CAPÍTULO 1 – REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
3 Compostos bioativos do mel e atividade antioxidante
diferentes plantas sintetizam substâncias através de seu metabolismo secundário, os quais apresentam atividade antioxidante, agindo como defensores contra radicais livres. O número de compostos com atividade antioxidante sintetizados pelas plantas é estimado atualmente entre 4000 e 6000, sendo que grande parte destes são compostos fenólicos. A maioria destas plantas é utilizada pelas abelhas para colher néctar e produzir mel, consequentemente, estes componentes bioativos das plantas podem ser transferidos para o mel (BALTRUŠAITYTĖ; VENSKUTONIS; ČEKSTERYTĖ, 2007; KÜÇÜK et al., 2007; BERTONCELJ et al., 2011b). O perfil e a quantidade dos componentes
bioativos presentes no néctar são dependentes de fatores como espécie da planta e condições climáticas e geográficas, por isso é sensato esperar que méis provindos de diferentes locais apresentem propriedades antioxidantes diferentes (AL-MAMARY; AL-MEERI; AL-HABORI, 2002; SILICI; SAGDIC, EKICI, 2010).
Numerosos estudos podem ser encontrados na literatura descrevendo as propriedades antioxidantes do mel, através de distintos métodos in vitro ou in vivo (AL-MAMARY; AL-MEERI; AL- HABORI, 2002; GHEDOLF; WANG; ENGESETH, 2002; ALJADI; KAMARUDDIN, 2004; BERETTA et al., 2005; BLASA et al., 2006; NAGAI et al., 2006; BERTONCELJ et al., 2007; KÜÇÜK et al., 2007; AL et al., 2009; FERREIRA et al., 2009; ALVAREZ-SUAREZ et al., 2011; LACHMAN et al., 2010; SAXENA; GAUTAM; SHARMA, 2010; SILICI; SAGDIC; EKICI, 2010; BERTONCELJ et al., 2011a; ISLA et al., 2011; KHALIL et al., 2011). Os métodos para a determinação da atividade antioxidante geralmente envolvem a geração de espécies oxidativas, comumente radicais, cuja concentração é monitorada na presença de compostos antioxidantes que atuam sobre eles (KÜÇÜK et al., 2007).
Não existe um método oficial para a determinação da atividade antioxidante em amostras de mel, porém observa-se na literatura uma grande utilização dos métodos DPPH e FRAP. O método do radical DPPH é um dos mais rápidos para avaliar a habilidade da transferência de elétrons/hidrogênio em diversas matrizes com potencial antioxidante (BERETTA et al., 2005). O DPPH é um radical orgânico estável de nitrogênio amplamente utilizado para testar a capacidade de inibição de radicais livres de diversas matrizes. A presença de elétrons desemparelhados no DPPH é responsável pela forte absorção máxima no comprimento de onda de 515 nm, resultando na cor púrpura. A alteração da cor púrpura para amarelo ocorre quando o elétron desemparelhado forma um par com o hidrogênio doado pelo composto antioxidante, convertendo o DPPH para sua forma reduzida (BERTONCELJ et al., 2007; SAXENA; GAUTAM; SHARMA, 2010). O método do poder redutor FRAP é vantajoso na estimativa direta dos antioxidantes e redutores presentes em uma amostra, baseado na habilidade da amostra em reduzir o Fe+3 (oxidado) em Fe+2 (reduzido) (BERETTA et al., 2005).
Os compostos bioativos encontrados no mel com função antioxidante podem ser enzimáticos, como catalase, glicose oxidase e peroxidase, e não-enzimáticos, como flavonoides, ácidos fenólicos, ácido ascórbico, tocoferol, ácidos orgânicos, aminoácidos, carotenoides
e produtos de Maillard (AL-MAMARY; AL-MEERI; AL-HABORI, 2002; GHELDOF; WANG; ENGESETH, 2002; TURKMEN et al., 2005). Considerando que o mel possui compostos antioxidantes tanto lipofílicos quanto hidrofílicos, pode-se afirmar que a interação sinérgica entre estes compostos faz do mel um antioxidante natural ideal que pode agir em diferentes sítios celulares (ALJADI; KAMARUDDIN, 2004).
Os principais fitoquímicos reportados no mel com atividade antioxidante são os compostos fenólicos, cuja presença no mel e sua forte relação com a atividade antioxidante já é amplamente reportada na literatura (Tabela 1.10). A estrutura química dos compostos fenólicos é caracterizada pela presença de ao menos um anel aromático com no mínimo um hidrogênio substituído por um grupamento hidroxila, o que confere atividade antioxidante relacionada a diferentes mecanismos, como sequestro de radicais livres, doação de hidrogênio, extinção do oxigênio singlete, quelação de íons metálicos e ação como substrato para radicais como superóxido e hidroxila (SIMÕES et al., 2004). Os principais compostos fenólicos do mel são da classe dos flavonoides, que ocorrem no néctar e no pólen na forma de glicosídeos, e são hidrolisados a agliconas no estômago das abelhas, e posteriormente, transferidos ao mel (IURLINA et al., 2009; SILICI; SAGDIC: EKICI, 2010). Os flavonoides majoritários são as flavanonas pinocembrina e pinobanksina, e as flavonas crisina e galangina, todos derivados do própolis. Outros flavonoides já identificados são quercetina, kaempferol, miricetina, catequina, naringenina, apigenina, hesperidina e luteolina (ANKLAM, 1998; GHELDOF; WANG; ENGESETH, 2002; BERTONCELJ et al., 2011b; ISLA et al., 2011). Os ácidos fenólicos são outra classe de compostos fenólicos presentes no mel, sendo que alguns autores já identificaram ácido gálico, fenilacético, benzoico, hidroxibenzoico, cinâmico, vanílico, abscísico, p-cumárico, elágico, clorogênico, cafeico, ferúlico e siríngico (ANKLAM, 1998; GHELDOF; WANG; ENGESETH, 2002; STEPHENS et al., 2010; KHALIL et al., 2011). A composição e o perfil de compostos fenólicos presentes são variáveis e dependem principalmente da origem floral do mel (ANKLAM, 1998; ALJADI; KAMARUDDIN, 2004; KÜÇÜK et al., 2007). Desta forma, a presença de alguns compostos individuais ou grupo de compostos pode servir como uma importante ferramenta na determinação da origem floral do mel (ANDRADE et al., 1997; BALTRUŠAITYTĖ; VENSKUTONIS; ČEKSTERYTĖ, 2007; IURLINA et al., 2007; BERTONCELJ et al., 2011b).
Tabela 1.10 – Compostos fenólicos totais em méis e sua correlação com a atividade antioxidante. Ref.* País de origem Fenólicos totais (mg EAG/100 g) Coeficiente de correlação (r) DPPH FRAP** 1 Malásia 1,6 – 2,1 -** 0,869 2 Itália 5,2 – 79,0 0,918 0,885 3 Itália 3,0 – 18,0 - 0,938 4 Eslovênia 2,6 – 28,6 0,932 0,966 5 Romênia 2,0 – 125,0 0,940 - 6 Rep. Tcheca 8,2 – 24,2 - 0,852 7 Índia 47,0 – 98,0 0,800 0,900 8 Cuba 21,4 – 23,4 - 0,890 9 Eslovênia 2,6 – 31,6 0,827 0,960 10 Malásia 15,2 – 52,6 0,965 0,976
EAG – equivalentes a ácido gálico.
* Referência: 1 - Aljadi e Kamaruddin (2004); 2 - Beretta et al. (2005); 3 - Blasa et al. (2006); 4 - Bertoncelj et al. (2007); 5 - Al et al. (2009); 6 - Lachman et al. (2010); 7 - Saxena, Gautam e Sharma (2010); 8 - Alvarez- Suarez et al. (2011); 9 - Bertoncelj et al. (2011a); 10 - Khalil et al. (2011). ** Parâmetro não avaliado pelo autor.
A concentração de carotenoides no mel também é um fator de impacto na atividade antioxidante. Estudos de Alvarez-Suarez et al. (2011) demonstraram a associação existente entre a atividade antioxidante (método FRAP) com o conteúdo de carotenoides totais, com valor do coeficiente de correlação na ordem de 0,665. Resultados semelhantes foram descritos por Ferreira et al. (2009).