Segundo Brancher et al. (2012), para identificar e compreender o comportamento empreendedor e as características empreendedoras é necessário analisar o trabalho realizado por David McClelland (1972). Segundo esse trabalho, as pessoas são motivadas devido à necessidade de realização, poder e afiliação:
Necessidade de realização: instiga a pessoa buscar seus limites, a realizar um bom trabalho. Pessoas que apresentam alta necessidade de realização buscam mudanças em suas vidas, estabelecem metas e são geralmente competitivas, estabelecendo para si e para seu grupo metas realistas e realizáveis. A necessidade de a realização é a primeira identificada entre os empreendedores e é a grande impulsionadora das pessoas com essa característica;
Necessidade de afiliação: é identificada pela preocupação em estabelecer relações emocionais positivas com outras pessoas;
Necessidade de poder: é caracterizada, principalmente, pela forte preocupação em exercer poder sobre os outros.
Ainda segundo Brancher et al. (2012), McClelland (1972), realizou uma pesquisa mundial para conhecer os pontos em comum entre as pessoas bem-sucedidas nos negócios. O estudo identificou as dez principais características do comportamento empreendedor (CCE), as quais foram divididas em três grupos:
Conjunto de realização: busca de oportunidades e iniciativa; correr riscos calculados; exigência da qualidade e eficiência; persistência; e comprometimento; Conjunto de planejamento: busca de informações; estabelecimento de metas;
planejamento e monitoramento sistemático;
Conjunto de poder: persuasão e rede de contatos; independência e autoconfiança.
A partir disso, evidencia-se que o indivíduo que apresenta comportamento empreendedor manifesta uma série de características que o identifica, caracterizando-o de acordo com o conjunto de habilidades que mais se aproxima da sua forma de ser.
As características que o empreendedor bem-sucedido deve ter ou ter que desenvolvê-las ou aprimorá-las, de acordo com os estudos realizados por McClelland (1972) estão descritas no Quadro 02.
Conjunto de Realização
CCE: Busca de oportunidades e iniciativa
Faz as coisas antes de solicitado, ou antes, de forçado pelas circunstâncias; Age para expandir o negócio a novas áreas, produtos ou serviços;
Aproveita oportunidades fora do comum para começar um negócio, obter financiamentos, equipamentos, terrenos, local de trabalho ou assistência.
CCE: Correr riscos calculados
Avalia alternativas e calcula riscos deliberadamente; Age para reduzir os riscos ou controlar os resultados;
Coloca-se em situações que implicam desafios ou riscos moderados. CCE: Exigência de qualidade e eficiência
Encontra maneiras de fazer as coisas melhor, mais rápido ou mais barato; Age de maneira a fazer coisas que satisfazem ou excedem padrões de excelência;
Desenvolve ou utiliza procedimentos para assegurar que o trabalho seja terminado a tempo ou que o trabalho atenda a padrões de qualidade previamente combinados.
CCE: Persistência
Age diante de um obstáculo significativo;
Age repetidamente ou muda de estratégia, a fim de enfrentar um desafio ou superar um obstáculo; Faz um sacrifício pessoal ou desenvolve um esforço extraordinário para completar uma tarefa.
CCE: Comprometimento
Assume responsabilidade pessoal pelo desempenho necessário ao atingimento de metas e objetivos; Colabora com os servidores ou se coloca no lugar deles, se necessário, para terminar um trabalho; Esmera-se em manter os usuários satisfeitos e coloca em primeiro lugar a boa vontade a longo prazo,
acima do lucro a curto prazo.
Conjunto de Planejamento
CCE: Busca de informações
Dedica-se pessoalmente a obter informações de clientes, fornecedores e concorrentes; Investiga pessoalmente como fabricar um produto ou fornecer um serviço;
Consulta especialistas para obter assessoria técnica ou comercial. CCE: Estabelecimento de metas
Estabelece metas e objetivos que são desafiantes e que têm significado pessoal; Define metas de longo prazo, claras e específicas;
Estabelece objetivos mensuráveis e de curto prazo. CCE: Planejamento e monitoramento sistemático
Planeja dividindo tarefas de grande porte em subtarefas com prazos definidos; Constantemente revisa seus planos, levando em conta os resultados obtidos e mudanças circunstanciais;
Mantém registros financeiros e utiliza-os para tomar decisões.
Conjunto de Poder
CCE: Persuasão e redes de contato
Utiliza estratégias deliberadas para influenciar ou persuadir os outros; Utiliza pessoas chave como agentes para atingir seus próprios objetivos; Age para desenvolver e manter relações comerciais.
CCS: Independência e autoconfiança
Busca autonomia em relação a normas e controles de outros;
Mantém seu ponto de vista mesmo diante da oposição ou de resultados inicialmente desanimadores; Expressa confiança na sua própria capacidade de completar uma tarefa difícil ou de enfrentar um desafio.
Quadro 02 - Características do Comportamento Empreendedor (CCE’s) identificadas por McClelland (1972) Fonte: Elaborado pela autora, com base em McClelland (1972)
É importante destacar que para Dienfebach (2011), tais características podem ser reconhecidas também no indivíduo atuante no serviço público, podendo ser associadas a outras, como proatividade, que se caracteriza pela orientação de ação, implementação de ideias, capacidade de adaptação e a antecipação e prevenção de problemas (CURRIE et al. 2008).
Para Hisrich et al. (2009, p. 79) “a ação empreendedora é intencional”, os indivíduos empreendedores buscam oportunidades, realizam novas ações por meio de um processo de forma intencional. Sendo assim, os comportamentos são influenciados por fatores motivadores de intenção de realizar algo. Em geral, quanto mais empreendedora for à intenção de se empenhar em um determinado comportamento, maior será a possibilidade de praticá-lo (HISRICH et al., 2009).
Nesse mesmo raciocínio, Clercq et al. (2013) consideram que as intenções empreendedoras oferecem bons indicadores de compreensão para explicar o comportamento empreendedor; segundo esses autores, as intensões do indivíduo tem relação de dependência com os fatores externos, ou seja, podem ser influenciados pelo ambiente em que estão inseridos. Entretanto, nem todos desenvolvem as mesmas intensões em face das mesmas circunstâncias externas, podendo ser influenciado por outros fatores envolvidos no processo (CLERCQ et al., 2013).
Para Hisrich et al. (2009), na idade média, o conceito de empreendedor foi usado para descrever tanto um participante quanto um gestor de grandes projetos de produção. Quando os recursos eram fornecidos pelo governo, os indivíduos participantes eram isentos dos riscos. Esse fato pode ser comparado ao servidor público que mesmo empreendendo em seu ambiente de trabalho, não assume nenhum risco, nem no planejamento, nem na execução das ações. Entretanto, no século XVII o termo risco foi ligado ao termo empreendedorismo, em função de que o empreendedor firmava um acordo com o governo para desempenhar determinado produto ou serviço, com valor fixo, sendo todos lucros ou perdas de responsabilidade do empreendedor. A partir disso, Cantillon, economista e escritor nos anos 1700, desenvolveu uma das principais
teorias do empreendedor, a característica de correr riscos (HISRICH et al., 2009 e DORNELAS, 2008).
O empreendedor tem a característica de planejar, organizar e administrar, sendo responsável pelas perdas e ganhos em consequência de imprevisibilidades incontroláveis da organização (HISRICH et al., 2009; DORNELAS, 2012).
Diante disso, Minello (2010, p. 79) parece corroborar a ideia, no momento em que afirma que o empreendedor é aquele “que desenvolve algo inovador, tem iniciativa, capacidade de organizar e reorganizar mecanismos sociais e econômicos a fim de transformar recursos e situações para proveito prático e aceita o risco ou o fracasso de suas ações”.
Para Minello (2014), a definição do conceito de empreendedor evoluiu com o passar do tempo juntamente com a complexidade da economia mundial. Nesse sentido, a concepção de empreendedor vem sendo aprimorada e ampliada, passando a envolver questões relacionadas ao ser humano e ao seu comportamento. Agir de forma empreendedora cria valores tanto para os indivíduos como para a sociedade, ou seja, contribui com a inovação tecnológica e o crescimento econômico (DOLABELA, 2008).
Segundo Dornelas (2008), empreendedores são indivíduos com características especiais, visionárias, questionadores, que geralmente ousam, querem algo diferente, fazem acontecer, ou seja, empreendem em suas ações. Já para Brancher et al. (2012), o empreendedor é aquele que, influenciado por diversos fatores, usa a sua criatividade para realizar projetos em prol de ganhos econômicos e sociais tanto para ele próprio quanto para a comunidade em que atua. Portanto, o empreendedor é um indivíduo que tem grande facilidade de identificar oportunidades, por isso deve ter vasto conhecimento do ambiente em que vive e forte determinação na realização das suas ideias inovadoras (BRANCHER et al., 2012).
Temas como comportamento empreendedor e características empreendedoras vêm ganhando maior atenção na gestão de instituições de educação superior na medida em que ocorre uma maior profissionalização no alcance dos resultados esperados. O ambiente competitivo tem exigido maior efetividade e proatividade dos gestores, além de uma preocupação por parte do governo que supervisiona o sistema de educação superior e pela sociedade que passou a exigir das universidades, um envolvimento maior no que tange ao processo de desenvolvimento econômico e social (MEYER e MEYER JUNIOR, 2013).