Pensada sob um paradigma de Política Fiscal Verde, a intervenção qualitativa do Estado (ou por indução) na ordem econômica, por meio de instrumentos econômicos e tributários, torna viável combinar a busca da sustentabilidade com um modelo fiscal suportável pelo setor produtivo e juridicamente seguro aos negócios privados (GVCES, 2013).
O princípio da tributação ambiental ou sustentável está em condicionar a liberdade de escolha do agente econômico contribuinte (pessoa física e jurídica), sujeito passivo da tributação ecológica, em direção à defesa ambiental, por meio da graduação da carga tributária que agrava impostos objetivando afastar atividades ou modificar atitudes consideradas contrárias ao interesse público e abranda ou elimina a tributação para incentivar conduta particular conveniente à comunidade, repositória ou preservadora dos recursos naturais (ISERHARDT, 2012; SOUZA, 2009).
Levando em consideração os aportes da economia comportamental (behavioural economics) à tributação ambiental, Tamanaha (2013, p. 81-82), abordou conceitos interessantes como paternalismo libertário – direcionamento não intrusivo, sutil e planejado do comportamento de indivíduos –, “arquitetura de es olhas” (choice architecture) – tentativa de influenciar decisões em prol das melhores escolhas – e “ utu adas” (nudges) de ordem tributária – alteração de comportamento de terceiros por indução.
Na seara jurídico, outras duas teorias fundamentaram a análise de Muñoz Ccuro (2015, p. 326), que argumentou a favor da aplicação urgente de um imposto exclusivamente ambiental (Imposto General Ambiental) no Peru como meio de
homem como parte da própria natureza, que precisa viver em harmonia com ela (ius
naturalistmo) e afirmação da ética ambiental sobre outros interesses meramente
materiais do homem (ius positivismo).
A resistência do ser humano em colaborar para a sustentabilidade de acordo com a sua consciência justificaria a criação de benefícios e incentivos fiscais na preservação e recuperação ambiental, afinal, “qualquer ato que deixe menos oneroso ou isente de pagamentos de tributos é um estimulo para qualquer cidadão” (CASTILHO, 2016, p. 140). Essa essência egoísta do homem, o qual reclama alguma vantagem ou recompensa para contrariar seu próprio interesse, torna imperioso alterar o seu comportamento (GORON, 2014), especialmente quando se busca o desenvolvimento sustentável.
Silva (2015, p. 296) concorda com essa visão. Uma vez que os estereótipos sociais típicos do good man – aquele que pondera suas ações de acordo com valores éticos, regras morais de conduta socialmente desejáveis e nos limites mínimos das normas jurídicas – e do bad man – infrator por opção, que vê vantagens na violação legal ao sopesar os benefícios obtidos de atividades irregulares ante os prejuízos da cominação de sanção – buscam potencializar seus interesses pessoais e não têm valores preservacionistas profundos, a autora considera necessário implementar mecanismos positivos de incentivação na alocação tributária para que os mesmos adotem postura protetiva, diante de uma expectativa de auferição de ganho.
Quando os agentes consideram seus custos e benefícios privados ao tomar decisões mas não o custo social da poluição decorrente de sua atividade, sua percepção de custos está abaixo do real e resulta em produção e consumo acima do nível ótimo, resultando em externalidades (CAPPETTINI, 2017).
Estas foram definidas or Badr (2011, . 149) omo “ anta ens e desvantagens de determinada atividade privada, de produção ou consumo, que em razão de falha do mercado, são desfrutadas ou sofridas pela coletividade, no lugar daquele que lhes deu ori em”.
O conceito de externalidade veio à tona na literatura científica por meio do economista britânico Artur Cecil Pigou, que cunhou o termo de externalidade
negativa ou deseconomia externa para a poluição e impactos ambientais, o qual embute a noção de prejuízos causados a outrem por agentes privados, situação que pode justificar uma intervenção estatal na regulação da economia (PIGOU, 1932). A poluição ambiental é o resultado da não internalização de custos por poluidores, que se torna uma preocupação pública (KHAN, 2015).
Pigou elaborou a solução tributária para o problema das externalidades segundo os ditames da teoria econômica, propondo a cobrança de tributo com valores diferenciados por unidade produzida ou por unidade poluente para cada empresa poluidora, na forma de imposto corretivo das externalidades negativas e subsídio compensatório para as positivas (LAGEMANN, 2002).
Os gráficos elaborados por Lengler (2012, p. 32-33) e apresentados na sequencia traduzem, em termos econômicos, os efeitos intervenção estatal nos preços sob uma abordagem pigouviana.
O primeiro demonstra a influência do tributo pigouviano na inibição da produção poluente em um mercado competitivo, em que a introdução de uma taxa (t) faz reduzir a produção até QB, de forma a atingir um nível considerado eficiente (Ec) em que o custo marginal social (soma do custo marginal privado e do custo marginal externo) é igualado ao benefício marginal social (CMgS=BMgP). O segundo simula o efeito de um incentivo fiscal a externalidade positiva, cenário em que o preço pode ser reduzido até PB e a quantidade socialmente eficiente é aumentada para QB, situação de equilíbrio de Pareto (BMgS=CMgS).
Figura 5 – Influência de um tributo pigouviano em um mercado competitivo
Figura 6 – Influência de um subsídio pigouviano em um mercado competitivo
Fonte: Lengler (2012, p. 33)
De acordo com Ando (2012), uma alocação econômica é eficiente no ponto em que maximiza o bem-estar social ou os benefícios totais líquidos no mercado, ou seja, quando o custo da sociedade para produzir a última unidade de um bem e serviço (custo marginal) é igual ao montante que um consumidor está disposto a pagar por essa unidade (benefício marginal). Nessa situação de equilíbrio de mercado, em que o nível de produção eficiente é atingido quando o preço do produto é igual ao benefício marginal social e ao custo marginal social, a ocorrência de falha de mer ado oderá erar e ternalidades ositi as − o benefí io mar inal so ial é maior do que o benefício marginal privado – ou ne ati as − o usto mar inal so ial supera o custo marginal privado (MEIRELLES, 2010).
Oliveira (1999) considerou inarredável atribuir ou imputar aos agentes poluidores a responsabilidade de integrar o valor das medidas protetivas do meio ambiente nos seus custos de produção, ou ratear o custo das ações estatais (preservação e recuperação ambientais), ideias que constituem o cerne do princípio do poluidor-pagador, a ser esmiuçado na sequência.