• Nenhum resultado encontrado

O presente capítulo tem o intuito de apresentar a abordagem da Gestalt- Terapia a partir da discussão da sua compreensão de homem e mundo, dos seus pressupostos filosóficos e teóricos, seus principais conceitos, e ainda abordaremos sua compreensão acerca da criança e do desenvolvimento humano.

4.1 Pressupostos Filosóficos da Gestalt-Terapia: Humanismo, Existencialismo e Fenomenologia

A Gestalt-Terapia foi uma teoria criada por Friedrich Salomon Perls (1893- 1971), um psicanalista judeu e de origem alemã, por volta de 1951, em Nova York, sendo reconhecida na Califórnia no ano de 1968. É importante ressaltar que Gestalt é uma palavra de origem alemã adotada no mundo todo e que significa “dar forma”, ou seja, dar uma estrutura significante, uma formação (GINGER; GINGER, 1995).

A abordagem gestáltica tem como suas principais bases filosóficas as perspectivas humanistas, existenciais e fenomenológicas, trazendo consigo uma nova visão de homem, que compreende a necessidade de trabalhar o todo e não só as partes. As perspectivas fenomenológico-existenciais, segundo Ribeiro (2012), percebem o homem como um ser consciente, autônomo, afetivo e repleto de emoções próprias, sentimentos, sonhos, anseios, crises e desejos. A partir do existencialismo, o homem é visto como um ser-no-mundo, passando a ser valorizado como um ser que tem sua própria liberdade. Isso faz dele um ser plenamente responsável por suas escolhas.

O humanismo trás uma concepção de existência e de mundo que entende o homem como centro. Surgiu com o objetivo de perceber o homem a partir de um novo olhar, enquanto ser singular, concreto, repleto de potencialidades e valores. Deste modo, destacamos Abraham Maslow (1908-1970) e Carl Rogers (1902-1987) como os psicólogos e pensadores que mais contribuíram para o movimento humanista com suas teorias e crenças na potencialidade humana.

De acordo com Lima (2008), Rogers acreditava que os indivíduos possuíam dentro de si os recursos necessários para a autocompreensão e modificação de seus autoconceitos, de seus comportamentos e de suas atitudes, além de possuírem tendência ao crescimento. Contudo, Rogers destaca que mesmo os indivíduos possuindo os recursos necessários já citados, os mesmos só poderiam ser ativados se houvesse um clima facilitador.

Para Ribeiro (1985), a Gestalt-Terapia tem o intuito de ser mais do que uma reflexão humanística, ela se concretiza a partir de uma postura existencial, filosófica e básica, sendo assim uma resposta a um modo específico de se estar no mundo e a ele reagir. Sobre isso, esse autor afirma que a Gestalt-Terapia se utiliza do humanismo como uma reflexão filosófica para desenvolver

[...] uma psicoterapia preocupada com a valorização do humano, procura diretamente lidar com o que de positivo tem a pessoa, procura lidar com seu potencial de vida (saúde, beleza, força, etc.), procura fazer com que o cliente tome, de fato, posse de si mesmo e do mundo. Tal postura não significa que não se tente compreender o sentido das limitações, das fronteiras, da morte, no contexto da psicoterapia, pois, psicoterapia tem que ser expressão e compreensão da própria vida (RIBEIRO, 1985, p. 29).

Assim, o movimento humanista despertou valores que possibilitaram uma maior e mais completa compreensão do homem, fazendo, com isso, uma reflexão filosófica a partir do sentido do homem no mundo, não desconsiderando suas dificuldades, impossibilidades de mudança e os limites pessoais de cada indivíduo, mas fazendo uma reflexão a partir do criativo, do positivo e do que o indivíduo tem como potencialmente transformador, considerando, deste modo, suas potencialidades, responsabilidade, liberdade de escolha e a tendência para o crescimento e a atualização.

Já o existencialismo surge como uma corrente filosófica que trás uma visão de homem como ser-no-mundo, de modo que o indivíduo passa a ser valorizado por sua própria subjetividade, responsabilidade e liberdade de escolhas. Com isso, a Gestalt-Terapia se utiliza do existencialismo para compreender o indivíduo a partir de um modo singular e único de estar no mundo e de lidar com ele.

Tanto para o existencialismo, como para a Gestalt-terapia, o homem é visto não como um ser universal, diluído na idéia, como pensava Hegel, mas antes como um ser particular, concreto, com vontade e liberdade pessoais, consciente e responsável. O existencialismo é a expressão de uma experiência individual, singular: trata diretamente da existência humana.

Destacamos como os principais pensadores existencialistas Friedrich Nietzsche (1844-1900), Soren Kierkegaard (1813-1855), Jean Paul Sartre (1905- 1980) e Martin Mordechai Buber (1878-1965). Kierkegaard e Nietzsche contribuíram de maneira singular para o existencialismo e, consequentemente, para a Gestalt- Terapia. Kierkegaard acreditava que tudo depende de como a pessoa percebe e se relaciona com o fato ou o objeto, pois, para o mesmo, nada é uma verdade em si mesma. Já Nietzsche acreditava que o indivíduo era capaz de construir sua própria história através das escolhas e da responsabilidade inerente a elas (LIMA, 2008).

Assim, um pressuposto importante no existencialismo é o de que o ser humano só pode, de fato, ser compreendido por ele mesmo através de uma experiência direta do seu ser no mundo, e, embora a pessoa possa, momentaneamente, ter perdido esta aptidão, continua sendo a mais fiel intérprete de si mesma (RIBEIRO, 1985, p. 34).

Sobre isso, consideramos que na Gestalt-Terapia só podemos conhecer o outro a partir do que ele mesmo expressa, ou seja, a forma como ele se permite apresentar ao terapeuta, visto que só ele mesmo tem propriedade para falar sobre suas vivências e experiências.

Deste modo, podemos compreender que assim como o existencialismo a Gestalt-Terapia também percebe o homem como um ser singular, autêntico e livre, e essa liberdade faz dele o único responsável por suas próprias escolhas.

A última das principais correntes filosóficas que embasam a Gestalt-Terapia é a fenomenologia. Esta corrente filosófica surge na Alemanha, no final do século XIX, com o filósofo Edmund Husserl (1883-1969) e tem como objeto de estudo o fenômeno.

Para a fenomenologia, o fenômeno é tudo aquilo que se apresenta ao olhar intelectual, que surge com a observação pura e sem a existência de um preconceito. Deste modo, a fenomenologia realiza um estudo descritivo dos fatos vivenciados do pensamento do modo que acontece e do conhecimento que surge dessa observação (LIMA, 2008).

Para acessar o fenômeno, Husserl criou a redução fenomenológica, que é um método que tem como base suspender todos os valores, preconceitos, teorias e crenças para se ter acesso ao fenômeno da maneira mais pura possível. Por meio da redução fenomenológica conseguimos entrar em contato com o outro sem pré- julgamentos e sem pré-conceitos baseados em nossos próprios valores.

A respeito disso, Holanda (2003 apud LIMA, 2008) afirma que a fenomenologia propõe-se a ser uma ciência descritiva das essências das vivências. Ao invés de fatos, temos fenômenos, fatos somente são obtidos por abstração, fenômenos são vividos.

Para a Gestalt-Terapia, a relação terapêutica é mais significativa do que a própria teoria, pois é através desta relação que o terapeuta ajuda seu cliente a manter contato consigo mesmo e com seu mundo através de uma atitude descritiva. Esta atitude vem da fenomenologia e se caracteriza por ser não pré-julgativa, sendo importante que, nesse processo, a própria pessoa encontre as explicações necessárias sobre si mesma e, para isso, ela contará com a ajuda/facilitação do terapeuta (RODRIGUES, 2010).

Deste modo, a Gestalt-Terapia como abordagem que tem influência da fenomenologia, desenvolve suas intervenções baseada na fenomenologia- existencial, ou seja, faz uma descrição do fenômeno que se mostra presente e tenta ao máximo evitar interpretações, privilegia a singularidade, mas não descarta a generalidade, compreendendo, desta maneira, o outro a partir do que ele mesmo trás.

É importante destacar que o humanismo, o existencialismo e a fenomenologia foram correntes filosóficas de grande relevância para a compreensão de homem da Gestalt-Terapia, que o entende como um ser livre, repleto de possibilidades e plenamente responsável por suas escolhas.

A seguir, apresentaremos, de maneira breve, os pressupostos teóricos que embasaram a Gestalt-Terapia como abordagem psicoterápica, contribuindo, deste modo, para a sua compreensão de homem e mundo.

4.2 Pressupostos Teóricos da Gestalt-Terapia: Psicologia da Gestalt, Teoria de Campo e Teoria Organísmica

Após apresentarmos os principais pressupostos filosóficos que fundamentam a Gestalt-Terapia, é importante e necessário conhecer as sua principais teorias de base. Dentre elas, Andrade (2007) ressalta a Psicologia da Gestalt, de Max Wertheimer (1880- 1943), Wolfgang Kohler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1941); a Teoria de Campo de Kurt Lewin (1890-1947); e a Teoria Organísmica Holística de Kurt Goldstein (1878-1965). Faremos uma breve discussão acerca de cada uma delas para uma maior compreensão de como elas fundamentam a abordagem gestáltica.

A Psicologia da Gestalt, também conhecida como Teoria da Forma, busca entender as sensações e as percepções, compreendendo que nosso campo perceptivo se organiza de forma natural. Para Ginger e Ginger (1995), essa teoria entende que o todo não é igual a soma de suas partes, sendo assim, entende que, não se pode analisar separadamente o comportamento humano, mas é necessário compreender o mesmo em um conjunto mais amplo, a partir do seu contexto global.

Ressaltamos que o movimento fenomenológico foi importante para a Psicologia da Gestalt por sugerir a descrição da experiência imediata e da forma como ela ocorre, respeitando o fenômeno que se revela (ANDRADE, 2007).

Os principais conceitos da Psicologia da Gestalt são: parte e todo, que consiste na ideia de considerar a pessoa em sua totalidade, avaliando as partes que a compõe; figura e fundo, que se refere à forma ou formação de realidades; e aqui e

agora, que representa a relação com a realidade como um todo, ou seja, o que eu

vejo e o que eu percebo no agora pode ser explicado no momento presente, sem precisar recorrer a experiências passadas de percepção (RIBEIRO, 2012). Considerando isso, para a Psicologia da Gestalt, a Psicologia é o estudo da experiência imediata do organismo total.

A Teoria de Campo contribuiu fortemente para formação da Gestalt-Terapia. Ela teve como formulador o psicólogo Alemão Kurt Lewin (1890-1947), que, de acordo com Andrade (2007), compreendia que o campo possuía vários pontos e fontes de forças que formavam uma rede. Desta forma, tudo, as pessoas e as coisas, só podem ser percebidas se forem entendidas em uma relação total com o ambiente.

Assim, objetos e pessoas só se fazem inteligíveis ou compreendidos quando são vistos na sua relação total com o ambiente que os cercam, ou seja, a pessoa não se faz compreensível a não ser no contexto total em que se encontra. O comportamento deixa de ser entendido apenas como resultado da realidade interna da pessoa e passa a ser analisado em função do campo que existe no momento em que ocorre. A situação comportamental é vista como um todo, da qual decorrem partes diferenciadas (RIBEIRO, 1985, p. 95).

Dessa forma, essa teoria traz a ideia de que a pessoa não pode ser vista ou entendida isoladamente, pois a mesma está em contato mais amplo com o meio e, sendo assim, mantém uma relação com ele.

A terceira e última das principais teorias de base da Gestalt-Terapia é a Teoria Organísmica Holística, que foi formulada por Goldstein e parte da ideia de entender o indivíduo/organismo como um todo unificado, numa tentativa de superar a divisão mente-corpo.

Goldstein, a partir de seus estudos, notou que o ser humano não poderia ser compreendido apenas pelas partes do seu corpo (partes isoladas), mas sim através do todo, a partir de uma compreensão mais ampliada da biologia do ser humano (RIBEIRO, 1985). Considerando isso, Lima (2005) afirma que essa teoria utiliza o termo organismo para direcionar-se ao estudo do comportamento humano de um ponto de vista biológico não fragmentado.

No que se refere à pessoa, essa perspectiva apresenta o que existe em comum entre as teorias organísmicas:

1. A pessoa é una, integrada e consistente. A organização é natural ao organismo. A desorganização é patológica. [...] 2. O organismo é um sistema organizado, com o todo diferenciado em suas partes. [...]

3. O homem possui um impulso dominante de autorregulação, pelo qual é permanentemente motivado. [...] 4. O homem tem dentro dele as potencialidades que regulam seu próprio crescimento, embora possa e receba influências positivas de crescimento do meio exterior, as quais ele seleciona e utiliza. [...] 5. A Teoria Organísmica se utiliza dos princípios da Psicologia da Gestalt, enquanto funções isoladas, como percepção e aprendizagem que ajudam na compreensão do organismo total. [...] 6. A Teoria Organísmica acredita que se pode aprender mais em um estudo compreensivo da pessoa do que em uma investigação exclusiva de uma função psicológica isolada e abstrata de muitos indivíduos (RIBEIRO, 2012, p. 158).

A relação entre os princípios da Teoria Organísmica e os princípios da Gestalt-Terapia são evidentes, principalmente quando nos referimos à concepção positiva do homem, o qual possui um impulso de autorregulação, em busca de um equilíbrio organísmico, “onde sua energia de vida se transforma na expressão clara de sua atualização” (RIBEIRO, 1985, p. 108).

Considerando o que foi apresentado sobre as suas principais teorias de base, compreendemos que a Gestalt-Terapia busca entender o organismo em seu funcionamento como um todo, entendendo ainda que este organismo está sempre em busca do equilíbrio interior, na tentativa de satisfazer suas necessidades, atuando, sempre que possível, de forma espontânea.

Na próxima seção, apresentaremos alguns dos conceitos da Gestalt-Terapia que foram selecionados de acordo com a relevância para a discussão proposta nesse estudo.

4.3 Gestalt-Terapia e seus Principais Conceitos

Dentre os principais conceitos da Gestalt-Terapia, iremos discorrer sobre o contato, a awareness (tomada de consciência) e o ajustamento criativo por serem relevantes para compreender nossa temática de estudo: o recurso lúdico como instrumento facilitador do trabalho do psicólogo com crianças hospitalizadas.

Segundo Aguiar (2005), ao falarmos de desenvolvimento na abordagem gestáltica, estamos nos referindo diretamente ao conceito de contato, o qual é muito importante para essa teoria. “O contato é o ponto vital do crescimento, é por meio

dele que a pessoa pode mudar a si mesmo e a experiência que se tem do mundo” (POLSTER, 2001, p. 113 apud AGUIAR, 2005, p. 71). Portanto, contato é a troca de experiências, de sentimentos, de relação não apenas com o outro, mas consigo mesmo e com o mundo, pois é pelo contato com o outro que percebo o outro e me percebo como existente.

Assim, todo contato implica uma relação, a pessoa existe, sente, pensa, faz e fala. Primeiro eu percebo a realidade fora de mim, tomo consciência e percebo o que percebi. Isso vem assegurar que o contato procede a partir da awareness, que é o ato de se ter consciência da própria consciência (RIBEIRO, 2006).

Como discutido anteriormente, a utilização de recursos lúdicos favorece a expressão dos sentimentos e das vivências de situações cotidianas da criança. Isso permite ampliação da awareness, que é um dos objetivos da Gestalt-Terapia, pois esse é o processo de tomada de consciência da própria existência, que, como trás Barbosa (2014, p. 14), “auxilia no autoconhecimento, permitindo autoaceitação e a capacidade de estabelecer contato, percebendo que este caminho se configura através do diálogo nas relações cotidianas”.

Ainda sobre a awareness, Vogel (2012, p. 14) a define como sendo “o processo de aceitação do que se é, faz e escolhe, assim como da responsabilidade por seus sentimentos e comportamentos, ou seja, é um processo de orientação que se renova a cada instante”. A awareness pode ser entendida como “tomar consciência”, “estar atento” ao que se passa no aqui e agora, na sua relação consigo mesmo e com o mundo, com o que faz e se pensa.

Outro conceito importante para a Gestalt-Terapia, e que é relevante para a discussão desse trabalho, é o ajustamento criativo. Perls (1977) coloca que o ajustamento criativo é todo esforço que o organismo faz para se manter com uma boa saúde, diante das adversidades da vida, considerando a saúde como um equilíbrio entre tudo que somos. Desta forma, podemos dizer que o ajustamento criativo é a forma que o organismo/pessoa utiliza para encontrar o equilíbrio.

Nesse sentido, a Gestalt-Terapia não compreende saúde apenas e simplesmente pela ausência de uma doença, mas sim pela busca constante de uma homeostase (equilíbrio) por parte do organismo/pessoa, por meio do processo de autorregulação. Desse modo, em Gestalt-Terapia o termo saúde está associado ao

conceito de ajustamento criativo, compreendendo este como todo o investimento que o organismo/pessoa realiza para ficar/continuar saudável diante de todas as adversidades da vida, sendo a saúde um equilíbrio para ordenarmos tudo o que somos.

Segundo Ribeiro (2006, p. 64), ajustamento criativo é o processo pelo qual o corpo-pessoa, usando sua espontaneidade instintiva, encontra em si, no meio ambiente ou em ambos soluções disponíveis, às vezes aparentemente não claras, de se autorregular.

A partir do olhar da abordagem gestáltica, quando o desequilíbrio permanece durante longo tempo ele pode ser “cristalizado”, fazendo com que o organismo/pessoa se mostre “doente” devido a sua capacidade criativa de se ajustar ter sido reduzida. Sendo assim, é importante ficar atento “para o fato de que, como corpo, estamos permanentemente nos regulando e ajustando criativamente; assim, doenças são, por vezes, formas desesperadas de ajustamento criativo” (SILVA; ALENCAR, 2011, p. 23).

O ajustamento criativo pode ser considerado saudável ou não saudável. Aguiar (2005) explica que o que vai defini-lo como saudável ou não é a forma como irá ocorrer a interação entre a pessoa e o mundo, o que acontecerá por meio do processo de autorregulação, pois existem muitas necessidades em jogo nessa interação, e, para satisfazê-las, a pessoa deve estabelecer uma ordem entre essas necessidades, da mais importante para a menos importante.

Ao longo do desenvolvimento, nem sempre é fácil para a criança satisfazer todas as suas necessidades importantes, pois ela costuma privilegiar a que geralmente é considerada a mais importante de todas: sua necessidade de ser confirmada pelo outro. Se esta necessidade não entrar em conflito com a satisfação de outras a tendência é de que a criança consiga estabelecer uma forma fluida de emergência e satisfação de suas necessidades na interação com o mundo, realizando ajustamentos criativos específicos para cada situação e para cada momento de sua vida, caracterizando um funcionamento saudável (AGUIAR, 2005, p. 105).

Considerando isso, o conceito de ajustamento criativo é determinante para a compreensão de desenvolvimento infantil a partir do olhar da Gestalt-Terapia, a qual irá trabalhar com o objetivo de dar suporte para que a criança consiga lidar de forma

saudável com seus conflitos, existem dois tipos de ajustamento criativo o funcional e o disfuncional.

Quando o ajustamento criativo é considerado saudável, se denomina ajustamento criativo funcional, o mesmo acontece quando a pessoa demonstra a habilidade de se relacionar criativamente com o ambiente, tendo em vista atender suas necessidades, mantendo, assim, uma relação de respeito com o outro (FRAZÃO; FUKUMITSU, 2015).

Quando o ajustamento criativo é considerado não saudável, o entendemos como sendo disfuncional. Para Frazão e Fukumitsu (2015, p. 93), o ajustamento criativo disfuncional é

[...] um fenômeno interativo que ocorre na fronteira de contato e se refere à inabilidade e/ou impossibilidade de se relacionar criativamente com o ambiente. Ao contrário a pessoa se relaciona por meio de padrões cristalizados e repetitivos, pelos quais a expressão de necessidades e sentimentos é distorcida ou suprimida a fim de manter a relação com o outro, por mais artificial ou inautêntica que uma relação desse tipo possa parecer. Quanto mais intensa a necessidade, é maior a dificuldade de expressá-la e satisfazê-la, e quanto mais precocemente ela ocorrer, tanto mais provável é nos depararmos com sintomas graves (físicos ou psíquicos).

Diante disso, o que vai diferenciar se o ajustamento criativo é considerado funcional ou disfuncional é a forma com que a pessoa vai interagir com o mundo a partir do seu processo de autoregulação no intuito de atender suas necessidades, sendo importante que ela mesma faça essa análise e avalie se o seu ajustamento está sendo funcional ou não.

Dessa forma, o gestalt-terapeuta precisa estar atento ao modo de funcionamento da pessoa para que a mesma possa perceber e estimular o seu desenvolvimento, de modo a diferenciar um ajustamento criativo funcional, no qual ela desenvolve comportamentos com o intuito de proteção e defesa, de um ajustamento criativo disfuncional, em que uma ação é utilizada de forma confusa em uma situação inadequada e que precisa ser ressignificada.

Considerando o que foi discutido, podemos compreender que, para a Gestalt- Terapia, o desenvolvimento humano é visto a partir de um processo contínuo de

ajustamento criativo mediado pela capacidade de auto-regulação da pessoa, além de ser orientado por uma visão de ser humano como um todo e como um ser de possibilidades que está sempre se constituindo e se atualizando na relação com o mundo (ANTONY, 2006).

Na próxima seção, iremos discutir como a Gestalt-Terapia compreende a criança, bem como as possiblidades de intervenção propostas por essa abordagem diante desse público.

4.4 A Gestalt-Terapia e sua Compreensão acerca da Criança

A Gestalt-Terapia é uma abordagem que enfatiza o indivíduo na sua totalidade, além de ser conhecida como a abordagem do aqui e agora e do contato.