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2.3 RESULTADOS E DISCUSSÃO

2.3.4 Compostos bioativos

Dentre as variáveis analisadas para os compostos bioativos de interesse em

I. paraguariensis, apenas o teor de cafeína apresentou diferença significativa entre os

morfotipos. O morfotipo verde escuro apresentou os maiores teores para esse composto (20,4 mg.g-1), entretanto, diferindo significativamente apenas do morfotipo

peludinha (8,78 mg.g-1), o qual apresentou o menor teor. A soma das metilxantinas

FIGURA 2.7 - TEORES DE CAFEÍNA, TEOBROMINA E METILXANTINAS TOTAIS DE MORFOTIPOS DE Ilex paraguariensis A.St.-Hil.

FONTE: A autora (2020).

Diferenças nos teores de cafeína e teobromina entre morfotipos já foram reportadas na literatura, mas ainda são estudos pontuais. Reginatto et al. (1999, p. 444) mencionam que I. paraguariensis var. vestita (morfotipo peludinha) apresenta teores de metilxantinas muito abaixo dos observados para I. paraguariensis típica, sendo a mesma tendência observada por Coelho; Athayde; Schenkel (2001, p. 155). Em contrapartida, Borille; Reissmann; Freitas (2005, p. 189) não identificaram diferenças significativas para cafeína e teobromina ao estudarem três morfotipos (amarelinha, cinza e sassafrás).

Vários são os compostos químicos que atribuem sabor amargo para as infusões de erva-mate, destacando-se taninos, compostos fenólicos e as metilxantinas (PAGLIOSA et al., 2009, p. 416; TFOUNI et al., 2018, p. 661; VALDUGA et al., 2019, p. 480). Produtores e ervateiros relatam que os morfotipos apresentam variações no sabor do chimarrão, sugerindo que a partir de folhas do morfotipo sassafrás, por exemplo, seria obtido chimarrão com sabor mais forte/amargo do que com folhas do morfotipo cinza, estando isso possivelmente relacionado aos supostos teores de cafeína mais elevados encontrados no primeiro morfotipo. No entanto, ainda não foram realizados estudos que confirmem esses relatos.

Coincidentemente, os dois morfotipos que apresentaram os menores teores de cafeína (cinza e peludinha, com 10,89 e 8,78 mg.g-1, respectivamente)

apresentaram os maiores teores de teobromina (5,76 e 5,17 mg.g-1, respectivamente)

(FIGURA 2.7). Esse resultado pode ser explicado pela principal rota de biossíntese da cafeína para I. paraguariensis (YIN; KATAHIRA; ASHIHARA, 2015, p. 709), sendo a teobromina seu precursor direto. Assim, os teores de teobromina observados no

16,9 ab 20,4 a 14,4 ab 10,9 ab 8,8 b 1,2 a 1,0 a 2,7 a 5,8 a 5,2 a 18,1 a 21,4 a 17,1 a 16,7 a 14,0 a 0,0 10,0 20,0 30,0

Sassafrás Verde escuro Verde fosco Cinza Peludinha

M e ti lx a n ti n a s (m g .g -1) Morfotipos

presente estudo poderiam tanto estar disponíveis para transformação em cafeína, como ser resultado do catabolismo, ou seja, da quebra da cafeína.

Ainda, os teores de metilxantinas observados podem estar relacionados com a época da coleta (REGINATTO et al., 1999, p. 445), a qual foi realizada no período de inverno, coincidindo com a safra da erva-mate. Schubert et al. (2006, p. 1235) relatam diferenças nos teores de metilxantinas para I. paraguariensis, afirmando que o conteúdo total desses compostos é maior nos meses de verão, reduzindo-se os teores nos meses de inverno. Da mesma maneira, Coelho; Athayde; Schenkel (2001, p. 155) observaram maiores teores de cafeína e teobromina em amostras coletadas no verão quando comparadas às coletadas no início da primavera. Assim, novos estudos ampliando as épocas de coleta são sugeridos, a fim de verificar o comportamento sazonal dos morfotipos com relação ao conteúdo de metilxantinas.

Do ponto de vista comercial, diferentes teores de cafeína são interessantes por proporcionarem uma gama maior de produtos e aplicações potenciais. Da mesma maneira que elevados teores de cafeína são desejados em produtos energéticos e estimulantes, produtos com baixos teores de cafeína ou descafeinados também são alvo de diversos consumidores, especialmente os que buscam produtos alternativos em função de problemas associados à insônia, hiperatividade, azia e taquicardia (HECKMAN; WEIL; DE MEJIA, 2010, p. 81; VALDUGA et al., 2019, p. 481), sendo esse um mercado a ser explorado. Ainda, são poucos os estudos que relatam a cafeína como alvo do melhoramento genético da erva-mate, mas os resultados observados na literatura para esse e outros compostos, indicam a possibilidade de ganhos genéticos com a seleção de genótipos (SCHERER et al., 2002, p. 208; STURION et al., 2004, p. 13; NAKAMURA et al., 2009, p. 120; CARDOZO JUNIOR et al., 2010, p. 176).

A capacidade antioxidante para ambos radicais, ABTS e DPPH, bem como os teores de compostos fenólicos totais não apresentaram diferenças significativas entre os morfotipos estudados. Resultados similares foram encontrados para os teores de metilxantinas totais e ácidos cafeoilquínicos (3-CQA, 4-CQA, 5-CQA e CQA Totais). De maneira geral, os valores médios de capacidade antioxidante e teores de compostos fenólicos totais ficaram muito próximos entre os morfotipos. Verde escuro apresentou a maior média para metilxantinas totais (21,43 mg.g-1), e o morfotipo

Os compostos fenólicos atuam de diversas maneiras na saúde humana, apresentando atividades como antioxidantes, ação anti-inflamatória, antialergênica, atuando também na inibição de tumores (CHAICOUSKI et al., 2014, p. 34). I.

paraguariensis é fonte natural de compostos fenólicos, especialmente pela classe dos

ácidos clorogênicos e seus derivados, sendo que esses compostos são os principais responsáveis pela elevada atividade antioxidante observada na espécie (RIACHI; DE MARIA, 2017, p. 309). Essas informações corroboram com os resultados observados no presente estudo, sendo que todos os morfotipos apresentaram elevada atividade antioxidante e teores de compostos fenólicos totais (TABELA 2.4).

TABELA 2.4 - CAPACIDADE ANTIOXIDANTE (RADICAIS ABTS E DPPH), COMPOSTOS FENÓLICOS TOTAIS (CF), METILXANTINAS TOTAIS (MX) E ÁCIDOS CAFEOILQUÍNICOS (CQA) DE MORFOTIPOS DE Ilex paraguariensis A.St.-Hil.

Morfotipos (μmolTEAC.gABTS -1) (μmolTEAC.gDPPH -1) CF Totais (mgEAG.g-1) MX Totais (mg.g-1) Sassafrás 830,62 a 569,90 a 75,35 a 18,08 a Verde escuro 902,10 a 594,30 a 75,19 a 21,43 a Verde fosco 882,46 a 568,35 a 72,49 a 17,11 a

Cinza 889,01 a 611,83 a 71,63 a 16,65 a

Peludinha 925,84 a 596,02 a 74,85 a 13,95 a

Morfotipos 3-CQA 4-CQA 5-CQA CQA Totais

(mg.g-1) (mg.g-1) (mg.g-1) (mg.g-1) Sassafrás 19,27 a 15,55 a 42,84 a 77,66 a Verde escuro 18,37 a 16,67 a 48,01 a 83,05 a Verde fosco 20,41 a 16,78 a 44,87 a 82,06 a Cinza 19,95 a 15,28 a 40,01 a 75,24 a Peludinha 20,89 a 18,58 a 47,86 a 87,34 a FONTE: A autora (2020).

NOTA: Médias seguidas de mesma letra, nas colunas, não diferem significativamente entre si, pelo teste de Tukey ao nível de 5% de probabilidade.

Com relação aos ácidos cafeoilquínicos, o 5-CQA foi o mais abundante, seguido do 3-CQA e posteriormente o 4-CQA, embora sem diferença significativa. Os teores médios de ácidos cafeoilquínicos totais apresentaram pequena variação entre os morfotipos (TABELA 2.4). Mateos et al. (2018, p. 239) indicam que o ácido 3- cafeoiliquínico é o mais abundante nas folhas de erva-mate, seguidos do 5-CQA e 4- CQA, respectivamente. Como já mencionado, os resultados demonstraram semelhança na atividade antioxidantes, teor de fenólicos totais e de ácidos cafeoilquínicos entre os morfotipos estudados. Desta maneira, pode-se afirmar que os produtos potenciais provenientes de qualquer desses grupos terão elevados teores de compostos bioativos. Ainda, cabe salientar que houve grande variação química entre os indivíduos de um mesmo morfotipo, sendo mais acentuada para cinza e peludinha (TABELA 2.5).

TABELA 2.5 - AMPLITUDE DE VARIAÇÃO DOS TEORES DE CAFEÍNA, TEOBROMINA, METILXANTINAS TOTAIS (MX) E ÁCIDOS CAFEOILQUÍNICOS (CQA) DE MORFOTIPOS DE Ilex paraguariensis A.St.-Hil.

Composto

(mg.g-1)

Sassafrás Verde escuro Verde fosco Cinza Peludinha

- + - + - + - + - + Cafeína 10,68 27,04 15,63 23,58 6,01 23,25 1,96 28,92 0,06 24,27 Teobromina 0,00 3,29 0,00 3,48 0,00 7,81 0,00 15,37 0,00 10,97 MX Totais 11,67 27,87 16,30 26,60 8,65 24,16 6,40 33,62 4,76 26,71 3-CQA 12,99 27,57 14,11 24,17 12,36 29,94 14,09 29,53 13,79 30,17 4-CQA 9,54 21,14 12,88 19,66 11,67 22,91 8,94 23,54 12,48 25,74 5-CQA 34,15 56,02 40,02 61,17 27,91 62,47 24,53 59,80 40,05 58,46 CQA Totais 59,14 102,48 67,01 100,99 51,94 109,78 50,79 101,52 66,86 101,27 FONTE: A autora (2020).

Ampla variação dos compostos bioativos para I. paraguariensis também já foi reportada por Coelho; Athayde; Schenkel (2001, p. 155), Athayde; Coelho; Schenkel (2007, p. 277) e Blum-Silva et al. (2015, p. 04). Ainda, esse comportamento corrobora com os resultados mencionados por Bastos et al. (2006, p. 401), que afirmam que a amplitude observada provavelmente é decorrente de inúmeras condições, tais como ambiente, variabilidade genética entre as plantas, idade, luminosidade, entre outras. Com esses resultados é possível perceber a necessidade de maior tamanho amostral ou o uso de clones para estudos futuros, a fim de selecionar indivíduos que contemplem toda essa amplitude química, além de um treinamento adequado para identificação dos morfotipos.

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