CAPÍTULO II CONTEXTUALIZAÇÃO DA SITUAÇÃO DOS ADOLESCENTES E
2.2 Comportamentos de risco, factores de risco e factores de protecção
2.2.1 Comportamentos de risco
O comportamento de risco na adolescência e na juventude pode estar vinculado às relações pessoais e contextuais (Jessor, 1991). Os contextos sociais para além de denotar fragilidades nas suas relações impõem dificuldades que resultam em risco e vulnerabilidade aos seus integrantes. Os riscos e as vulnerabilidades resultam de vínculos deficitários no contexto familiar, associada à baixa coesão, aliada ao exercício do poder centralizado na figura parental (De Antoni, 2005). Além do contexto familiar, contribui também a organização social de certas comunidades/bairros, escola e até sociedades para desencadear comportamentos de risco. Principalmente os contextos que denotam desorganização tendem a constituir risco e expõe os seus membros à vulnerabilidade. Neste aspecto, Hawkins et al., (2000) consideram que a desorganização comunitária como um dos principais factores de risco que prediz o envolvimento de adolescentes e jovens em comportamentos de risco.
O comportamento de risco é um conjunto de atitudes comportamentais individuais considerados prejudiciais à saúde. Desta forma o comportamento de risco refere-se a todas às acções que se caracterizam como ameaças ao desenvolvimento sadio dos adolescentes e jovens que se encontram nestas condições (Alves, Amparo, & Frajorge, 2006; Igra & Irwin, 1996). Nesta perspectiva o comportamento como factor de risco é uma dimensão importante que subsidia o entendimento da epidemiologia comportamental. Sendo os principais problemas relacionados ao comportamento de risco na adolescência e juventude, por
exemplo, fumar, beber precocemente e depois conduzir, uso de drogas ilícitas, relação sexual desprotegido com risco de infecções de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez precoce, comportamentos anti-sociais (Jessor, 1993; Souza & Oliveira, 2011).
Alguns dos comportamentos de risco constituem respostas aos acontecimentos estressantes da vida, estando moderadamente associados aos sintomas de depressão. Os comportamentos externalizados são mais frequentes aos indivíduos do sexo masculino quando são confrontados com estresse do que do sexo feminino que apresentam comportamentos internalizados (Simões, 2007). Na maior parte desses comportamentos que ocorrem na adolescência, apesar de ser muitas vezes de carácter exploratório, aparecem associados ao contexto social (família, amigos, escola, lazer, entre outros), para além de potencial genético e as características psicológicas individuais (Noto, Sánchez, & Moura, 2011).
Simões (2007) afirmou que são múltiplos factores que estão relacionados à saúde do indivíduo. Sendo um desses factores o comportamento com ele relacionado. Na perspectiva da autora, o estilo de vida não saudável é caracterizado por modos de comportamentos não saudáveis, que a princípio são susceptíveis de alguma forma ao risco para a saúde, que podem repercutir-se no tempo e em vários contextos. Os comportamentos relacionados com a saúde são vistos como aqueles que visam a promover aspectos positivos, prevenindo risco e a detenção precoce da doença ou da deficiência. Alguns exemplos de comportamentos de saúde podem ser manifestados no uso de cinto de segurança, sexo protegido, higiene pessoal, entre outros. Enquanto os comportamentos de risco podem se traduzir em aspectos negativos à saúde. Estando neles atrelados às variáveis relacionadas com a personalidade que podem explicar atitudes como, por exemplo, fumar, beber, dirigir e manter relações sexuais desprotegidas, suicídio, que em si mesmo predispõe aos resultados negativos à saúde (Steptoe & Wardle, 1996).
Particularmente ao comportamento de risco relacionado com o consumo de substâncias psicoativas, parece que há um certo consenso na literatura cientifica que demonstra que os factores de risco e de protecção a ele relacionado são antecedentes de comportamentos anti-sociais em adolescentes e jovens. Tais comportamentos constam de condutas que não se enquadram em padrões socialmente aceites, como a delinquência, violência juvenil, evasão escolar, gravidez precoce e comportamento sexual de risco (Noto et al., 2011).
O estudo realizado por Guimarães (2012), com o objectivo de estudar o auto-conceito e autoestima e sua relação em comportamento desviante, verificou que a diminuição do
autoconceito percebido aumentava os comportamentos desviantes. Constatou ainda que os jovens que apresentavam comportamentos desviantes tinham baixa competência escolar. A baixa competência, a evasão escolar tem sido associada, não só aos comportamentos desviantes, assim como ao uso de drogas pelos jovens.
Diversos estudos epidemiológicos no Brasil, em Portugal e Moçambique mostraram que os homens fazem uso mais frequente de diferentes drogas, por exemplo, tabaco, álcool e outras drogas ilícitas. Os estudos têm demonstrado que constituem factores de risco predisponentes à iniciação precoce ao consumo de substâncias psicoativas na adolescência a falta de suporte familiar, a indisciplina, uso pelos pais, a atitude permissiva dos pais em relação aos filhos, monitoramento deficiente e consumo pelos irmãos ou amigos (Pechansky, Szobot, & Scivoletto, 2004; Ribeiro, 2011; Souza & Martins, 1998). Sendo os contextos mais mencionados na literatura sobre o início do uso na adolescência, entre eles: familiares, amigos, namorado(a) e festas (Alves et al., 2006; Negreiros, 1996; Poelen, Engels, Van Der Vorst, Scholte, & Velmurst, 2007).
A partir de dados apresentados sobre as circunstâncias que estão na origem de uso precoce de diversas substâncias psicoativas tem constituído preocupação partilhada por diversos investigadores. Neste aspecto, existem consensos que os contextos sociais e a disponibilidade dessas substâncias têm sidos apontados como factores que estão associado ao início precoce. A Organização Mundial de Saúde (WHO, 2002a) no seu Relatório de 2002 indicou que quase dez por cento do prejuízo causado por doenças provêm do uso de substâncias psicoativas. Referem ainda que grande parte do prejuízo atribuível ao uso ou a dependência química é resultado de variabilidades de problemas sociais e de saúde incluindo ao comportamento de contrair o vírus de imunodeficiência adquirida humana (HIV).
Embora esses comportamentos não sejam sinônimos de resultados negativos (Blum et al., 2002), podem estar associados aos factores de risco. Exemplos de tais factores seriam déficit nas habilidades sociais e intelectuais, pobreza, baixa auto-estima e auto-eficácia, assim como indivíduos vivendo de alguma deficiência física ou intelectual, exposição ao abuso sexual, fragilidade de suporte social e afetivo (Koller, 2000; Paludo & Koller, 2005; Siqueira, Betts, & Dell'Aglio, 2006).
Outro comportamento de risco na adolescência associado às condições sociais é ter uma renda baixa. Estima-se, ainda que no mundo anualmente 7.3 milhões de meninas tenham filhos antes de completar 18 anos de idade. Deste número têm sido reportados que dois milhões têm filhos antes dos 15 anos (UNFPA, 2013). Segundo a World Health Organization (WHO, 2005a) os jovens que se encontram em países em desenvolvimento
apresentam altas taxas de gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis. Na África Subsaariana, as tendências apontam para uma pequena queda de gravidez na adolescência, no período de 1990 e 2011 de 23% para 20%. Em relação à África Austral, (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral - SADC), Moçambique continua sendo o país que apresenta mais altas taxas de prevalência de gravidez na adolescência. Por exemplo, 40,2% dos jovens relataram ter tido filhos antes dos 18 anos e 7,8% antes dos 15 anos.
De acordo com Ministério da Saúde de Moçambique e Instituto Nacional de Estatística (2011), os adolescentes que são mães ou estão grávidas pela primeira vez, situam-se na faixa etária entre 15 a 19 anos de idade. Há evidências de que os casamentos prematuros resultem de gravidez precoce. Em termos de distribuição regional, as províncias do Norte de Moçambique apresentam elevadas taxas de casamentos prematuros. Os factores associados à gravidez precoce na adolescência são o baixo estatuto sócio-econômico dos pais, evasão escolar e o baixo monitoramento parental (UNFPA, 2013).
Nas pesquisas mostram que as adolescentes que moram nas zonas urbanas para terem sustento para si e para os seus filhos são obrigadas a procurar inserção no mundo de trabalho precário e a constituir famílias chefiadas por mulheres (Almeida, Aquino, & Barros, 2006; Dias & Aquino, 2006; Fukuda, Brasil, & Alves, 2009). A gestação neste período é de risco, tanto para mãe, quanto para o recém-nascido. Portanto, a gravidez precoce tem sido considerada como um problema de saúde pública, para além, de estar associado com a pobreza, menor grau de escolaridade, problema de saúde da adolescente e do recém-nascido. Tais problemas reflectem-se ao nível de negligência e maus-tratos na infância, como podem acarretar ônus aos estados para fazer face aos atendimentos nos serviços de saúde (Carniel, Zanolli, Almeida, & Morcillo, 2006; East, Matthews, & Felice, 1994). Comumente tornar-se mãe na adolescência pode desencadear outros riscos quer resultante da exclusão social ou pela dificuldade de se deslocar à consulta pré-natal temendo represálias. Esses factores se associam a outros, como a baixa escolaridade, falta de recursos materiais e econômicos. Isto, muitas vezes, leva às infecções urinárias, anemia, ameaça de parto prematuro, toxemia gravídica. Outros riscos podem estar associados aos partos demorados, envolvendo a técnica cesariana, que envolve risco de ruptura do útero e que influi diretamente nas taxas de morbimortalidade materna e perimaterna (Alegria, Schor, & Siqueira, 1989; Osório, 2007).
Tomar responsabilidades precoces como as impostas pela gestação, concomitantemente ao processo de desenvolvimento pode resultar em pais adolescentes despreparados para assumir responsabilidades, tanto psicológicas, sociais e econômicas. O estudo desenvolvido por Reis e Oliveira-Monteiro (2007) com 1,228 jovens mães com idade
compreendida entre 12 e 19 anos das periferias das cidades brasileiras, constataram que a gravidez neste período da vida acarreta repercussões emocionais negativas em pelo menos dois terços dos participantes, estando associadas fortemente ao sofrimento psíquico e à auto- desvalorização pessoal, de forma particular as jovens em situação de vulnerabilidade social.
O estudo realizado no Brasil e Portugal por Diniz (2009), com objectivo de investigar as características biossociodemográficas associadas à gravidez na adolescência com base no banco de dados do QJB. Foi usada uma amostra de 452 adolescentes de dez cidades brasileiras. Os dados obtidos deste estudo demonstraram que a maioria das adolescentes que estava grávida tinha maior número de reprovações escolares e estudava no turno da noite. Outros aspectos apontados foram não uso de contraceptivos, menor apoio e confiança na família e dos amigos. Tanto no Brasil como em Portugal os resultados sugerem que a gravidez durante a adolescência é fruto das relações instáveis e inesperadas no contexto social foram apontadas no estudo como factor de risco.
Assim, são considerados comportamentos de risco, por se tratar de ameaça ao bem- estar pessoal e colectivo, auto-destrutivos quando estão associados de forma directa ou indirecta na alienação dos adolescentes e jovens. Tornando-se deste modo um comportamento potencialmente perigoso na medida em que leva aos indivíduos a se distanciar da sua comunidade, impossibilitando de partilhar os interesses com as pessoas próximas, às vezes se sentido rejeitado pela própria sociedade (Simões, 2007). Esses comportamentos são considerados de risco, pois, alguns ocorrem num período de vida em que em princípio não ocorreriam, como por exemplo, o consumo de drogas, início precoce de vida sexual e outros comportamentos considerados inadequados à idade.