CAPÍTULO 3 – OS BAILES E AS MULHERES: CARACTERIZAÇÃO DOS LOCAIS E
3.4 Comportamentos de homens e comportamentos de mulheres
Judith Butler (1990) afirma que a identidade social de gênero não é algo estático ou essencial, mas sim é um processo contingente e relacional no qual os sujeitos estão sempre em construção e, portanto, em transformação. O gênero é performático, na medida em que se diz e se faz como constituinte da identidade e inscrito nos corpos.
Para essa autora, o sexo, ou seja, as diferenciações que estabelecemos tomando por base características sexuais dos corpos são tão culturalmente construídas quanto o gênero. Afinal, produzimos um “sexo natural” por meio do discurso cultural que proferimos. Logo, não há sexo pré-discursivo, como se fosse uma superfície política neutra sobre a qual atua a cultura. O que há são efeitos discursivos do poder investido sobre os corpos. E, no ambientes dos salões de baile, esses poderes investidos sobre os corpos produzem e legitimam determinados comportamentos como sendo comportamentos de homens e comportamentos de mulheres e delimitam posições-de-sujeito gendradas.
Havia nos bailes uma clara demarcação entre comportamentos adequados e admitidos para homens e para mulheres. O ato de “convidar” para dançar, por exemplo, era um comportamento eminentemente masculino associado a uma construção de masculinidade em que a atribuição da escolha era relacionada à figura do homem. Assim, quem escolhia era o homem, enquanto à mulher restava a passividade de ser escolhida e, a partir disso, aceitar ou não. Mas recusar um convite para dançar - dar carão - implicava em ser taxada de mal-educada, justamente porque na educação dessas mulheres estava colocado que elas deviam se submeter a esse homem, aos seus desejos e aos seus “convites”. Esse convite, que a mim mais parece um comando, para as mulheres dos bailes, parecia ser um distintivo que lhes conferia um lugar diferenciado e que as separava de todas as outras na atenção daquele homem.
Ser escolhida era um mérito, mas não era um ato passivo, pois embora essas mulheres não escolhessem os homens diretamente convidando-os para dançar, elas elaboravam estratégias que lhes permitiam aceitar ou recusar os convites. Para
algumas, a predisposição para dançar somente com quem lhe for aprazível era uma conquista que se relacionava a um direito a partir do investimento que faziam em si e em seus corpos. Isso foi referido diretamente durante as entrevistas, como nessa afirmação:
- Eu não danço com qualquer um. (...) Me arrumo, me pinto, me perfumo e não vou lá pra dançar com alguém que não esteja a minha altura (Fátima, Diário de
Campo).
Nessa relação entre dançar e não-dancar, a ideia de valorizar-se, de ser difícil e de se sentir especial contavam no estabelecimento de quais convites deviam ser aceitos e quais deviam ou podiam ser recusados, já que também a rejeição estava vinculada a determinadas condições.
Recusar-se a dançar somente era entendido como condição possível e, em alguns casos, até desejável quando, por exemplo, a mulher era comprometida com outro homem, um namorado, marido ou companheiro como no caso dessa informante, ou então se ela estivesse acompanhada, naquele evento, especificamente por um homem. Havia o respeito de um homem para com outro. Não um respeito ao desejo ou à vontade da mulher e sim uma consideração para com “um semelhante”, pois ambos eram homens e deviam respeitar-se já que se equiparavam em condições de direitos e de voz.
Algumas desculpas eram empregadas pelas mulheres para recusar os convites além da tradicional justificativa de estar acompanhada, tais como: dizer que torceu o pé dançando e que estava com dor, que estava aguardando a chegada de alguém na mesa, que estava de saída para ir ao banheiro ou então que estava cansada, pois acabara de dançar. Essa última era considerada um “carão” educado. Mas a forma mais comum e que as mulheres muito utilizavam quando percebiamm a aproximação de um homem com quem não desejavam dançar era rapidamente levantarem-se e ensaiarem uma saída em direção ao banheiro.
Saber dançar era um comportamento desejado tanto para os homens quanto para as mulheres. Embora os passos da dança sejam os mesmos, saber dançar não quer dizer a mesma coisa e nem determina o mesmo comportamento para homens e para mulheres e as diferenças são designadas pelas características dos corpos e dos gêneros. Saber dançar, para o homem, está associado, em primeiro lugar, a saber conduzir, a ter habilidade de guiar os passos da mulher. Já, para a mulher,
saber dançar é se deixar conduzir, levar, é saber seguir o comando do homem. Nesse tipo de dança, é sempre o homem que comanda os passos, o ritmo, a proximidade, o afastamento, e a mulher o segue. Os homens que não sabem conduzir não são considerados bons dançarinos e as mulheres que não se deixam guiar também não. A masculinidade na dança está associada ao conduzir, ao mostrar o caminho e a feminilidade, em saber seguir, em se submeter.
Evidenciaram-se, a partir dos comportamentos diferenciais determinados para homens e para mulheres, o que Butler (2006) designa por regulações de gênero. Para ela, as regulações de gênero não são apenas uma forma de regulamentação de um poder geral e difuso, mas constituem uma modalidade específica que tem efeitos constitutivos sobre a subjetividade. Os códigos que regem a identidade inteligível são estruturados a partir de uma matriz que estabelece a um só tempo uma hierarquia entre masculino e feminino e uma heterossexualidade compulsória. Assim, o gênero não é nem a expressão de uma essência interna, nem um produto de uma construção social. O sujeito gendrado é o resultado de repetições constitutivas que impõem efeitos substancializantes, instituindo o próprio gênero como norma (Butler, 2006, p.58).
Porém, como evidência de sua construção e provisoriedade, há a necessidade de uma constante reiteração dos ideais de gênero. E é justamente por ser construído e provisório que as regulações de gênero são passiveis de mudança, ou melhor, são performativamente modificadas, pois os corpos nunca obedecem passivamente às normas pelas quais sua materialização é produzida. Isso pode ser observado na ambiguidade do comportamento de certas mulheres, que literalmente pagam para dançar.
Havia, no horário de início dos bailes, alguns homens, geralmente jovens, que se colocavam na entrada do clube e interpelavam mulheres idosas e sozinhas, oferecendo-se como acompanhantes no evento. Segundo uma de minhas informantes, que disse nunca ter pago pelos serviços, mas que também afirmou saber de algumas que o faziam, havia rapazes que acompanhavam senhoras e dançavam com elas conforme suas determinações, apenas pelo valor da entrada e do consumo durante o evento. Quando lhe perguntei o que essas mulheres ganhavam com isso, se isso era só uma forma para poder dançar, ela me disse que não, “elas podem dizer que estão acompanhadas e aparecer para as outras”.
Essa fala expressa o entendimento que algumas dessas mulheres tinham do que seria o desejável para uma mulher que freqüentava os bailes: ter um acompanhante que estivesse com ela todo tempo, não estando sozinha e tendo alguém consigo que reafirmasse sua importância. Isso me pareceu um valor de peso considerável a ponto de causar inveja às demais mulheres.
Mas, por outro lado, isso também revelava uma ruptura, pois pagando alguém para dançar, elas adquiriam o poder de ingerência sobre a decisão de dançar, de quando e com quem. Evidentemente, isso era um comportamento considerado reprovável por muitas mulheres, e segundo estas, pelos homens mais velhos também. Provavelmente a reprovação se devia a movimentação nas regulações de gênero que provocavam pois estas desestabilizavam uma estrutura que tenta sempre se fixar, mas quando não é reiterada, a tendência é se modificar. Isso abala as certezas de que os referenciais identitários e de gênero são sustentados por condições naturais ou essenciais bem como nos mostram que
as instituições sociais, os símbolos, as normas, os conhecimentos, as leis, as doutrinas e as políticas de uma sociedade são constituídas e atravessadas por representações e pressupostos de feminino e de masculino ao mesmo tempo em que estão centralmente implicadas com sua produção, manutenção ou ressignificação (MEYER, 2003, p. 18).
Outro fator que corrobora para que pensemos na provisoriedade das regulações de gênero é o fato de que o ato de pagar pela dança, segundo a mesma informante, abria a possibilidade de pagar também por outros serviços, fora do baile, como por sexo. Isso será abordado no relato das entrevistas.
Observei que o ambiente dos salões de baile constitui-se como um universo de disputas e de poderes, em que os envolvidos se embatem para manter ou impor determinadas plataformas comportamentais e assegurar ou modificar determinados lugares que determinam o que é ou não legítimo de cada posição.