CAPÍTULO 3 QUALIFICAÇÃO PROFISSIONAL NO MUNICÍPIO DE
3.2 MAPEAMENTO DOS CURSOS OFERTADOS PELA POLÍTICA PÚBLICA
3.3.1 Compreendendo os Cursos de Aprendizagem Identificados no Contexto
Por meio do mapeamento dos cursos ofertados pela política pública de qualificação profissional, foi possível identificar os seguintes cursos de aprendizagem:
QUADRO 5 - CURSOS DE APRENDIZAGEM OFERTADOS EM PONTA GROSSA - PR Cursos de aprendizagem ofertados em Ponta Grossa - PR
Instituição Curso Carga
Horária
SENAI
Auxiliar Administrativo e de Produção Industrial 815 Mecânica Automotiva Pesada 815
Mecânica Automotiva Leve 815
Eletrotécnica Industrial 815
Mecânica Industrial 815
Auxiliar de Suportes em Sistemas Computacionais 815
SENAC
Aprendizagem de Serviço Varejista 1000 Aprendizagem de Serviço de Supermercado 1000 Programa Municipal
Jovem Aprendiz
Práticas Administrativas e Bancárias 256
UEPG Auxiliar Administrativo 450
Fonte: Elaborado pela autora
Ao pensar sobre os cursos de aprendizagem existentes em Ponta Grossa, é possível perceber que a maioria dos cursos pode ser classificada na modalidade de cursos de baixa complexidade, sendo voltados para uma preparação mais pontual, salvo as exceções como alguns cursos ofertados pelo SENAI. É interessante o fato de que no universo de quatro instituições promotoras de cursos de aprendizagem, três possuem em seu rol cursos direcionados a práticas administrativas.
Será que essa é uma demanda do mercado de trabalho, ou seria um curso mais genérico e de fácil execução?
Com o intuito de compreender como se dá o processo de administração e implementação dos cursos de aprendizagem identificados, indagou-se aos gestores sobre o planejamento dos cursos, bem como a realização de pesquisas de mercado para saber quais as demandas existentes. Assim, se obteve as seguintes respostas:
"A estruturação dos projetos sempre se iniciam no nosso nacional que a gente chama. Então, a estrutura, o sistema S. [...] Bom, eles já têm essa gama de títulos prontos ou quando surge uma demanda das bases eles estruturam o curso" (Amadeu).
"Não pesquisamos o mercado para oferecer alguma coisa, não. Nós temos isso e é o que podemos dar e acreditamos que tendo essa ferramenta ele já vai estar mais preparado. Mas não há uma pesquisa de mercado. [...] O nosso curso não é voltado para isso, para oferecer alguma coisa para o mercado de trabalho, não" (Adriano). "O nosso curso é sempre Serviços Administrativos. [...] Nós pensamos nesse projeto de Serviços Administrativos, por quê? Serviços Administrativos existe em qualquer empresa. [...] Então nós não temos especificamente um ramo para encaminhar, um ramo de empresas para encaminhar. A gente encaminha para indústria, para comércio, para transportadora, hospitais. Em qualquer lugar a gente encaminha por serem Serviços Administrativos" (Sônia).
"Aqui o SENAI, ele trabalha muito com essa relação direta com as indústrias, com o mercado de trabalho. Então geralmente vem a oferta do mercado de trabalho para o SENAI [...]. Muitas empresas por exemplo sentem a necessidade de cursos de aprendizagem específicos para determinada empresa. Então a empresa procura o SENAI [...]. Então a gente percebe qual a necessidade teórica, quais os conhecimentos que o aprendiz deve ter para atuar naquela empresa, qual a parte prática, qual área ele vai ter que ter um maior aperfeiçoamento, uma maior qualificação" (Fabiana).
Diante das respostas, infere-se que no caso do SENAC e mais especificamente o SENAI, os cursos são pensados levando em conta as demandas advindas dos setores que essas instituições representam. Tal característica pode ser justificada pelo caráter institucional, onde são voltadas para atender especificamente determinados setores da economia, ou seja, indústria, comércio, serviços e turismo. Outra questão a ser considerada é que se trata de instituições que são mantidas com recursos de contribuições advindas desses setores. Assim, os cursos de aprendizagem, desenvolvidos por essas duas instituições, são planejados visando atender as demandas apresentadas pelo mercado de trabalho local, favorecendo a inserção dos jovens aprendizes em postos de trabalho, uma vez que já existem indicativos de oferta de vagas para as áreas a que os cursos são voltados.
No tocante às outras duas instituições, os gestores afirmam que não são realizadas pesquisas de mercado ou é adotada qualquer outra forma de identificar as demandas do mercado de trabalho. A gestora de um dos cursos afirma: "Serviços
Administrativos existem em qualquer empresa" (Sônia). Ao analisar tal informação,
como as possibilidades encontradas na dinâmica da execução, determina o curso a ser ofertado. "É de acordo com a nossa estrutura física, de acordo com o número de
pessoal, porque a nossa equipe não muda. Então os profissionais são sempre em número reduzido" (Sônia).
É interessante essa resposta da gestora, pois as demandas do mercado de trabalho são desconsideradas no planejamento do curso, pois o que fica evidente é que a amplitude que a formação em práticas administrativas e bancárias possibilita é o que determinou a opção por esse curso e não uma demanda vinda do mercado. Aqui aparece a ênfase na formação mais generalizada, voltada a atividades de fácil aprendizado, mas que não possibilita para esses alunos, a aquisição de conhecimentos específicos a uma determinada profissão.
No que se refere ao planejamento do curso executado pela UEPG, a dinâmica do mercado de trabalho, também, não é considerada. "Não pesquisamos o
mercado para oferecer alguma coisa, não. Nós temos isso e é o que podemos dar e acreditamos que tendo essa ferramenta ele já vai estar mais preparado" (Adriano).
Essa narrativa nos leva a refletir sobre as condições em que o curso foi planejado, visto que se trata de uma iniciativa desenvolvida em parceria com uma organização não governamental sem fins lucrativos (Instituto Educacional Duque de Caxias), a qual atende crianças e adolescentes do sexo masculino em regime de acolhimento institucional e educação infantil, o público atendido pertence, predominantemente, à classe mais empobrecida. Assim, o curso de aprendizagem ofertado pela UEPG, nasce de uma iniciativa vinculada a um caráter filantrópico, de ajuda, de voluntariado, pois parte de ações individuais de sujeitos ligados a referidas instituições que buscam atender uma demanda por qualificação profissional.
Ao pensar sobre a realidade do curso ofertado pela UEPG quanto pelo Programa Municipal Jovem Aprendiz, verificou-se que os mesmos foram implementados de forma desvinculada das demandas do mercado de trabalho. Também, é possível perceber a ausência do comprometimento da administração pública no desenvolvimento da qualificação profissional na modalidade da lei de aprendizagem, pois ambos os cursos, não possuem uma equipe de docentes para ministrar os conteúdos teóricos, pois não há verbas para a contratação de professores. Assim, os cursos contam com a ajuda de profissionais voluntários para executar a parte teórica.
"Os professores, são professores voluntários, não há pagamento, não tem dinheiro para ninguém. Na verdade a coordenação, os professores são todos voluntários que dão aulas para os meninos usando a estrutura da universidade, os laboratórios de computadores e outros laboratórios" (Adriano).
"Na verdade é a prefeitura que mantém. Agora quanto aos professores, como nós não temos condições de contratar professores, porque daí teria que ser através de concurso ou teste seletivo. Pelo que nós optamos? Pensamos e é dessa forma que vem sendo feita, através de parcerias com a universidade [...] " (Sônia).
Diante de tal dado, é possível visualizar empiricamente o movimento de desresponsabilização do Estado para com a qualificação na modalidade de aprendizagem, na medida em que os dois únicos cursos ofertados por instituições públicas, não possuem um quadro de professores contratados para ministrar as aulas teóricas. Assim, o poder público, na realidade dos dois cursos em questão, acaba por se responsabilizar apenas pela estrutura física, como no caso da UEPG e, por uma equipe administrativa, no caso do Programa Municipal Jovem Aprendiz. Tal situação evidencia que o direito à qualificação profissional acaba sendo deslocado do campo do direito (que deveria ser garantido pelo Estado), para ser transferido para o campo do voluntariado, dando um caráter de concessão e não de direito, uma vez que o próprio Estado não oferece as condições necessárias ao desenvolvimento dos cursos. O que fica visível é que ambas as instituições trabalham com as possibilidades existentes na realidade local, construindo formas alternativas de realizar a qualificação pela aprendizagem.
3.3.2 O Processo de Inserção e Acompanhamento dos Jovens Aprendizes no