[...] A pesquisa qualitativa é uma atividade situada que localiza o observador no mundo. Norman Denzin e Yonna Lincoln
A pesquisa qualitativa/interventiva reúne práticas que aproximam o pesquisador do cotidiano que pretende estudar. Assim, os fenômenos são estudados em seu contexto original e o que se busca é a sua compreensão e os significados atribuídos a eles pelas pessoas. Para tanto, os pesquisadores podem utilizar diversos métodos de pesquisa com perspectivas diferentes, mas que responderão ao seu objetivo de compreender o mundo do outro.
A pesquisa qualitativa envolve o estudo do uso e a coleta de uma variedade de materiais empíricos – estudo de caso; experiência pessoal; introspecção; história de vida; entrevista; artefatos; textos; e produções culturais; textos observacionais, históricos, interativos e visuais – que descrevem momentos e significados rotineiros e problemáticos na vida dos indivíduos. Portanto, os pesquisadores dessa área utilizam uma ampla variedade de práticas interpretativas interligadas, na esperança de sempre conseguirem compreender melhor o assunto que está ao seu alcance. (DENZIN; LINCOLN, 2006, p. 17)
As formas de se entender a pesquisa foram sendo revistas ao longo da história. Inicialmente, havia uma predominância do saber positivista formulado na academia, mas o questionamento desse modelo agregou novas possibilidades de fazer pesquisa. Schmidt (2006) faz uma reflexão sobre a ampliação dessas possibilidades:
A ruptura com o paradigma positivista e com a hegemonia do saber científico enseja o debate epistemológico e metodológico em torno da pesquisa em ciências humanas. A ideia de comunidades interpretativas faz apelo a uma democratização do saber não apenas em seu momento de divulgação e “aplicação”, mas, além disso, na ordem de sua constituição ou produção. A prática da pesquisa participante é capaz de aglutinar em torno de si tanto a reflexão epistemológica que interessa à ruptura com o paradigma positivista quanto a apreensão crítica das dimensões éticas e políticas das pesquisas de campo, configurando metodologias que promovem uma relação com o outro próxima à ideia de comunidades interpretativas. (SCHMIDT, 2006, p. 13)
O que a autora aponta traz uma ideia de horizontalidade da produção do saber científico, pois, ao democratizar o saber no modo como se produz, reconhece-se um pesquisador que é inserido no território, impactando e sendo impactado pelo fenômeno estudado. No mais, a utilização do termo “participante” sugere: “a controversa inserção de um pesquisador num campo de investigação formado pela vida social e cultural de um outro, próximo ou distante, que, por sua vez, é convocado a participar da investigação na qualidade de informante, colaborador ou interlocutor” (SCHMIDT, 2006, p. 14).
Nessa perspectiva, a pesquisa é feita buscando se aproximar de uma vivência, absorver o modo como a classe popular entende sua própria realidade e colaborar com a comunidade dividindo os saberes que foram construídos ao longo da elaboração da pesquisa. Nesse sentido, é importante lembrar que intervenção e ação são diferentes, já que a primeira consiste na inserção de uma ação externa num contexto já existente e a segunda é realizada em conjunto. Para Schmidt (2006), intervenção e ação
não são equivalentes, mas sugerem, além da presença do pesquisador como parte do campo investigado, a presença de um outro que, na medida em que participa da pesquisa como sujeito ativo, se educa e se organiza, apropriando-se, para a ação, de um saber construído coletivamente. (SCHMIDT, 2006, p. 15)
Esta pesquisa entende que o encontro do pesquisador com o participante e o território é a base para a construção do conhecimento.
E, assim, juntamos histórias que talvez contemos uns aos outros, algumas delas para repartir nossos elos mais profundos com quem estudamos; algumas para nos auxiliar a enxergar como corrigir uma injustiça ou aliviar a opressão; algumas para que nos ajudem e ajudem outras pessoas a entender como e por que fizemos o que
fizemos, e como tudo saiu errado; e algumas simplesmente para celebrar a diferença. (DENZIN; LINCOLN, 2006, p. 403)
3.2 Olhar fenomenológico
Assim, no caso, melhorar a visão de mundo é uma maneira de se habitá-lo e de se poder alterar continuamente a forma e a direção desta habitação.
Dulce Critelli
A maneira como a pensamento fenomenológico propõe olhar o mundo parte de uma atitude filosófica de estranhamento, curiosidade, espanto e admiração em relação ao objeto. Segundo Roberto Sá (2008), “a ‘atitude fenomenológica’, ou filosófica no sentido próprio, deve ater-se apenas àquilo que se dá à experiência, tal como se dá: o que chamamos de fenômeno” (SÁ, 2008, p. 319).
Dessa forma, valorizamos aqui a experiência no seu sentido amplo: a experiência da construção de um PPP e da inserção da discussão sobre Educação Inclusiva no documento.
Em diálogo com o pensamento fenomenológico, também trouxemos aportes da leitura freiriana para o trabalho, já que Paulo Freire (1996, p. 18) entende o pesquisador/professor/aluno como “[...] presença que se pensa a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz, mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, que decide, que rompe”. Nesse sentido, o pesquisador afeta e é afetado pelas experiências compartilhadas no processo da pesquisa.
O pensamento fenomenológico questiona, entre outros aspectos, a possibilidade de neutralidade no processo de pesquisa e a noção de universalidade. Para Critelli (2019), “nenhuma universalidade, nenhuma precisão lógica, nenhuma neutralidade ou outro elemento da arquitetura metodológica são suficientes para garantir e afastar equívocos epistêmicos, peculiares e constitutivos da condição humana”. A autora acrescenta que “todos os métodos podem descobrir uma verdade real, mas nenhum deles detém a verdade”. Aqui, ela nos alerta sobre a inexistência de uma revelação absoluta e única, e por isso “todo método é uma perspectiva e apenas isto” (CRITELLI, 2019, p. 25).
Dessa forma, discutiremos essencialmente a particularidade do PPP em questão, da parceria que construímos com as instituições e do produto que surgiu dos encontros. E como “[...] investigar é sempre colocar em andamento uma interrogação” (CRITELLI, 2006, p. 27),
esse modo de investigação não partiu de concepções entendidas como já conhecidas, mas construiu conjuntamente uma interrogação para aquilo que se quer saber.
É importante ressaltar que, nessa perspectiva, o investigar deve se propor a ser mais abrangente do que os instrumentos escolhidos, afinal: “todo instrumento é, para a Analítica do Sentido, um recurso provisório, secundário, e que às vezes nem serve, repetidamente, para a mesma questão” (CRITELLI, 2006, p. 28).
Assim sendo, os instrumentos – provisórios – escolhidos para essa modalidade de pesquisa, e que serão apresentados a seguir, só têm sentido nesse contexto e no interior dos encontros desenhados ao longo do processo de investigação/parceria.