Q ue elementos neuronais possuímos actualmente para religar as convenções sociais e a ética a um qualquer sistema situado no cére bro humano? H á diversas maneiras de responder a esta questão. Poderíamos, por exemplo, relembrar dados provenientes de experi ências sobre as lesões nos primatas não humanos, nos quais os danos causados a um conjunto particular de estruturas do lóbulo frontal e temporal tiveram como resultado comportamentos sociais anormais. As descrições mais clássicas provêm talvez dos trabalhos de Kluver e Bucy (1937), sobre as ablações do lóbulo temporal, e dos de Franzen e Myers (1973) e de Myers (1975), respeitantes simultaneamente às ablações do lóbulo frontal e do lóbulo temporal. Os macacos com tais lesões apresentam perturbações no seu relacionamento com os outros, em colónia ou no seu território. Também os outros macacos já não mantêm as relações habituais com os animais que apresentam essas lesões. O leque dos comportamentos sociais perturbados in cluía o respeito pela hierarquia na colónia e anomalias nos compor tamentos alimentares e de jogo, na limpeza e na actividade sexual. U m a outra série de provas m uito poderosas provém de estudos sobre a disfunção neuropsicológica consecutiva a uma lesão do cór tex pré-frontal no homem. Estas provas são mais fortes simples mente por dizerem respeito a indivíduos que começam a apresentar com portam entos anorm ais depois da lesão, enquanto anterior-
mente se comportavam em conformidade com convenções sociais e uma ética semelhantes às nossas. A literatura neurológica oferece um pequeno número de exemplos deste tipo particularmente enri- quecedores, constituídos em grande parte por pacientes que sofre ram lesões do córtex pré-frontal devido a tum ores intracranianos benignos, e que tiveram necessidade de intervenções cirúrgicas para retirar os tumores e os tecidos cerebrais danificados. U m conjunto igualmente im portante de exemplos desta situação é fornecido pelo estudo de pacientes que sofreram uma leucotomia pré-frontal para o tratamento de uma dor ou de uma obsessão compulsiva. Para ilus trar esta situação vamos descrever um dos casos emblemáticos de comportamento social perturbado depois de uma lesão pré-frontal, o do paciente EVR (ver Eslinger e Damásio, 1985; Damásio, Tranel e Damásio, 1991).
O c o m p o rta m e n to social do p a c ie n te E V R d e te rio ro u -s e quando este tinha 3 5 anos, depois de uma ablação bilateral do cór tex frontal ventrom ediano tornada necessária para tratar um m e ningioma. A lesão atingia a maior parte do córtex frontal dorsola teral, assim como o pólo frontal. Antes deste tumor, EVR era um indivíduo normal, inteligente e trabalhador: era capaz de procurar trabalho e tinha sido recompensado pela qualidade dos seus servi ços. E ra activo no domínio social e era um dirigente na sua comu nidade. C ontudo, depois do aparecim ento da sua lesão frontal, EV R nunca mais foi capaz de conservar um em prego, em bora conservasse as competências necessárias para o desempenhar. N ão se pode contar com ele para se apresentar rapidamente no seu em prego, ou para executar as etapas intermediárias das tarefas que se esperam dele. A sua capacidade para planificar actividades, tanto a curto como a longo prazo, está gravemente diminuída. E m ques tões de im portância secundária, como por exemplo a escolha de uma loja ou de um restaurante, atrapalha-se em adiamentos sem fim e geralmente sem resultado. N ão é capaz de efectuar uma es colha rápida e, em vez disso, entrega-se a intermináveis compara ções e a sucessivas deliberações entre as opções possíveis, cada vez mais difíceis de distinguir entre si. Q uando selecciona um a res posta, se for capaz disso, pode m uito bem ser por acaso.
U m domínio de maior deficiência na sua capacidade para tom ar decisões está ligado aos com portamentos sociais. Para EVR, não é
fácil decidir o que é bom e o que o não é em relação aos seus pró prios interesses. Falta-lhe o sentido do que é socialmente apropria do. As suas decisões financeiras são quase invariavelmente desastro sas. Por contraste, antes da sua lesão, era prudente e responsável do ponto de vista financeiro. As suas capacidades de decisão e de orga nização são qualitativamente diferentes do que eram anteriormente, e claramente deficientes em relação tanto às suas próprias normas como às dos seus próximos. N o entanto, apesar destas deficiências maiores, muitos aspectos do seu perfil intelectual permanecem não somente intactos mas excepcionais. Segundo os dados psicométri- cos, EVR é de uma inteligência superior. N a escala revista da inteli gência adulta de Wechsler obtém resultados de Q I situados nos es calões mais elevados (QI verbal = 132; Q I de desempenho = 135). E capaz de efectuar distinções entre conceitos muito ambíguos e de aplicar perfeitam ente a dedução e a indução. As suas capacidades linguísticas ao nível fonémico, ao nível lexical e ao nível do discurso permanecem intactas. A aprendizagem e a memória convencionais são igualmente normais, como o demonstra a sua perfeita m emori zação de todos os acontecimentos da sua vida quotidiana, a sua lem brança irrepreensível de pormenores autobiográficos, assim como alguns testes neuropsicológicos formais. N a escala de memória de Wechsler, o seu Q M é de 145 (99.a divisão).
Estes elementos são tanto mais probatórios quanto considerar mos que, no cérebro humano, só uma lesão localizada desta forma tem como efeito as perturbações que descrevemos.