1 CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO
2.6 COMPREENDENDO O COACHING
Coach, palavra de origem inglesa, tem sua tradução para o português em seu sentido literal como "técnico" (CELESTINO, 2007), mas no contexto do coaching ontológico (e no contexto deste trabalho) pode-se dizer que coach é o profissional especializado no processo de desenvolvimento, ou um facilitador de aprendizagem.
O coach leva o coachee (pessoa que se submete ao processo de coaching) a refletir sobre sua forma de ser, fazer e ter – facilita a tomada de consciência e ajuda na definição de ações dirigidas aos resultados almejados pelo coachee.
No cólofon escrito por Echeverría no livro de Wolk (2003, p. 203), ele explica que o coaching nasce no domínio dos esportes. O coach esportivo é a pessoa que cuida/guia um esportista ou um time, com o objetivo de atingir níveis máximos de desempenho. O coach
esportivo intervém a serviço da geração de resultados precisos, trata-se da superação de uma marca e de garantir o sucesso perante o adversário.
Para conseguir isto, o coach esportivo procura identificar os fatores que interferem no resultado que se deseja atingir e busca desenvolver as condições e competências que facilitem seu sucesso, corrigindo hábitos inadequados que obstaculizam o desempenho daqueles que têm sob sua responsabilidade, desenvolve um conjunto de competências individuais como as de coordenação de ações dos membros de uma equipe, desenha estratégias tanto defensivas quanto ofensivas para enfrentar o adversário e, acima de tudo, procura elevar a confiança em si mesmos e a motivação dos esportistas para a consecução dos resultados. (ECHEVERRÍA, 2003, p. 203)
Para esses efeitos, o coach esportivo dispõe de um espaço particular para realizar suas intervenções: o treinamento, no qual prepara pacientemente os seus esportistas para assegurar neles novos padrões de comportamento e uma disposição emocional adequada para atingir os resultados propostos, e espera um resultado dentro de um intervalo delimitado de tempo e espaço, dentro de um jogo fechado, com regras claras e fixas. Além disso, na medida em que o tempo de desempenho é curto, a motivação necessária para atingir os resultados precisa durar o tempo do jogo, e seu foco está na maneira como se joga. Por último, o fato de que os esportes incluem um forte elemento competitivo ajuda ao trabalho do coach e facilita a motivação. (ECHEVERRÍA, 2003, p. 205)
Ainda segundo Echeverría (2003, p. 205), o coaching como disciplina genérica, capaz de ser exercida para além dos limites dos esportes, procura imitar e repetir em outras áreas os resultados que costuma exibir o coach esportivo. Todavia, na medida em que mais nos afastamos do território dos esportes, os desafios que os coaches começam a enfrentar são cada vez maiores.
Ainda assim, é importante dizer que surgem muitas modalidades de coaching que se mantêm fortemente apegadas ao padrão próprio do coach esportivo, obtendo assim resultados superficiais ou simplesmente efêmeros. Quando se busca atingir resultados profundos e estáveis em domínios de maior complexidade e extensão, o modelo esportivo apresenta limitações, embora mostre um caminho a ser seguido.
O coaching como atividade genérica procura desenvolver uma disciplina capaz de servir à identificação e dissolução dos obstáculos que os seres humanos encontram para a
consecução das suas aspirações. Nas empresas, e em geral, nas organizações, o coaching é utilizado para incrementar a efetividade no desempenho dos seus membros, equipes e processos. (ECHEVERRÍA, 2003).
2.6.2 O coaching na psicologia
Embora o tema do coaching seja atual, não se encontra pesquisa em número significativo sobre o tema. Em pesquisa realizada em 03 de março de 2011, no Portal da CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do Ministério da Educação (MEC), no Editor PePSIC (Periódicos Eletrônicos em Psicologia), que reúne uma coleção de revistas científicas em Psicologia e áreas afins, não foi encontrada nenhuma publicação sobre “coaching ontológico” num total de 682 edições de periódicos. Foram encontradas cinco publicações sobre coaching, mas de abordagens distintas ao ontológico, que fazem referência ao termo como objeto de estudo em si, ou seja, apenas como técnica ou ferramenta para mudança de comportamento, e em geral, no âmbito organizacional. (Anexo I)
Em outra pesquisa realizada em 16 de junho de 2011, também no Portal da CAPES, no SciELO (Scientific Electronic Library Online), que cobre as áreas de Ciências Biológicas, Saúde, Agrárias, Exatas e da Terra, Engenharias, Sociais Aplicadas, Humanas, Letras e Artes, e que inclui as coleções do Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, Espanha, Venezuela, Costa Rica, México, Perú, Portugal, Uruguai e o West Indian Medical Journal, foram encontradas 8 publicações em uma busca feita com a palavra-chave coaching, onde o termo aparece, em geral, como estratégia de intervenção de apoio (Anexo II).
Dos periódicos pesquisados, os que fazem menção ao coaching focam seus estudos na área de orientação profissional, vocacional, educacional, ocupacional e aconselhamento de carreira, comparando ou confundindo o termo coaching com outros facilmente localizados na literatura e que passaram a fazer parte do dia-a-dia organizacionais, tais como: mentoring, counseling, dentre outros, os quais podem ser encontrados em publicações, tanto na área da Psicologia quanto da Pedagogia e da Administração, mas que não são aprofundados neste trabalho. (SILVA, 2010)
Também é comum encontrar na literatura da área de Psicologia e áreas afins menção ao coaching de executivos, procedimento cada vez mais empregado pelas organizações. Segundo Germano Reis e Lina Nakata (2010, p. 61), há uma grande carência de modelos
teóricos e de pesquisas sobre esse assunto, embora haja um número expressivo de pessoas que praticam o coaching no mercado. Eles apontam em suas pesquisas a necessidade de se lastrear o coaching em evidências empiricamente mais consistentes, ainda que incorporando contribuições de conhecimentos já existentes nas ciências comportamentais e sociais.
No Mestrado em Psicologia da Universidade Católica de Brasília (UCB), onde se insere esta pesquisa, na área de concentração “Saúde, Cultura e Desenvolvimento Humano”, e na linha de pesquisa “Cultura Contemporânea e Relações Humanas”, que investiga as dimensões da cultura contemporânea que dizem respeito ao impacto sobre as relações humanas e sobre as subjetividades, das novas linguagens e tecnologias, novas estratégias e valores sociais, bem como suas expressões tradicionais, não foram encontradas pesquisas sobre coaching, nem sobre esse termo e correlatos relacionados ao tema da constituição do ser.
Já no Programa Mestrado em Gestão do Conhecimento e da Tecnologia da Informação (MGCTI), também da UCB, dentro do recém-criado Laboratório de Pesquisas sobre Conversas nas Organizações (LabCon), vários trabalhos sobre conversas nas organizações, aí incluído o tema do coaching ontológico, têm sido desenvolvidos. A título de exemplos, vale citar dois desses trabalhos: um em Blanco (2006) onde é feito um estudo sobre a prática do coaching no ambiente organizacional, e outro em Braga (2007), o único onde foca seus estudos sobre o “coaching ontológico”, e, neste caso, o coaching visto como instrumento de desenvolvimento de equipes de trabalho.
2.6.3 O coaching ontológico
O coaching ontológico, segundo Echeverría (2000), é uma arte, e não uma ciência enrijecida, ou uma técnica a qual aplicamos mecanicamente. No processo do coaching ontológico interferem fatores pessoais e circunstanciais que escapam à pretensão de o submetermos a normas rígidas. No entanto, o fato de ser considerada uma arte não invalida o fato de que esse tipo de conversação se apóie em bases teóricas sólidas, ou que devamos nos distanciar de um conjunto de competências concretas necessárias ao exercício do coaching (por parte do coach), ou que tenhamos que abandonar o rigor.
Em complemento a esta definição, o coaching é entendido por Wolk (2003, p. 23) como “uma disciplina, uma arte, um procedimento, uma técnica e, também, um estilo de
liderança, gerenciamento e condução”. Ainda segundo Wolk (2003, p. 22-23), coaching é um processo de aprendizagem, no qual o coach é poeticamente definido como um soprador de brasas – uma pessoa que ajuda a despertar o que está adormecido dentro do coachee –, um sócio facilitador da aprendizagem, que acompanha o outro em uma busca de sua capacidade de aprender para gerar novas respostas; “soprar brasas para se re-conectar ao humano com seu Deus perdido” (p. 23).
Wolk (2003, p. 24) diz ainda que o coaching é um processo provocador e desafiante, já que requer questionar (e questionar-se) as estruturas rígidas de nossa forma particular de ser. Coaching é um convite à mudança, a ser mudado, a pensar diferente, a revisar nossos modelos.
Para Reis (2011, p. 24-25), “coaching é aprender a desaprender”, é “[...] desenvolver um novo nível de consciência”. Estas definições, embora distintas das apresentadas por Echeverría, seja em sua forma, seja em conteúdo, denotam uma concepção polifônica do discurso desenvolvido a respeito do coaching.
De acordo com Echeverría (2005), uma das premissas centrais do coaching ontológico poderia ser dita assim: “diga-me o que observas e te direi quem és” (p. 26). Essa premissa traduz a capacidade do coach de observar a forma particular de ser da pessoa. A capacidade de transformação do mundo está associada ao poder de nossas interpretações. Essa capacidade de transformação associada às nossas interpretações traduz a forma de ver a linguagem como ação, como geradora de realidade e de ser.
O coaching ontológico permite à pessoa mover-se em uma determinada direção e deixar para trás suas antigas formas de ser. Ao se fazer isso, a pessoa passa a atuar de um modo diferente (através da linguagem). A ação, portanto, não é somente a manifestação de um determinado ser que se exibe ao mundo, mas também a possibilidade de que esse mesmo ser transcenda a si mesmo e se desenvolva um ser diferente (ECHEVERRÍA, 2005, p. 29). Mais importante do que conhecer e descobrir a si mesmo é participar ativa e responsavelmente do processo da nossa própria invenção, e o coaching ontológico serve a este processo.