comportamentos pró-sociais (Cassidy, Werner, Rourke, Zubernis & Balaraman, 2003; Crick & Dodge, 1994; Miller et al., 1991; Wilson, 2003). O entendimento da perspectiva do outro e de seu estado emocional afeta esses comportamentos, apontando para o papel da cognição, no que se denomina “teoria de mente” (Harris, 1996); isto é, a capacidade que a criança possui de explicar e prevê o comportamento das outras pessoas levando em consideração as crenças e emoções das mesmas. Dificuldades nessa teoria da mente podem acarretar problemas na interação social (Happé & Frith, 1996). Eisenberg, Fabes, Murphy, Karbon, Smith e Maszk (1996), num estudo com crianças pré-escolares, encontraram que crianças que possuíam a habilidade de regular as suas próprias emoções eram consideradas simpáticas por pais, professores e colegas. No
entanto, além dos componentes afetivos e cognitivos, é necessário também o fator motivacional, que é responsável pela ação ou por comportar-se pró- socialmente.
Nessa perspectiva, as crianças com deficiência mental poderiam ter dificuldades para se comportarem pró-socialmente, uma vez que possuem déficits cognitivos. Além disso, alguns estudos apontam que essas crianças têm dificuldade na identificação e reconhecimento das expressões emocionais (Kasari, Freeman & Hughes, 2001; Wishart & Pitcairn, 2000). Essas pesquisas utilizaram fotografias e fantoches para que as crianças identificassem e reconhecessem as emoções. No estudo de Wishart e Pitcairn (2000), os autores compararam crianças com deficiência mental de etiologia não específica, com síndrome de Down e com desenvolvimento típico. Os participantes tinham a mesma idade mental, assim, em termos de idade cronológica as crianças com síndrome de Down e com DM de etiologia não específica tinham em média 11 anos e as crianças com desenvolvimento típico tinham em média 4 anos. Eles não encontraram diferença entre as crianças na identificação de alegria, tristeza e desgosto; entretanto, surpresa e medo foram reconhecidamente os mais difíceis para as crianças com síndrome de Down, essa dificuldade não apareceu para as crianças com DM de etiologia não específica, que tiveram mais dificuldade na identificação da expressão de raiva.
No trabalho de Kasari et al. (2001), foram comparadas crianças com síndrome de Down, com média de 6 anos, com crianças com desenvolvimento típico de mesma idade cronológica e crianças com desenvolvimento típico de mesma idade mental, tendo como idade cronológica 3 anos. Os autores
concluíram que, no geral, as crianças com desenvolvimento típico que tinham mesma idade cronológica se saíram melhor que as crianças com síndrome de Down, que não diferiram das crianças com desenvolvimento típico que possuíam mesma idade mental. Para todas as crianças, as emoções de alegria e tristeza foram mais fáceis do que as emoções de raiva e medo. Essa dificuldade no reconhecimento do medo e da raiva também foi relatada por Otta (1994). Os erros apresentados na identificação das emoções podem decorrer do fato das crianças focalizarem apenas parte da expressão, olhos ou boca, não levando em consideração toda a face. Além disso, a autora pontua a existência da estreita relação entre afeto e cognição, mostrando que os bebês com síndrome de Down tinham um ritmo de desenvolvimento mais lento nas respostas de riso, no entanto, seguiam o mesmo padrão de progressão dos bebês normais. Primeiro, riam diante de estímulos auditivos e táteis e só mais tarde o faziam em resposta a estimulação visual e social mais sofisticada, que continha uma maior exigência cognitiva. Dessa forma, tanto a identificação das expressões, como a manifestações das mesmas se relacionam ao desenvolvimento cognitivo da criança.
Nessa direção, Kasari, Freeman e Bass (2003) encontraram que crianças com síndrome de Down e com deficiência mental de etiologia não específica comportavam-se pró-socialmente diante de uma situação na qual um adulto se machucava. No entanto, quando utilizaram vinhetas contendo histórias empáticas, as crianças com síndrome de Down não se saíram bem, enquanto que as crianças com retardo mental de etiologia não específica tiveram um resultado semelhante ao das crianças com desenvolvimento típico de mesma idade mental.
Esses dados revelam que, diante de uma situação concreta, o adulto machucado, as crianças com deficiência responderam pró-socialmente, mas ao se colocarem situações hipotéticas as diferenças aparecem. Essas diferenças poderiam se acentuar se as crianças com desenvolvimento típico tivessem a mesma idade cronológica das crianças com deficiência.
Assim, apesar das dificuldades cognitivas e de identificação das emoções, em situações concretas, as crianças com DM se comportaram pró-socialmente. Essas pesquisas tiveram como metodologias experimentos e histórias; no entanto, é interessante identificar esses comportamentos no ambiente natural da escola, onde há a interação cotidiana das crianças com outros colegas de sala, possibilitando, assim, uma maior validade ecológica (Bronfenbrenner, 2002).
1.3.4. As diferenças de gênero nos comportamentos pró-sociais
Ao longo da infância, os comportamentos pró-sociais se tornam mais diferenciados em função do gênero (Hay, 1994). Pesquisas que utilizam entrevistas e questionários tendem a ter resultados que apontam as meninas como mais pró-sociais que os meninos (Pearl et al.,1998; Scourfield et al., 2004). Essa diferença quantitativa não aparece nos estudos observacionais, isto é, os meninos são tão pró-sociais quanto as meninas. No entanto, nas observações, apareceram diferenças qualitativas relacionadas ao gênero. Os meninos exibem mais comportamentos relacionados a objetos e as meninas, por sua vez, manifestam mais comportamentos de ajuda e empatia (Branco & Mettel, 1984).
Hay, Castle, Davies, Demetriou e Stimson (1999), ao pesquisarem o comportamento de compartilhar em crianças de 18, 24 e 30 meses, num estudo
longitudinal com duração de seis meses, observaram que, com o aumento da idade, aparece segregação de gênero no compartilhar. Quando os pares apontavam ou se dirigiam para um determinado objeto, as meninas nunca davam o que os meninos queriam, e os meninos raramente respondiam favoravelmente aos pedidos das meninas. Esse dado é corroborado em estudos com pré- escolares. No trabalho de Santana, Otta e Bastos (1993), as meninas apresentaram maior freqüência de comportamentos empáticos quando interagiam com outras meninas, e os meninos foram mais empáticos com outros meninos. Branco e Mettel (1984) também relataram maior interação pró-social entre crianças pré-escolares do mesmo sexo.
Turini e Rodrigues (2005), num estudo com crianças em idade escolar, com média de 8 anos e 10 meses, que freqüentavam a 2ª série, utilizaram metodologia observacional, e verificaram que, diferentemente dos estudos observacionais com pré-escolares, as meninas foram mais pró-sociais que os meninos. Todavia, essa pesquisa foi feita no horário do recreio escolar e no pátio, que prima pela existência de poucos objetos (brinquedos), o que prejudicou os meninos, que tendem a apresentar mais eventos que as meninas na categoria que se relaciona a objetos. No mais, um aspecto interessante a se ressaltar é que as crianças em idade escolar também se comportaram pró-socialmente em ambiente que favorece atividades físicas. Além disso, a segregação sexual continua nessa fase e as relações de amizade foram o contexto no qual se inseriam as interações pró- sociais. Dessa forma, os episódios pró-sociais refletiram o padrão de interação entre as crianças, no que concerne ao sexo e ao grupo de amigos.
Todas essas pesquisas que foram citadas sobre as diferenças de gênero na manifestação do comportamento pró-social tiveram como amostras crianças com desenvolvimento típico. Nesse sentido, é importante identificar o padrão de interação das crianças com DM, e se essas diferenças também ocorrem nesses alunos.
Pensando nas implicações da rejeição social por parte dos colegas, e o que pode acarretar para as crianças que passam por esse processo, além disso, levando em consideração que as crianças com DM possuem características diferenciadas de seus colegas com desenvolvimento típico, o processo de integração/inclusão das crianças com deficiência mental deve levar em consideração os relacionamentos sociais dessas crianças, uma vez que o envolvimento com os pares também se relaciona à adequação da criança à escola (Bukowski, Newcomb & Hartup, 1996; Diehl, Lemerise, Caverly, Ramsay & Roberts, 1998). Assim, o estudo dos comportamentos pró-sociais em crianças com deficiência mental é relevante, pois pode ser um bom indicador dos relacionamentos com os pares e possibilitar um panorama das suas habilidades sociais. Nesse sentido, é importante também identificar as diferenças de gênero, que auxiliaria no entendimento do desenvolvimento social dessas crianças. No mais, uma pesquisa observacional permite que se identifiquem os comportamentos no contexto de sua ocorrência e que poderiam ser subestimados em estudos que utilizam situações hipotéticas.
Espera-se que esta pesquisa possa auxiliar no entendimento do processo de socialização das crianças com DM, na interação que elas estabelecem com seus colegas com desenvolvimento típico. Identificar a incidência desses
comportamentos nessas crianças pode contribuir para entender a socialização de crianças com NEE decorrentes da deficiência mental e seu processo de rejeição ou aceitação por parte dos colegas com desenvolvimento típico. Além disso, espera-se que os resultados desta pesquisa possam auxiliar na proposição de intervenções nas habilidades sociais das crianças com DM e mudanças no modo como os demais pensam as crianças com DM.
1.4. Objetivos da Pesquisa
Esta pesquisa pretendeu identificar e analisar o padrão geral de interações e os comportamentos pró-sociais de alunos com deficiência mental, que freqüentam salas de aula regulares de 2 escolas do Ensino Fundamental de Vitória-ES, durante o recreio. Como objetivos específicos estão:
1. Identificar e analisar o tamanho e composição de gênero dos grupos de interação dos alunos com deficiência mental com seus colegas;
2. Identificar e analisar os tipos de comportamentos pró-sociais, nos quais os alunos com DM foram emissores e beneficiários em contato com adultos, colegas com deficiência e colegas com desenvolvimento típico; 3. Identificar e analisar os antecedentes e conseqüentes dos
comportamentos pró-sociais;
4. Identificar e analisar possíveis diferenças de gênero nos comportamentos pró-sociais.