295) Que nome vai usar? (Memorial de Maria Moura, Raquel de Queiroz,

1930)

(296) Mas criatura de Deus, o que é que você vai fazer com mais gado? (O Quinze, Raquel de Queiroz, 1930)

(297) Aonde é que isso vai dar? (O Espelho dos Nomes, Marcos Bagno, 1980)

(298) O que ela vai pensar? (Crescer é Perigoso, de Márcia Kupstas, 1980, pág. 45, ‗criança‘, sozinha.)

(299) Quantos dias mesmo você vai ficar em Londres? (Carta para alguém bem perto, 1990, Fernanda Yung, pág. 39, masculino adulto para feminino adulto igual.)

(300) Como vou saber se ele não esta com raiva? (Carta para alguém bem perto, 1990, Fernanda Yung, pág. 60, masculino adulto para feminino adulto igual.)

O futuro sintético com advérbio interrogativo, em algumas situações, parece destoar da situação de interrogação, tornando a frase, não agramatical, sem dúvida, mas artificial, não natural:

(301) Mas então que pensas que andarás fazendo por esse sertão? (O Guarani, 1850, José de Alencar, pág. 22, adultos entre si,)

(302) Como transcorrerá o resto do dia? (O Exército de um homem só, 1960, Moacyr Scliar, pág. 23, adultos entre si.)

Parece que as mesmas situações, proferidas com ir + infinitivo, soariam como mais naturais para os contextos das falas:

(301‘) Mas então que pensas que vais andar fazendo por esse sertão?

(302‘) Como vai transcorrer o resto do dia?

Duas das obras não consideradas nas rodadas do Varbrul por conta de seus nocautes apresentaram juntas 17 ocorrências de futuro sintético antecedido de advérbio de afirmação. As Aventuras de Diófones – imitando o sapientíssimo Fenelon na sua viagem a Telêmaco, 1730 totalizou 37 ocorrências de futuro sintético, sendo 7 com advérbios de afirmação e O Filho do Pescador, de 1830, com 122 ocorrências de futuro sintético e, dessas, 7 com advérbio de afirmação, o que demonstra que essa combinação era mais produtiva, da mesma maneira que o próprio futuro sintético o era.

166 6.4.6. Comportamento do grupo de fatores extensão fonológica do verbo

Esse foi o penúltimo grupo de fatores selecionado pelo programa, o que nos indica que ele é de alguma relevância para a aplicação da regra variável de representação do tempo futuro. Os números trazidos por esse grupo justificam essa classificação na escala de relevância: excetuando os verbos monossilábicos, os demais se apresentam próximos do ponto neutro. O que significa que não são, nesse córpus, decisivos para a aplicação de uma ou de outra variante.

A hipótese aventada para esse estudo é de que os verbos mais pesados tenderiam a representar do tempo futuro através de ir + infinitivo, o que os números confirmam, mas com uma tendência muito leve, bastante próxima do ponto neutro. Aliás, exceto os monossilábicos, as demais extensões verbais se apresentam nessa mesma condição de proximidade do ponto neutro, o que pode ser um indicativo de que a extensão verbal monossilábica é um contexto de resistência para o uso de ir + infinitivo na representação do tempo futuro. Em outras palavras pose-se dizer que o futuro sintético está se mantendo produtivo a partir desse fator: quando ocorrer contexto de futuridade e o verbo em questão for monossilábico a tendência de ele se fazer representar pela forma canônica é alta, corroborando Oliveira (2006) que também verificou que o futuro sintético resiste nas formas verbais monossilábicas, como em:

167 (303) Eu o darei com o maior prazer. (Senhora, José de Alencar, 1850) Quando o verbo é monossilábico sua conjugação nesse tempo verbal não geraria uma extensão fonologicamente pesada. Ainda comentando os monossilábicos é interessante observar que eles não tendem a ocorrer em perífrases. Como já explicitado o verbo monossilábico de maior incidência é ir e esse ainda encontra na língua um contexto de resistência de ocorrer com ir + infinitivo, o que resultaria em ‗vou ir...’, forma não encontrada no córpus.

A utilização do futuro sintético, que acontece prioritariamente com verbos menos pesados fonologicamente, ocorre com verbos polissilábicos para acrescentar ao contexto um tom profético, de promessa velada, como na sequência abaixo, onde a personagem repete a estrutura mudando a forma de representação do tempo futuro. Na primeira vez faz uso da perífrase e, para atribuir à fala um tom mais promissor, lança mão do futuro sintético:

(304) Alguma coisa estranha vai acontecer. (Fluxo – Floema, Hilda Hilst, 1950, pág.99, conversa entre adultos.)

(305) Alguma coisa acontecerá aos humanos. (Fluxo – Floema, Hilda Hilst, pág. 107, 1950, conversa entre adultos.)

A intenção do personagem nessa segunda ocorrência é de proferir uma frase mais forte do que a proferida anteriormente, para que a intenção fosse externada e entendida a mesma frase foi proferida fazendo uso do futuro sintético onde antes havia sido usada ir + infinitivo.