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Compreendendo as línguas de sinais e a Libras

1. As imbricações entre surdez, Libras, experiência visual e cultura surda

1.3. Compreendendo as línguas de sinais e a Libras

Mesmo com a Lei da Libras, ainda é grande o desconhecimento acerca desta realidade linguística. Por exemplo, jornalistas, médicos e até professores falam em “Linguagem” de sinais ao invés de Língua de Sinais. É preciso compreender que existem diferenças entre linguagem, língua e fala.

Nogueira, Carneiro e Soares (2018), sustentadas em Bastos e Candiotto (2007), apresentam as diferenças entre linguagem, língua e fala, considerando que a linguagem é mais ampla, geral, isto é “[...] o sistema abstrato, articulado, fenômeno universal, independentemente da situação cultural, que diferencia o ser humano das demais espécies” e, restringindo a linguagem a um determinado grupo que utiliza o “sistema abstrato” para se comunicar, as autoras, ainda sustentadas em Bastos e Candiotto (2007) especificam que língua é o “[...]sistema abstrato, articulado utilizado por um grupo ou uma comunidade específica, por exemplo, a Língua Portuguesa”

(NOGUEIRA, CARNEIRO e SOARES, 2018, p.82);

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Ao particularizar a língua no caso de um único indivíduo, as autoras, ainda considerando o mesmo referencial, estabelecem o que é fala. “A fala é o exercício material da língua levado a cabo por este ou aquele indivíduo pertencente a uma comunidade linguística específica” e a linguagem é a capacidade do ser humano de comunicar-se com os semelhantes por meio de signos. É ao mesmo tempo física, psicológica e social e é realizada sempre dentro do âmbito de uma língua, “inseparável de um contexto cultural específico, particular, de uma comunidade linguística” (BASTOS e CANDIOTTO, 2007, p.15).

Como foi explicitado no tópico anterior foram necessários muitos estudos linguísticos para se aceitar que a Libras é uma língua e ela foi reconhecida como meio de comunicação legal do surdo brasileiro em 2002, mas muitos ouvintes, como já mencionamos antes, envolvidos ou não com a educação de surdos, ainda não conhecem a Libras, a Língua Brasileira de Sinais.

Um exemplo disso é que antes usávamos LIBRAS, com todas as letras maiúsculas, como sigla de Língua Brasileira de Sinais. Escrever LIBRAS com todas as letras maiúsculas é inadequado tanto pelas regras da ABNT (Associação brasileira de Normas Técnicas) que recomenda que somente as iniciais das palavras devem constar em maiúscula e, daí teríamos LiBraS, quanto pelas regras da Língua Portuguesa que estabelece que siglas que podem ser pronunciadas como uma palavra, deve ser grafada apenas com a inicial maiúsculas, como por exemplo, Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), o que já garantiria que deveríamos escrever Libras.

Entretanto, foi somente após a Lei nº10436/2002, a “Lei da Libras” (BRASIL, 2002), que a sigla LIBRAS foi substantivada no âmbito da Educação de Surdos, passando a ser grafada somente com a inicial maiúscula. Mas, ainda é comum, encontrarmos, até mesmo em documentos oficiais a grafia LIBRAS. Penso que vamos precisar insistir muito para que se passe a escrever corretamente o nome da língua dos surdos brasileiros.

Com a Libras sendo reconhecida como meio de comunicação legal no Brasil, os surdos conquistaram o direito de serem educados em sua língua e, assim, o Decreto 5626/2005 (BRASIL, 2005), que regulamenta a Lei da Libras torna obrigatório a presença dessa componente curricular nos cursos de Licenciatura, de Pedagogia e de Fonoaudiologia e optativo para os demais cursos. O Decreto 5626/2005 também determina a adoção da abordagem

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educacional bilíngue nas escolas inclusivas para surdos, com a presença de intérpretes de Libras, garantidos anteriormente pela “Lei da Acessibilidade”, a Lei 10 098 de 2000 (BRASIL, 2000).

Essas leis e suas consequências deram bastante visibilidade para os surdos e a Libras, que chamaram a atenção da sociedade ouvinte, que começou a tomar contato com essa língua, para eles tão diferente. Afinal, é uma língua sem som!

Com a garantia dos direitos dos surdos de serem educados em sua língua, foi necessário formar professores de Libras, tanto para ouvintes, como para os próprios surdos e foi criado, em 2006 o primeiro curso de Licenciatura em Letras/Libras15, na modalidade EAD, pela Universidade Federal de Santa Catarina, com vagas destinadas especialmente para surdos. Também a Libras, que é uma língua viva, ainda em construção em função dos anos em que esteve proibida, mesmo tendo sido estudada pelas pesquisas realizadas em cursos de pós graduação, com estudos divulgados em publicações científicas, apresentadas e debatidas na mídia cotidiana, ainda assim, infelizmente, ainda permanece o desconhecimento acerca dessa realidade linguística tanto daqueles que convivem de perto com a surdez, quanto da sociedade ouvinte em geral que não entendem, ignoram e acham não é importante dar espaço a esta língua. Esse desconhecimento está explicitamente expresso em textos como os de Gesser (2009), Reily (2004) e Pereira et al (2011), quando essas autoras abordam mitos e crenças sobre as línguas de sinais.

De acordo com Gesser (2009), um desconhecimento bastante comum das pessoas ouvintes e que não convivem na comunidade surda e não têm contato com as pessoas surdas é pensar que a Libras é constituída por gestos comuns, ou seja, gestos simples e icônicos, isto é, que se parecem com o que se quer representar, como por exemplo, o sinal para casa (em Libras):

Figura 3 – Casa Fonte: Arquivo da autora

15 A primeira turma foi 2006, primeiro curso pela UFSC da nossa história

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Ainda de acordo com Gesser (2009), as pessoas não têm conhecimento de que a Libras é uma língua estruturada, com sintaxe própria e que os sinais não são gestos. De maneira geral, os gestos acompanham a fala e podem ser considerados elementos “paralinguísticos” que reforçam o que se está anunciado.

De acordo com Knapp e Hall (1999) existem gestos que são

“independentes da fala”, são “gestos emblemas” ou “autônomos”, como por exemplo, o da “[...] banana representada pelo antebraço dobrado para cima”, com a outra mão sendo pressionada pelo antebraço e que é facilmente reconhecido como “dane - se” (KNAPP; HALL, 1999, p.192). Outros gestos considerados pelos autores, como autônomos, são o menear da cabeça para indicar “sim” ou “não”.

Sinais não são gestos. Eles obedecem a regras de formação e não são autônomos, isto é, carregam significado que apenas são compreendidos pelos usuários das línguas de sinais em particular.

Considerar as línguas de sinais como composta somente por gestos, sem considerar a estruturação de um sinal, seria o equivalente, de acordo com Pereira et al (2001, p.18), a descrever uma língua oral como “ruídos” feitos com a boca.

Outra concepção errada que as pessoas possuem é de considerar a Libras (e as demais línguas de sinais) como icônicas (o que poderia significar que a língua de sinais não seria arbitrária e resultante de convenção, como as línguas orais, em que não existe uma relação de semelhança entre a palavra e o conceito que representa). Existem sim, sinais icônicos na Libras, como também existem “palavras icônicas” na Língua Portuguesa, como ping-pong; piuí; miau, etc, ou seja, o que é chamado de onomatopeias (PEREIRA et al, 2009).

A Libras não é icônica, porque a relação não é apenas direta, quase transparente entre um sinal e o conceito que este representa, além disso, como ela ainda está sendo estruturada, muitos sinais que antes eram icônicos vêm sofrendo modificações ao longo do tempo e na combinação com outros sinais resultam em perda de iconicidade, se tornando, portanto, arbitrários.

Desta forma, a Libras não é somente um conjunto de sinais, que representam coisas concretas. A Libras tem gramática própria como qualquer

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língua, e se apresenta estruturada nos mesmos níveis das línguas orais, a saber:

fonológico, morfológico, sintático, semântico e pragmático (GESSER, 2009).

Foram os estudos linguísticos, em particular o pioneiro do norte americano William Stokoe (1960), que conferiram status linguístico às línguas de sinais, como vamos tratar no próximo tópico.

De acordo com Oliver Sacks (1990) antes desses estudos, as línguas de sinais não eram vistas como uma verdadeira língua, com gramática própria.

Com o reconhecimento linguístico efetivado por Stokoe, que comprovou a Língua de Sinais Americana possuía gramática própria, com seu próprio conjunto de regras para a constituição dos sinais, as pesquisas passaram então a buscar identificar se as línguas de sinais desempenhavam o mesmo papel, no desenvolvimento cognitivo do surdo, que o desempenhado pela língua oral no desenvolvimento cognitivo dos ouvintes.

Os estudos linguísticos de Stokoe e os que vieram depois, em todo mundo, comprovaram que as línguas de sinais não usam preposições, artigos e outros elementos de ligação, além de poucas possibilidades de flexões, existe a falsa ideia de que elas, em comparação com as línguas orais são limitadas e empobrecidas.

Isto revela um total desconhecimento, pois pelo uso do espaço é possível expressar as mesmas relações que, por exemplo, as preposições na língua oral, ou seja, a língua de sinais utiliza recursos diferentes para expressar as mesmas ideias. Também a língua de sinais não tem limites para expressar quaisquer conceitos (NOGUEIRA, CARNEIRO, NOGUEIRA, 2010, p.89)

De acordo com Gesser (2009) e Pereira et al (2011), a Libras, assim como qualquer língua de sinais, não é mímica. Fazemos mímica quando utilizamos gestos para representar objetos, imitar pessoas e animais, expressar sentimentos sem, todavia, obedecemos a regras gramaticais. A mímica, conforme demonstram pesquisas, permite facilitar a comunicação. Por exemplo, a profissão de palhaço exige que ele seja um hábil mímico. Muitos circos viajam o mundo todo e seus palhaços fazem todos rir, sem pronunciar praticamente nenhuma palavra. Muitos juízes de futebol, entre dois países diferentes, fazem mímica para serem entendidos, embora, existam gestos já combinados, como apontar para o centro do campo, indicando gol, ou levantar um cartão vermelho, para indicar a expulsão de um jogador.

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A mímica é muito utilizada na contação de histórias ou em peças de teatro. Neste caso ela recebe o nome de pantomima. Gesser (2009) descreve uma pesquisa realizada em 1979 pelos norte-americanos Klima e Bellugi, em que foram constatados criação de gestos, realizadas imitações para que trechos de histórias, fossem narrados por ouvintes, sem utilizar palavras. Os ouvintes demoraram muito mais tempo para reproduzirem pela pantomima as histórias do que quando foram narrados em línguas de sinais. Gesser (2009, p.21) destaca afirma que “A pantomima quer fazer com que você veja “o objeto”, enquanto o sinal quer fazer com que você veja o símbolo convencionado para esse objeto”.

Foi somente com a comprovação de que a Libras não é mímica, que surgiram pesquisas sobre o papel desempenhado por ela no desenvolvimento cognitivo dos surdos, que pudemos pensar em uma definição socioantropológica da surdez, como “diferença linguística”. Além disso, não teria sido adotada a abordagem bilíngue, não teríamos pesquisas e estudos linguísticos, não teríamos intérpretes, também não iria abrir o curso de graduação de Letras/

Libras, não teríamos professores surdos. A vida dos surdos seria mais difícil do que se imagina.

As línguas de sinais não se resumem no alfabeto manual (soletração e datilologia). Às vezes as pessoas ouvintes pensam que para se sinalizar alguma coisa em Libras é preciso soletrar letra por letra, por exemplo, para gato, soletrar G-A-T-O.

G A T O

Figura 4 - G-A-T-O Fonte: arquivo da autora

Não, existe o sinal próprio para gato, conforme na figura a seguir.

Figura 5- Gato

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Fonte: arquivo da autora

A soletração só é utilizada para nomes próprios ou palavras que ainda não tem um sinal. Por exemplo, quando teve o impeachement do presidente Fernando Collor, em 1992, ainda não existia um sinal para essa palavra e era soletrada. Em 2016, quando se discutia o impeachement da presidente Dilma Rousseff, já havia o sinal e não mais se soletrava esta palavra.

Assim, a soletração e a datilologia (que é soletrar rapidamente, inclusive pulando algumas letras) é importante para interagir entre interlocutores alfabetizados. Por exemplo, na minha família, meus irmãos ouvintes conhecem pouco da Libras, mas conhecem o alfabeto manual e muitas vezes nos comunicamos dessa forma. Mesmo assim, são soletradas apenas algumas palavras para dar o contexto e podermos compreender pela leitura labial, nunca acontece de se soletrar uma frase inteira. Resumindo, se não existe sinal, soletramos, sem esquecer que a soletração só é possível entre interlocutores alfabetizados e ainda é grande o número de surdos iletrados.

Outra consequência da ideia de se pensar que as línguas de sinais são icônicas, ou que se faz soletração, é achar que as línguas de sinais são iguais em todos os países. A Língua de Sinais não é universal, porque existem diferenças entre línguas de sinais utilizadas em países diferentes. Por exemplo, a Libras é a língua de sinais dos surdos brasileiros e se originou da Língua de Sinais Francesa, como já vimos. Em Portugal, por exemplo, é considerada língua gestual, ou seja, temos a Língua Gestual de Portugal, cuja sigla é LGP. E, o mais interessante é que a língua oral do Brasil e de Portugal são as mesmas, a Língua Portuguesa, com pequenas variações, enquanto existem grandes diferenças entre a Libras e a LGP. A Libras é mais próxima da LSF (Língua de Sinais Francesa) do que a LGP (GESSER, 2009).

Então, a Libras é língua natural, como toda língua oral, produção cultural humana. É reconhecida como meio legal de comunicação no Brasil, considerada nativa no território nacional. A Libras e todas as línguas de sinais, não são artificiais, isto é, não foram inventadas. Surgiram naturalmente. Outra coisa importante: as línguas de sinais são independentes das línguas orais. A Libras recebe influência da Língua Portuguesa, por exemplo, as palavras futuro e professor são sinalizadas a partir das letras f e p, respectivamente, no alfabeto manual (QUADROS, 1997).

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F – Futuro P - Professor

Figura 6 - F e P Fonte: arquivo da autora

Outra evidência da naturalidade das línguas de sinais, foi o estudo realizado por Lucinda Ferreira Brito em 1982 sobre a Língua de Sinais dos índios Urubu-Kaapor da floresta amazônica brasileira e observou, após mais de um mês de convivência na tribo que “[...] os ouvintes da aldeia “falam” a língua de sinais e a língua oral enquanto os surdos se restringem à língua de sinais. Assim, os ouvintes da aldeia se tornam bilíngues, enquanto os surdos se mantêm monolíngues” (NOGUEIRA, CARNEIRO, NOGUEIRA, 2012, p.82).

Mas, a comunicação com as mãos não teve início com os surdos e nem é exclusividade deles. Nogueira, Carneiro e Nogueira (2012, p. 81), os homens pré-históricos utilizavam os gestos em sua comunicação e “[...] apenas quando começaram a utilizar ferramentas, ocupando as mãos é que começaram a utilizar a comunicação oral”. O fato do ser humano se comunicar utilizando gestos, antes de utilizar a palavra para interagir, demonstra a naturalidade da comunicação por sinais. E, de acordo com Reily (2004), a comunicação por sinais ou gestos convencionados também não é exclusiva dos surdos:

Você sabia que existem várias linguagens manuais criadas em diversos momentos da história da humanidade, para uso em contextos variados, tendo em vista possibilitar a comunicação e a interação em situações em que a fala era inviável, proibida ou impossível?

Mergulhadores, por exemplo, criaram um sistema de códigos gestuais para se comunicar debaixo d’água, onde a fala não é possível.

Considerando os riscos de uma comunicação equivocada em circunstâncias perigosas, fica evidente o quanto essa comunicação deve ser bem assimilada durante os cursos de mergulho para garantir a segurança no meio líquido (REILY, 2004, p.113)

Ainda de acordo com Reily (2004), um sistema de comunicação utilizando sinais de fumaça foi desenvolvido pelos indígenas do planalto americano, que “[...] também desenvolveram uma língua de sinais para estabelecer uma comunicação entre tribos distintas, que não falavam a mesma língua, e precisavam de uma forma convencional de comunicação”, que

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favoreceu a realização de alianças e comércios (NOGUEIRA, CARNEIRO, NOGUEIRA, 2012, p.82).

Nesta terceira década do século XXI, ainda se encontra em vigor, um sistema de sinais que foi desenvolvido no período medieval por monges nos mosteiros europeus, que faziam o voto do silêncio (REILY, 2010).

Desta forma, a naturalidade, a arbitrariedade, a não universalização das línguas de sinais, a sua constituição como língua ficam demonstradas. No próximo tópico, vamos tratar de aspectos linguísticos da Libras.