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Comportamentos argumentativos em horse racing

No documento Internet e eleições no Brasil (páginas 75-79)

Ricardo Dantas Gonçalves Jaqueline Kleine Buckstegge

3. ANÁLISE DOS DADOS

3.2 Comportamentos argumentativos em horse racing

Uma das hipóteses deste trabalho é de que, influenciados pela divulgação dos resultados de pesquisa eleitoral, os comentadores adotariam um posicionamento persuasivo em seus comentários, utilizando este espaço para tentar convencer novos eleitores a seguirem sua escolha. Desta forma, a tabela 2

sumariza a reflexividade4 (persuasão, progresso ou radicalização) adotada pelos

comentadores em publicações de corrida de cavalos5 comparado aos demais

Tabela 2 – Reflexividade predominantes por tipo de tema publicado

(Fonte: CPOP/UFPR)

O primeiro destaque a ser feito é de que a distribuição dos percentuais en- tre as reflexividades é muito semelhante, tanto entre os demais temas de campa- nha quanto em divulgação de pesquisas eleitorais. Neste sentido, aparentemente não existiram diferenças na argumentação empregada pelos comentaristas por conta do tema da postagem. Entretanto, o teste do qui-quadrado retornou signi- ficativo (0,000), apontando para uma dependência entre essas variáveis. Segundo o V de Cramer, a associação entre as variáveis é de 0,023, indicando baixíssima dependência entre elas.

Ainda que a associação seja muito baixa, os resíduos padronizados permitem identificar onde estão concentrados os casos, tanto positiva quanto negativamente. A interpretação do teste é simples: a um intervalo de confiança de 95%, conside- ram-se estatisticamente significativos os resíduos acima de ±1,96. Contrariamen- te à hipótese inicial, a reflexividade persuasiva não esteve representada em maior quantidade dentro das postagens de corrida de cavalos (apesar do resíduo positivo, o mesmo não é significativo). Por outro lado, verifica-se uma grande concentração positiva de comentários de progresso na categoria “corrida de cavalos”, indicando que houve um elevado número de casos com este perfil. Ou seja, o que se observa é um número superior ao esperado de comentários que inseriram novas informações ao debate, podendo estas informações serem favoráveis ou contrárias ao que se estava

Persuasão Progresso Radicalização Total Frequência (%) 54.313 (46) 21.874 (19) 41.018 (35)

Res. Pad. -0,64 -1,97* 2,20* Frequência (%) 7.870 (47) 3.435 (21) 5.308 (32) Res. Pad. 1,71 5,23* -5,84*

62.183 (46) 25.309 (19) 46.326 (35) 133.818 (100) Qui-quadrado = 73,524 (sig. 0,000) / V de Cramer = 0,023 (sig. 0,000)

Tema de campanha Campanha eleitoral 117.205 (100) Corrida de cavalos 16.613 (100) Total (%)

discutindo. Já em relação aos comentários de radicalização, estes estão presentes com maior intensidade nas demais postagens de campanha eleitoral e sub-representados quando o tema é divulgação de resultados de pesquisa.

Conclui-se, portanto, que as postagens de corrida de cavalos não levam à tentativa de persuasão dos demais comentadores, mas que os usuários tendem a dar maior continuidade ao diálogo, acrescentando novas informações ao que já foi pos- tado. Com a rejeição da hipótese inicial, cabe, então, investigar qual variável é mais adequada para tentar compreender o comportamento persuasivo dos comentadores, assim como as circunstâncias em que estes comentários se deram e qual era o obje- tivo quando tal postura foi adotada.

A tabela 3 relaciona a reflexividade dos comentários com o candidato ci-

tado pelo comentador6. É importante lembrar que a candidata Dilma dominou as

intenções de voto para o primeiro turno. Portanto, se as pesquisas de opinião afetam o comportamento dos participantes do debate, espera-se que esta candidata tenha recebido maior volume de comentários persuasivos.

Tabela 3 – Reflexividade dos comentários por candidato citado

Candidato citado Persuasão Progresso Radicalização Total Dilma Frequência (%) 21.047 (39) 8.104 (15) 24.764 (46) 53.915 (100) Res. Pad. -24,9 -10,4 35,1 Eduardo Marina Frequência (%) 19.071 (59) 5.962 (19) 7.026 (22) 32.059 (100) Res. Pad. 34,6 7,5 -43,9 Aécio Frequência (%) 9.671 (45) 4.061 (19) 7.716 (36) 21.448 (100) Res. Pad. -2,7 7,3 -1,9 Total (%) 49.789 (46) 18.127 (17) 39.506 (37) 107.422 (100) Qui-quadrado = 5.199,596 (sig. 0,000) / V de Cramer = 0,156 (sig. 0,000)

(Fonte: CPOP/UFPR)

Um primeiro dado que deve ser destacado é a quantidade de comentários que mencionam os três principais candidatos. Como se observa, Dilma teve mais citações

do que os outros dois candidatos juntos. Já em relação ao percentual do tipo de ar- gumento empregado quando cada um deles foi mencionado, cabe destacar que essa candidata apresentou o perfil mais destoante, tendo 46% dos comentários que a cita- ram um tom de radicalização do debate. Ao mencionar Eduardo/Marina e Aécio, a reflexividade predominante foi a persuasão, seguida de radicalização e progresso. Es- tes dados já indicam que possivelmente a candidata que liderou as pesquisas eleitorais em primeiro turno (ou seja, Dilma) não teve maior volume de citações a ela em tom de persuasão. Contudo, os testes estatísticos empregados na pesquisam ajudam a tor- nar mais claras as relações entre menção ao candidatos e reflexividade do comentário. Inicialmente, o teste do Qui-quadrado aponta para uma dependência esta- tística entre as duas variáveis, enquanto que o V de Cramer mostra que a intensidade dessa associação é de apenas 0,156. Em outras palavras, ainda que haja associação entre candidatos mencionados e tipo de reflexividade, ela é muito baixa. Em rela- ção aos resíduos padronizados, todos apresentaram significância estatística. Todavia, novamente o comportamento persuasivo adotado pelos comentadores não pôde ser explicado através de uma aproximação com a teoria do efeito contágio (bandwagon effect). Isto porque os resíduos padronizados apontam para uma representação signi- ficativa e negativa entre a candidata Dilma e interações persuasivas e de progresso. Ao contrário, há sobrerrepresentação de postagens radicalizadoras, ligadas a ofensas e a indisponibilidade ao diálogo. Os comentários que citaram Marina, por sua vez, tiveram uma reflexividade oposta: houve predomínio de persuasão e progresso, com uma concentração abaixo da esperada para radicalização. Por fim, Aécio recebeu comentários que o citavam sobretudo com conteúdo de progresso, tendo menos ma- nifestações persuasivas e radicalizadoras do que era esperado.

Até o momento, os dados refutaram a primeira hipótese do trabalho, qual seja, de que as postagens de divulgação de resultados de pesquisas teriam como efeito um maior volume de comentários persuasivos. Mais do que isto, viu-se tam- bém que a candidata Dilma Rousseff, que liderou as intenções de voto no primeiro turno, quando foi citada em comentários teve a radicalização como reflexividade

predominante dos comentadores. Entretanto, ainda resta saber sobre a transitorie- dade das formas dos comentários.

No documento Internet e eleições no Brasil (páginas 75-79)