5. RESULTADO E DISCUSSÃO
5.3 COMPORTAMENTO DIURNO
Constatou-se alteração (P<0,05) na atividade de ingestão de água, para o parâmetro alfa dos dois tratamentos. Essa diferença está representada nos percentis, quando o zero não está contido entre eles. Em cada tratamento 𝛼 e 𝛽
representam as primeiras e as demais horas do dia. O parâmetro ∆ está representando a diferença entre os tratamentos, nas primeiras (𝛼) e no restante das horas do dia (𝛽) se o zero não estiver entre os percentis (Tabela 6). Para os comportamentos de empurrar e monta, não houve convergência para o modelo utilizado na análise dos dados, de modo que, não serão expostos neste trabalho. O modelo de análise deste trabalho não se adequou aos comportamentos de afugentar, brincar com outro animal, brincar com a cama, cabeçada, se coçar se lamber e ofego.
Tabela 6 - Estimativas a posteriori dos parâmetros (média ± desvio e intervalos de credibilidade) da atividade de ingestão de água das vacas primíparas e multíparas no sistema compost barn, em estações frias
PARÂMETROS MÉDIA ± DESVIO PERCENTIS SIGNIFICÂNCIA
2,5% 97,5% α (trat. 1) -2,182±0,995 -4,110 -0,248 * α (trat. 2) -2,886±0,808 -4,440 -1,347 * β (trat. 1) -0,284±0,266 -0,811 0,217 NS β (trat. 2) 0,122±0,212 -0,291 0,534 NS Δ (α) -0,703±1,272 -3,081 1,712 NS Δ (β) 0,406±0,341 -0,250 1,056 NS
DP: desvio-padrão; trat. 1: vacas primíparas; trat. 2: vacas multíparas; *: estatisticamente diferentes por meio de comparações Bayesianas (P<0,05); NS : não significativo.
Observou-se que entre às 12 horas e às 12 horas e 40 minutos, as vacas primíparas tiveram maiores picos de consumo de água, enquanto as multíparas registraram poucos picos de consumo ao longo do dia. Essa situação pode estar atrelada ao término da ordenha, em torno das 8 horas e 30 minutos, considerando a probabilidade de que os animais já haviam ingerido água na primeira avaliação do dia (Figura 7).
Figura 7 - Probabilidade de consumo de água das vacas primíparas (linha contínua) e multíparas (linha tracejada) no sistema compost barn no decorrer das horas, em estações frias
Perissinoto et al. (2005) realizaram um experimento em um confinamento comercial de vacas leiteiras em São Paulo, demonstrando o consumo de 12,5 L de água após a ordenha, o que correspondeu a um pico de consumo diário dos animais. O presente estudo demostrou maior probabilidade de ingestão de água entre às 12 horas e às 12 horas e 40 minutos, demostrando o maior pico de consumo no dia. Ainda segundo os autores, animais em condições de maior estresse podem perder mais tempo a procura de água, tentando diminuir os efeitos do ambiente, chegando a 2,6 idas a bebedouros em dia com 24,1 °C e 6,1 vezes em dia com 32,8 °C. Observou-se uma permanência maior próximo a bebedouros, em dias mais quentes.
Titto (1998) descreveu que os bovinos aumentam a ingestão de água e diminuem suas atividades nas horas mais quentes do dia, como forma de combater o aumento de temperatura, buscando também à reposição das perdas sudativas e respiratórias, contemplando ainda um resfriamento corporal. Contudo a exigência de água é influenciada por algumas questões, tais como, temperatura ambiente, peso, idade, fase da vida do animal e o consumo de matéria seca, sendo que a oferta irregular de água pode comprometer a ingestão de alimentos, por consequência prejudicar o seu desempenho (MARINO, 2006).
Houve diferença nas primeiras horas do dia no que se refere à probabilidade de comer das vacas primíparas. No decorrer das horas, representado pelo
parâmetro β, houve alteração desta probabilidade para vacas primíparas e multíparas (Tabela 7).
Tabela 7 - Estimativas a posteriori dos parâmetros (média ± desvio e intervalos de credibilidade) da atividade de comer das vacas primíparas e multíparas no sistema compost barn, em estações frias
PARÂMETROS MÉDIA ± DESVIO PERCENTIS SIGNIFICÂNCIA
2,5% 97,5% α (trat. 1) 1,237±0,494 3,008 2,192 * α (trat. 2) 2,192±0,502 -7,657 1,218 NS β (trat. 1) -4,947±0,138 -7,769 -0,221 * β (trat. 2) -3,139±0,139 -5,798 -0,045 * Δ (α) -1,018±0,701 -2,331 0,349 NS Δ (β) 1,808±0,195 -2,072 0,539 NS
DP: desvio-padrão; trat. 1: vacas primíparas; trat. 2: vacas multíparas; *: estatisticamente diferentes por meio de comparações Bayesianas (P<0,05); NS: não significativo.
A probabilidade do comportamento de comer das vacas no compost barn foi decrescente ao longo do dia (Figura 8).
Figura 8 - Probabilidade de comer das vacas primíparas (linha contínua) e multíparas (linha tracejada) no sistema compost barn no decorrer das horas, em estações frias
A probabilidade das vacas primíparas para este comportamento diminuiu no horário das 10 horas, ao passo que as multíparas demostraram leve declínio,
mantendo-se semelhantes ambos os grupos ao longo do dia. O fornecimento de alimento ocorria no período da manhã, 8 horas e 30 minutos, o que elevou a probabilidade da atividade de comer nas primeiras horas do dia.
Matarazzo et al. (2007) observaram que animais inseridos no sistema de resfriamento por ventilação e nebulização permaneceram maior tempo na área de alimentação (72,5 e 60,7 minutos) correspondendo a 3,3 % do tempo total quando comparados aos animais que não receberam o tratamento. Arcaro et al. (2006) observaram animais que acessaram ambientes climatizado e permaneceram 51 min a mais se alimentando em comparação aos animais que não tiveram acesso à climatização.
Na atividade de ruminar em relação às duas posturas, verificou-se a diferença (P<0,05) nas primeiras horas do dia (parâmetro α) das vacas primíparas e multíparas (Tabela 8).
Tabela 8 - Estimativas a posteriori dos parâmetros (média ± desvio e intervalos de credibilidade) da atividade de ruminar em pé e deitado das vacas primíparas e multíparas no sistema compost barn em estações frias
PARÂMETROS MÉDIA ± DESVIO PERCENTIS SIGNIFICÂNCIA
2,5% 97,5% Ruminar em pé α (trat. 1) -3,533±0,858 -5,441 -1,989 * α (trat. 2) -3,416±0,766 -5,001 -2,000 * β (trat. 1) 2,381±0,214 -0,159 0,690 NS β (trat. 2) 2,700±0,194 -0,087 0,671 NS Δ (α) 1,165±1,173 -2,071 2,507 NS Δ (β) 3,192±0,296 -0,570 0,585 NS Ruminar deitado α (trat. 1) -1,899±0,609 -3,061 -0,724 * α(trat. 2) -2,149±0,592 -3,387 -1,071 * β (trat. 1) 8,393±0,162 -0,238 0,402 NS β(trat. 2) 2,227±0,160 -0,080 0,552 NS Δ (α) -2,503±0,861 -1,954 1,316 NS Δ (β) 1,388±0,230 -0,298 0,599 NS
DP: desvio-padrão; trat. 1: vacas primíparas; trat. 2: vacas multíparas; *: estatisticamente diferentes por meio de comparações Bayesianas (P<0,05); NS: não significativo.
Os animais obtiveram pico de probabilidade da atividade de ruminar deitado entre 10 horas e 10 horas e 40 minutos (Figura 9b). Houve baixa probabilidade de atividade ás 9 horas e 20 minutos, consequência do período de alimentação (Figura 9a, b). Já a atividade de ruminar em pé, obteve uma probabilidade de 0,1 nas primeiras horas do dia e com o passar deste, chegou até 0,3 (Figura 9a). O presente estudo está de acordo com o que descreve os autores.
Shultz (1983) descreveu que os animais permanecem mais tempo ruminando no período de inverno em relação ao verão (apud ZANINE et al.,2006) Denota-se a preferência por ruminar deitado, optando por horas mais frescas do dia (DAMASCENO et al., 1999).
(a) (b)
Figura 9 - Probabilidade de ruminar em pé (a) e deitado (b) das vacas primíparas (linha contínua) e multíparas (linha tracejada) no sistema compost barn no decorrer das horas, em estações frias.
O presente estudo esta de acordo com o que descreve os autores, destacando uma maior probabilidade da atividade de ruminar deitado, no período da manhã. Pazdiora et al. (2011), destacam também a maior probabilidade de ruminação no período da noite, porém a oferta do alimento podem determinar o período de ruminação. Pode corresponder a 75% do tempo de pastejo, ocorrendo principalmente durante a noite, descrita como a segunda atividade de maior importância para o animal, segundo (ROVIRA, 1996).
Para comportamento de ócio da atividade na posição deitado, os dois tratamentos foram significativas (P<0,05) para os parâmetros α e β (Tabela 9).
Tabela 9 - Estimativas a posteriori dos parâmetros (média ± desvio e intervalos de credibilidade) da atividade de ócio em pé e deitado das vacas primíparas e multíparas no sistema compost barn em estações frias
DP: desvio-padrão; trat. 1: vacas primíparas; trat. 2: vacas multíparas; *: estatisticamente diferentes por meio de comparações Bayesianas (P<0,05); NS: não significativo.
No início da manhã constatou-se uma probabilidade de 0,3 para a atividade de ócio em pé (Figura 10a). Já para atividade de ócio deitado houve uma probabilidade mais alta entre o horário de 10 horas e 40 minutos e 12 horas (Figura 10b). Os resultados das probabilidades baixas nas primeiras horas da manhã é devido o período de alimentação dos animais. Foi detectada diminuição na probabilidade da atividade do ócio deitado, o fato da temperatura ter se elevado e alcançando 23 °C às 15 horas (Tabela 3) pode ter contribuído para este comportamento.
PARÂMETROS MÉDIA ± DESVIO PERCENTIS SIGNIFICÂNCIA
2,5% 97,5% Ócio em pé α (trat. 1) -7,161±0,545 -1,745 3,588 NS α (trat. 2) -7,047±0,546 -1,772 3,451 NS β (trat. 1) -6,505±0,146 -0,354 2,258 NS β (trat. 2) -7,193±0,146 -0,346 2,168 NS Δ (α) 1,137±0,771 -1,569 1,473 NS Δ (β) -6,886±0,207 -0,412 4,166 NS Ócio deitado α (trat. 1) -2,750±0,555 -3,852 -1,694 * α (trat. 2) -2,797±0,582 -3,976 -1,669 * β (trat. 1) 5,490±0,150 0,264 0,856 * β (trat. 2) 5,878±0,156 0,281 0,887 * Δ (α) -4,691±0,801 -1,619 1,545 NS Δ (β) 3,885±0,216 -0,397 0,467 NS
(a) (b)
Figura 10 - Probabilidade de ócio em pé (a) e deitado (b) das vacas primíparas (linha contínua) e multíparas (linha tracejada) no sistema compost barn no decorrer das horas, em estações frias
Pode ser identificado um desconforto térmico quando o animal permanece em pé em atividade de ruminar ou em ócio (KENDALL et al., 2006). De acordo com Camargo (1988), em experimento na região do Brasil Central, animais que se encontram em ócio tem preferência a ficar em pé em horas mais quentes do dia, a noite permanecem deitados.
Costa (1995) descreve a média entre 5 horas e 48 minutos a 12 horas e 48 minutos gasta na atividade de ócio. No presente estudo, foram identificados pequenos picos de probabilidade de ócio em pé durante o dia, porém o aumento da temperatura não causou alteração (Figura 10a). Ao contrário, foi observado na atividade de ruminar em pé (Figura 9a).
A diminuição do tempo que o animal descansa pode comprometer a sua fisiologia, associando ao estresse, causando danos à saúde e a produção leiteira (BOONE, 2009). O mesmo autor descreveu que vacas leiteiras permanecem quase a metade de sua vida deitadas, algo em torno de 12 a 14 horas por dia. Haley et al. (2001) constataram que o tempo que o animal permanece deitado e repousando pode ser utilizado como parâmetro para avaliação do conforto.
Para o comportamento de andar, a diferença significativa (P<0,05) está entre os tratamentos nas primeiras do dia (Δα) e no restante (Δβ), diferença esta expressa nos percentis, pois o número zero não está entre eles (Tabela 10).
Tabela 10 - Estimativas a posteriori dos parâmetros (média ± desvio e intervalos de credibilidade) da atividade de andar das vacas primíparas e multíparas no sistema compost barn em estações frias
PARÂMETROS MÉDIA ± DESVIO PERCENTIS SIGNIFICÂNCIA
2,5% 97,5% α (trat. 1) -6,219±1,473 -9,065 -3,417 * α (trat. 2) -2,163±0,852 -3,903 -0,533 * β (trat. 1) 0,734±0,367 0,018 1,474 * β (trat. 2) -0,132±0,225 -0,581 0,332 NS Δ (α) 4,056±1,668 0,781 7,251 * Δ (β) -0,867±0,419 -1,700 -0,075 *
DP: desvio-padrão; trat. 1: vacas primíparas; trat. 2: vacas multíparas; *: estatisticamente diferentes por meio de comparações Bayesianas (P<0,05); NS: não significativo.
Para o comportamento de andar, os dois tratamentos não superaram a marca 0,15 durante o dia, porém as vacas primíparas foram mais expressivas na maioria dos horários avaliados. Os picos para esta atividade ocorreram entre as 11 horas e 20 minutos e 12 horas e outro entre as 15 horas e 20 minutos e 16 horas (Figura 11).
Figura 11 - Probabilidade de andar das vacas primíparas (linha contínua) e multíparas (linha tracejada) no sistema compost barn no decorrer das horas, em estações frias
A explicação para a probabilidade mais elevada do comportamento de andar das vacas primíparas pode estar relacionada ao maior número de atividades executadas. Vacas primíparas consomem menos alimentos e de forma diferenciada quando comparada as multíparas (NRC, 2001). Segundo estudo realizado por Pilatti et al. (2018) nas estações mais quentes com vacas multíparas e primíparas, foi encontrada maior probabilidade de comportamento de alimentação ás 8 horas da manhã, sendo que as vacas multíparas demostraram maior atividade para este comportamento. Com isso, as vacas primíparas necessitam se alimentar mais vezes por conta da menor capacidade de consumo, contribuindo para maior atividade de andar ao longo do dia, no comportamento de deitar e ingerir água.
Grant et al. (1995), em estudo do desempenho de vacas primíparas e multíparas durante o pré-parto, destacou que agrupadas, as primíparas permaneceram deitadas 424 min. d.-1 e quando isoladas as primíparas, chegaram a
permanecer 461min. d.-1 deitadas.
Pilatti et al. (2018) destacaram em seu estudo durante as estações mais quentes no sistema compost barn uma diferença no comportamento para caminhada das vacas primíparas em relação as multíparas, alcançando o pico de atividade às 15 horas e 20 minutos. No presente estudo, é possível que a temperatura ambiente não tenha influenciado na atividade de andar das vacas, considerando que esta atividade alcançou picos ao longo do dia, não apenas em horários mais quentes.
A avaliação do comportamento dos animais no sistema compost barn indicou maior probabilidade de andar das vacas primíparas ao longo do dia, caracterizando um animal mais inquieto em relação às multíparas.
6 CONCLUSÃO
O comportamento das vacas multíparas e primíparas foi similar no decorrer do dia. No que se refere à temperatura e umidade relativa do ar, ambas estiveram dentro da faixa de conforto térmico. A temperatura interna da cama registrou números abaixo do recomendado por autores para uma compostagem ideal. Verificou-se que a frequência respiratória e a temperatura média superficial seguiram o aumento da temperatura.
As avaliações de comportamento demostraram que as vacas primíparas têm a probabilidade de um comportamento mais agitado que as multíparas, com probabilidade maior para atividade de andar.
Para o comportamento diurno, as atividades em destaque foram ruminação em pé e deitado no período da manhã. No período da tarde se destacaram o ócio deitado, para ambos os tratamentos. A probabilidade de ingestão de água obteve destaque nas primeiras horas do dia para ambos os tratamentos.
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O compost barn é um sistema promissor, demostrando ser eficiente podendo proporcionar um ambiente confortável aos animais, permitindo aos mesmos demostrarem seus comportamentos. O espaço que o galpão oferece foi dimensionado e planejado para a lotação destes animais, permitindo a eles se movimentarem naturalmente e deitar-se com comodidade todos ao mesmo tempo.
O sistema exige que haja um monitoramento adequado, a cama deve ser manejada diariamente para que não ocorram compactação e excesso de umidade. A ventilação deve ser ajustada ao tamanho do galpão para efetivar a troca térmica entre meio interno e externo, visando à qualidade da cama e o conforto dos animais. Para o sucesso do sistema é necessário cercar-se de todas as estratégias de manejo, conhecer o animal e as condições climáticas do ambiente. No entanto, é imprescindível que haja mais estudos a cerca do funcionamento, vantagens e desvantagens do sistema compost barn.
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