Os metabólitos secundários vegetais destacam-se na área da farmacologia devido a seus efeitos biológicos sobre a saúde da espécie humana (PEREIRA; CARDOSO, 2012). Uma grande diversidade de moléculas e compostos de diferentes fontes naturais (ou seja, compostos fenólicos, fibras dietéticas, polissacarídeos, vitaminas, carotenóides, pigmentos e óleos) pode ter uma grande variedade de atividades biológicas (GONZÁLEZ-MANZANO; DUEÑAS, 2021).
Na síntese de compostos fenólicos em plantas, a glicose é inicialmente comprometida na via das pentoses fosfatos (PP), e a glicose-6-fosfato é irreversivelmente desidrogenada em ribulose-5-fosfato pela glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD). Nas últimas reações da via PP, a ribose-5-fosfato é convertida em eritrose-4-fosfato que se combina com o fosfoenolpiruvato (PEP) na reação inicial que produz compostos fenólicos, tais como aminoácidos aromáticos e precursores de lignina, flavonoides e fitoalexinas (LIN et al., 2016).
Dentre os compostos, os flavonoides possuem uma estrutura básica formada por C6-C3-C6, sendo os mais diversificados do reino vegetal. Nesse grupo encontram-se as antocianidinas, flavonas, flavonóis e, com menor frequência, as auronas, calconas e isoflavonas, dependendo do lugar, número e combinação dos grupamentos participantes da molécula (Figura 11) (SOARES, 2002; MANACH et al., 2004). Os flavonóis são os flavonoides mais presentes nos alimentos, são representados principalmente pela quercetina, flavonóis, miricetina e Kaempferol nas formas glicosiladas (DEWICK, 2009; MANACH et al., 2004; BRAVO, 1998).
Uma vez absorvidos, o metabolismo dos flavonoides em humanos envolve uma biotransformação por meio da conjugação enzimática com grupos sulfato, metil ou glucuronídeo, tanto nas células epiteliais do intestino delgado quanto no fígado (MANACH;
DONOVAN, 2004). Quantidades variáveis de flavonoides, não absorvidos no trato gastrointestinal, atingem o cólon onde estão sujeitos à ação da microbiota do cólon, resultando na clivagem das ligações glicosídicas e na quebra do heterociclo de flavonoides em ácidos fenólicos e aldeídos (VITAGLIONE et al., 2007; AURA et al., 2005). Esses catabólitos microbianos são absorvidos no sistema circulatório a partir do intestino grosso (MANACH;
WILLIAMSON; MORAND, 2005). Após a absorção, esses polifenóis são rapidamente metabolizados nas células intestinais para formar conjugados de glicuronídeo e sulfato que aparecem no sistema porta.
Esqueleto Básico Classe de Compostos fenólicos C6 Fenóis simples, benzoquinonas
C6-C1 Ácidos fenólicos
C6-C2 Acetofenonas e ácidos fenilacéticos C6-C3
Fenilpropanóides: ácido cinâmicos e compostos análogos, fenilpropenos, cumarinas, Isocumarinas e Cromonas
Figura 11. Alguns compostos fenólicos em relação à classificação com esqueleto básico. C6 corresponde ao anel benzênico à cadeia substituinte com X átomos de carbono. Fonte: Martins e Nicoletti (2016)
Os compostos fenólicos pertencem a um dos maiores grupos de metabólitos secundários das plantas (BABBAR et al., 2014) quimicamente caracterizados pela presença de pelo menos um anel aromático e vários grupos funcionais como aldeído, cetona, ácido e os grupos laterais, como metoxi e hidroxila (ADEBOYE; BETTIGA; OLSSON, 2014; VELDERRAIN-RODRÍGUEZ et al., 2014), são considerados importantes para o seu crescimento e a reprodução (Figura 12).
Há um crescente interesse nesses compostos devido à sua ocorrência às suas propriedades biológicas. As principais fontes de compostos fenólicos são frutas e vegetais (GONZÁLEZ-MANZANO; DUEÑAS, 2021; BIANCHI; ANTUNES, 1999), mas ultimamente cada vez mais estudos referem-se às plantas vasculares lenhosas, principalmente à casca, como uma importante fonte de compostos fenólicos com potencial efeito biológico (ROESLER et al., 2007), podendo agir de diferentes formas o que confere propriedades antioxidantes para os vegetais devido sua caracterização química (SOARES, 2002).
Estilos de vida e hábitos alimentares pouco saudáveis podem aumentar intensamente a produção de ERO no corpo humano, o que pode criar um distúrbio entre a geração dessas espécies e as defesas antioxidantes do corpo, esse desequilíbrio é chamado de estresse oxidativo (EL-GUEZZANE et al., 2021).
Os compostos fenólicos podem combater esses radicais livres gerados pelo estresse oxidativo, pela doação de um átomo de hidrogênio de um grupo hidroxila da sua estrutura aromática, que possui a capacidade de suportar um elétron desemparelhado (SUCUPIRA et al., 2012) interrompendo a reação de propagação dos radicais livres na oxidação lipídica;
modificando o potencial redox do meio e reparando lesão a moléculas atacadas por radicais livres (BIANCHI; ANTUNES, 1999; PODSEDEK, 2007; KARAKAYA, 2004) além de terem ação anti-inflamatória, promover modulação da transdução de sinal e atividade antimicrobiana (VELDERRAIN-RODRÍGUEZ et al., 2014).
Figura 12. Estrutura química dos principais tipos de flavonoides. Fonte: Março e Poppi (2008) adaptado.
O modo de ação dos antioxidantes pode ser classificado em primários e secundários. Os primários atuam interrompendo a cadeia da reação por meio da doação de elétrons ou hidrogênio aos radicais livres, convertendo-os em produtos termodinamicamente estáveis e/ou reagindo com os radicais livres, formando o complexo lipídeo-antioxidante que pode reagir com outro radical livre; os secundários atuam retardando as etapas de iniciação da auto- oxidação, por diferentes mecanismos que incluem complexação de metais, sequestro de oxigênio, decomposição de hidroperóxidos para formar espécie não radical, absorção da radiação ultravioleta ou desativação de oxigênio singlete (ADEGOKE et al., 1998).
O processo inflamatório pode se desenvolver em resposta a uma invasão por um microrganismo ou por dano físico e é uma ação protetora crítica para lesões ou infecções (SALOMÉ et al., 2020). A inflamação tem como objetivo remover o antígeno e o estresse oxidativo é uma consequência dessa inflamação. Os macrófagos que são recrutados durante o processo inflamatório, para o local da lesão, apresentam dois fenótipos, macrófago classicamente ativado (M1) e macrófago alternativamente ativado (M2). O M1 é caracterizado pela produção de altos níveis de citocinas pró-inflamatórias (secreção de grandes quantidades de citocinas, como IL-1β, TNF-α, IL-12, IL-18 e IL-23), capacidade de mediar à resistência a patógenos, ativa o iNOS para produzir NO a partir de L-arginina, promovendo a inflamação.
Quando o M2 é ativado ele secreta grandes quantidades de IL-10 e baixos níveis de IL-12 promovendo efeitos anti-inflamatórios (DAVIS et al., 2013).
Entretanto, quando os macrófagos são ativados, com antígeno, na presença de antioxidantes químicos, o antígeno é destruído eficientemente e o macrófago não é lesado (BENDICH, 1990). Portanto, compreende-se que os macrófagos, geralmente requerem uma concentração de antioxidantes maior que outras células para manter o equilíbrio redox e preservar sua integridade e função (RESHI et al., 2014).
Então, diante da problemática da inflamação intestinal, este trabalho teve como objetivos avaliar o efeito anti-inflamatório do Extrato Hidroetanólico Liofilizado de Cereus jamacaru P.DC. (mandacaru) em modelo de doença inflamatória intestinal aguda em ratas, tornando-se necessário analisar a composição fitoquímica do mandacaru a fim de verificar sua possível ação anti-inflamatória intestinal in vivo.
2 OBJETIVOS