4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.4 COMPREENDENDO COMO SE ESTABELECEM OS ENCONTROS DE
GRUPOS SOLIDÁRIOS E OS AGENTES DE MICROCRÉDITO
No intuito de compreender como se estabelece os encontros de dignidade, foram analisadas falas que demonstraram situações de promoção, violação ou indiferença entre os
membros dos Grupos Solidários e entre os membros dos Grupos Solidários e os agentes de microcrédito.
4.4.1 Encontros de dignidade entre os membros dos Grupos Solidários
Os encontros de dignidade podem ocorrer, segundo Jacobson (2009), a cada interação social, por meio de manifestações expressas ou não. Nos encontros de dignidade, podem existir tanto a promoção quanto a violação da dignidade.
Na pesquisa, foram observados tanto encontros de dignidade em que houve a promoção, quanto encontros de dignidade em que ocorreu a violação.
Quanto às manifestações promotoras da dignidade, na pesquisa, tem-se: em momento de problemas de saúde do próprio empreendedor, assim como aconteceu com PC1GS3, que
“ficou esses dias [72 dias doente, internado em um hospital, vários dias na UTI] sem trabalhar” (PC1GS3) e “E1GS3, quando me viu só o couro e o osso, disse: ‘PC1GS3 se você estiver precisando de algum dinheiro pra fazer exame ou pra pagar o empréstimo, pode me dizer que eu arrumo’” (PC1GS3); ou em momento em que adoece um parente, como aconteceu com EA12, quando a sua “mãe teve um problema de câncer e eu tive que ir pra João Pessoa com ela, aí houve um atraso, aconteceu esse imprevisto [...] mas as minhas companheiras de grupo compreenderam” (EA12); ou, ainda, pode ser um problema que ocorra no próprio empreendimento e que, “se por acaso você não tiver o dinheiro todo da prestação, digamos que a prestação é amanhã, aí você liga e pergunta: ‘fulano tu tens? tu podes me ajudar?’” (PC1GS3, EA12 e EA13).
Segundo EA12, em seu grupo, quando uma não tem o dinheiro para pagar o microcrédito, avisa às outras logo cedo, e isto pode ser considerado como uma manifestação de promoção da dignidade, pois o grupo “sai catando um pouquinho daqui, um pouquinho dali, até dá certo e pagar a parcela, pra evitar o atraso” (EA12).
Os encontros de dignidade em que aconteceu a violação da dignidade foram manifestados nas falas, especialmente quando algum membro do grupo não efetuava o pagamento do microcrédito, tendo sido revelado em frases do tipo “está prejudicando a gente”
(EA8), porque “eu perdi foi meu crédito” (GD). A violação da dignidade por meio da perda do crédito foi demonstrada de forma incisiva pelo GD, quando uma das participantes colocou que:
Tem coisa mais triste, você tá com o nome sujo. Entrar numa loja e não poder comprar? É triste. [...] Uma pessoa nesse mundo de meu Deus [...] colocou meu nome no SPC e eu rodei [...] eu rodei, eu trabalhei igual uma condenada, jumenta,
pra tirar meu nome do SPC e tirei [...] agora tá meu nome no SPC de novo, por causa de uma infeliz [...] a gente quer pagar, e ela não pode pagar uma prestação de R$ 100,00? (GD).
A violação da dignidade pelo não pagamento de microcréditos foi observada tanto com pessoas amigas, como é o caso de E1GS8: “ela sujou o nome da gente [...]. A gente precisa [do nome limpo], a gente vai numa loja, não tem mais, não compra mais nada [...], quando eu pego uma amizade com a pessoa, Ave Maria, eu gosto demais, meu defeito é esse, confiar demais”
(E1GS8), quanto com parentes:
Eu estou com problema sério com E1GS3 [uma prima e componente de seu grupo na OSCIP1 e na OSCIP4] [...] aquela loja [onde E1GS3 trabalha] [...] é no meu nome [...] E quando eu passei aquela loja para ela, eu fiz um negócio que se o pai dela fosse vivo não faria com ela [...]. Como ela era parente, eu fui deixando, deixando [...] chegou um oficial de justiça aqui em casa me procurando [...]. Eram compras que fizeram lá na loja, em meu nome [...]. Tem 32 protestos feitos no meu nome [...] eu nunca imaginei que ela fosse fazer um negócio desse, estou prejudicadíssimo. (E2GS4).
Também foram observados casos de violação da dignidade com pessoas conhecidas, tal como aconteceu com E2GS5, que, ao descobrir que o microcrédito não estava sendo pago e disse “eu fiquei tão aperreada, quase que eu perdia a noite de sono [...], eu cheguei até a discutir com ela, eu disse: ‘eu não gosto das minhas coisas feias, não, eu gosto de pagar certo’
[...] minha parte eu já quitei, agora só que meu nome ficou lá [na OSCIP1] sujo” (E2GS5), ou com pessoas desconhecidas, como aconteceu com MC1GS7, que desejava ficar com os recursos da prestação de E1GS7 e acabou reclamando com ela, ao dizer: “Mas, pelo amor de Deus, como você fez uma covardia dessa comigo” (E1GS7).
Do exposto, pode-se compreender que a violação da dignidade foi manifestada pelas pessoas que se sentiram prejudicadas, de alguma forma, pela não quitação do microcrédito.
Outras manifestações de violação da dignidade foram percebidas na pesquisa, a exemplo da sofrida pela idosa E2GS7. Ela fez o microcrédito para ajudar uma amiga da igreja e ela não pagou o empréstimo. Ela começou a ser cobrada e teve que procurar o esposo da amiga “Desculpa, seu ZZZZ, mas é que estão me pressionando, aí eu tô numa situação que só você pode me ajudar, me desculpe, que eu tô constrangida” (E2GS7). É importante salientar que ela já havia se sentido humilhada anteriormente, quando buscou solucionar o problema da quitação do empréstimo junto ao filho da amiga, um dos componentes do grupo, e que ele a tratou muito mal, pois ele disse “tanta coisa [...] pra mim, todo mundo tava ouvindo o que ele tava dizendo comigo. Eu saí morta, morta [...]. Eu fiquei com os olhos cheios de lágrima. [...].
Meu menino disse: ‘porque que a senhora ficou desse jeito’?”(E2GS7).
Outras manifestações de violação da dignidade foram percebidas por meio do processo de interação entre as pessoas, como o fato de perder a amizade, como foi o caso de uma idosa participante do GD:
Eu mesma tenho uma pessoa a quem eu arrumei R$ 1.500,00. Era amiga pras bandas voar. Era de comer aqui nas minhas mãos [gesticula com as mãos], e hoje em dia é a maior inimiga [...]. Eu vejo a hora o desmantelo e pronto, o que eu ganhei foi a intriga. [...]. Eu emprestei muito dinheiro a ela, pra ela pagar as prestações da Oscip, chegou aqui derramando lágrimas de sangue pra eu emprestar o dinheiro a ela, aí eu emprestei, perdi. (GD).
Ou, ainda, a de possuir manifestações por meio das emoções, a exemplo de E1GS2, quando diz: “quando eu lembro que paguei, me dá uma raiva” (E1GS2), ou de E3GS4, quando diz: “uma vez eu passei foi mico por causa dessa daí [apontando para o box da frente]” (E3GS4).
A violação da dignidade também pode ser observada por meio de assimetria de poder e assimetria de autoridade. No G5G e no GS7 havia uma relação entre patroa e empregada, mas não é qualquer tipo de empregado, está-se falando de faxineira, pessoas de baixa renda e baixa escolaridade, e que, muitas vezes, dependem de outros favores de suas patroas, a exemplo de “já pedi dinheiro emprestado, quando eu estava precisando e ela me emprestou sem cobrar juros” (E1GS8). Será que elas teriam como dizer que não fariam os microcréditos para as suas patroas? Em GS7, há uma assimetria de autoridade, pois uma mãe “pede ao filho” que faça o microcrédito e repasse o valor para ela, conforme pode ser evidenciado na caracterização dos grupos. Mas esse filho, quando iniciou o processo de tomada de microcrédito, tinha apenas 20 anos. Será que um jovem de 20 anos, religioso, teria como dizer não à mãe?
Mas o objetivo maior da pesquisa é observar os encontros de dignidade frente à aplicação dos recursos, ou seja, os encontros de dignidade sob a ótica do destino da aplicação de recursos, precisando-se avançar em mais alguns pontos até chegar ao objetivo final.
4.4.2 Encontros de dignidade entre os membros dos Grupos Solidários e entre os agentes de microcrédito
Na pesquisa, também foi possível observar a relação entre os membros dos Grupos Solidários e os agentes de microcrédito, em um processo de interação humana que pode
produzir encontros de dignidades tanto promotores quanto violadores da dignidade desses profissionais.
Há etapas do microcrédito que devem ser realizadas in loco, ou seja, no ambiente de trabalho dos tomadores dos empréstimos microcreditícios, mas nem sempre o acesso a esses locais é fácil, pois não há transporte urbano ou os índices de violência são altos,
[...] e o que é que eu faço para me proteger? Porque eu tenho uma vida e preciso zelar por ela. [...] Então, o que é que eu faço? Eu ligo pra o cliente e não vejo nenhuma prática errada. Aí eu ligo e digo assim: “a senhora pode me esperar na parada [do ônibus]”? Ou, então, assim: “a senhora pode me facilitar, assim, a senhora pode me dar uma carona”? [...]. O cliente tem a obrigação disso? Não, mas ele faz (EA3).
Dessa forma, evidencia-se que há uma ajuda, por parte de membros dos Grupos Solidários, no intuito de auxiliar o agente de crédito em sua tarefa, num encontro de dignidade que realiza promoção para ele. É comum histórias de violência para com o agente de microcrédito, e EA3 disse que conhecia “um agente de microcrédito que foi assaltado em uma das ruas do Grotão. E ele foi assaltado na visita e levaram o material dele e depois devolveram, porque ele é de lá” (EA3).
Outra evidência de relação existente entre o cliente e agente de microcrédito é a de confiança, posto quando houve um problema de desconfiança de que recursos do microcrédito haviam sido apropriados por uma líder que havia chamado
[...] a agente de crédito, que posteriormente confirmou que o valor liberado havia sido maior mesmo, no caso, havia sido liberado R$ 2.000,00, mas ela só havia repassado R$ 1.000,00. Eu pedi à agente de crédito para não comentar nada (EA3).
A pesquisa mostra que os agentes de microcrédito são vítimas dos membros dos Grupos Solidários, quando eles cometem uma fraude, ou seja, inventam mentiras para serem beneficiados com o microcrédito, conforme evidenciado no GS8 e no GS7, em que “E3GS8 cedeu sacolas de roupas para mostrar aos fiscais dos bancos” (E1GS8), ou, ainda, quando MC1GS7 disse a E2GS7 que “vai vir uma pessoa aqui, eu vou trazer umas roupas, aí você vai dizer isso, isso...” (E2GS7). Nesses dois Grupos Solidários, há evidências de violação da dignidade do agente de microcrédito, pois, entrevistando os agentes sobre esse tipo de possibilidade, eles colocaram que, quando a possibilidade de fraude, por meio de mentiras, existe, os agentes de microcrédito “sentem-se enganados” (AC1), ou ainda, “indignada, pois como vou adivinhar que uma senhora de 67 anos está mentindo para mim?” (AC4).
AC2 disse que, quando o cenário posto pelo cliente está bem montado, o agente de microcrédito “olha a mercadoria [...], faz as perguntas, os questionamentos e ele [empreendedor] explica tudo direitinho, aí você não tem como identificar, e é enganado mesmo” (AC2). Ou seja, aqui há mais uma evidência de que a dignidade do agente de crédito é violada por meio de relações fraudulentas por parte de membros de Grupos Solidários.
4.5 COMPREENDENDO O DESTINO DA APLICAÇÃO DOS RECURSOS DO