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4.4. Cotidiano no Programa

4.4.5. Compreensão da língua portuguesa

Mais que o conhecimento suficiente para a aprovação no Celpe-Bras, que é exigido para ingressar no Programa PEC-G, os estudantes precisam de habilidades com a língua que permitam acompanhar as disciplinas, seja para compreender a fala dos professores ou para realizar as leituras solicitadas. Como visto no gráfico 14, 31% dos estudantes informaram que a dificuldade com a língua interferiu no desempenho acadêmico, essa dificuldade ocorre principalmente no primeiro semestre, na fase de adaptação em que os estudantes passam por situações que exigem um nível de conhecimento e domínio da língua que muitas vezes não estão preparados, o que leva ao baixo desempenho nas disciplinas, mas também serve como aprendizado. Para tentar entender melhor essa dificuldade vivida pelos estudantes, foi perguntado se no primeiro semestre na graduação os estudantes se sentiram capacitados para acompanhar as aulas presenciais, compreendendo a fala dos professores nas aulas presenciais e para realizar as leituras solicitadas pelos professores, compreendendo o conteúdo, assim como mostra o gráfico 17:

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Gráfico 17 - Dificuldades com a língua portuguesa

Fonte: Questionário aplicado aos estudantes PEC-G da UnB, 2018

O resultado do questionário apresenta uma grande dificuldade dos estudantes no primeiro semestre na graduação em relação a língua, 73% informaram não terem se sentido capacitados em algum dos dois aspectos apresentados neste período, e 44% não se sentiram capacitados nos dois aspectos. Muitas variáveis podem interferir nessas dificuldades, como a forma de o curso ou seus professores acolherem esses estudantes, o conteúdo da disciplina (se exige mais domínio do português), a língua de origem, qualidade e aproveitamento do estudante no curso preparatório para o Celpe-Bras e até o gênero do estudante.

As dificuldades foram divididas em dois aspectos, a compreensão da fala do professor, em que 51% informou que não se sentiu capacitado no primeiro semestre da graduação, e a capacidade de realizar as leituras solicitadas pelos professores compreendendo o conteúdo, em que 67% informaram não ter se sentido capacitado para realizar nesse período. Para entender melhor essa questão veremos algumas características dos estudantes.

Um aspecto a ser considerado é a língua oficial do país de origem do estudante, foi observado que em média dos dois itens da questão, entre os Hispano-falantes apenas 14% não se sentiram capacitados, já entre os estudantes de língua oficial inglesa e francesa juntos foram 67%, com maior dificuldade na leitura, 78%, já os de língua portuguesa 62% na média dos dois itens, destes, 67% não se sentiram capacitados para compreender a fala dos professores e acompanhar as aulas no primeiro semestre da graduação, contra 56% dos

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% Acompanhar as aulas presenciais, compreendendo a

fala dos professores(as):

Realizar às leituras solicitadas pelos(as) professores(as), compreendendo o conteúdo:

Ou seja:

Se sentiram incapacitados nos dois aspectos:

Se sentiram incapacitado em algum aspecto:

49%

33%

44%

73%

No primeiro semestre como aluno(a) de graduação

do PEC-G, você se sentiu capacitado(a) para:

96 anglófonos e francófonos juntos. Imagina-se uma menor dificuldade dos estudantes de países de língua oficial português, mas esses estudantes apresentaram dificuldades aproximadas aos de estudantes de países anglófonos e francófonos, pois apesar de terem a mesma língua oficial, a diferença na pronuncia dificulta a compreensão da língua, e além desse fator, muitos estudantes de países de língua oficial portuguesa informaram que tem outra primeira língua em seus países, como é o caso dos cabo-verdianos que se comunicam em “criolo”, e não na língua imposta pelos colonizadores, o português. Isso justifica a exigência do Celpe-Bras para estudantes de países de língua oficial portuguesa. Como exemplo:

No primeiro semestre não entendia o que professor ensinava em algumas matérias. Creio que pelo fato de o português brasileiro ter um sotaque diferente e os professores falavam rápido tive um pouco de dificuldades pra me acostumar, mas nada que me prejudicasse nesse semestre (Comentário estudante lusófono).

Alguns países aplicam a prova do Celpe-Bras, que é uma exigência para o candidato ingressar no programa, e nesses casos o candidato tem a vantagem de não precisar realizar o curso de português preparatório no Brasil no ano anterior, por outro lado, os estudantes de países que não aplicam o Celpe-Bras e que realizam o curso preparatório no Brasil, aprendem a língua em contato com a cultura brasileira, o que facilita a imersão na língua portuguesa através da prática da conversação na rotina do dia a dia. No questionário aplicado, entre os estudantes que realizaram o curso preparatório no Brasil 52% se sentiram capacitados para acompanhar as aulas e compreender o professor no primeiro semestre de aulas e 31% disseram se sentirem capazes de acompanhar a leitura solicitada pelos professores no mesmo período, já entre os estudantes que realizaram a prova em seus países de origem, as porcentagens foram de 40% e 35% respectivamente. Baseado nesses dados, entendemos que a realização do curso preparatório no Brasil, interfere positivamente na capacidade de entendimento da língua falada decorrente da prática vivenciada durante o curso no Brasil, já na capacidade acompanhar a leitura, não houve diferenciação, pois a porcentagem foi aproximada com leve vantagem para os estudantes que aplicaram o Celpe-Bras no seu país de origem. Exemplo:

Nos primeiros dias não entendia nada das minhas aulas sinceramente, e isso pode ser por realizar as aulas de português e CELPE BRAS fora do Brasil onde somente se fala português na sala de aula. Isso colocou agente numa situação de estudar com apoio de google Translate e com apoio dos amigos (comentário estudante).

97 Como visto no capítulo 2, o curso de português preparatório para o Celpe-Bras direcionado aos candidatos pré-selecionados no PEC-G, pré-PEC, é oferecido por algumas IFES, dentre elas à UnB. A metodologia e carga-horária das aulas são definidas pelas universidades, sem uma padronização do ensino, e por isso existe uma grande variedade na forma e qualidade de ensino destes cursos. O principal objetivo do curso é a aprovação na prova Celpe-bras, que leva em consideração não apenas aspectos textuais, mas, principalmente, aspectos discursivos: contexto, propósito e interlocutores envolvidos na interação, além de contar com avaliações integradas que envolvem compreensão e produção oral e escrita38, mas apesar dessa concepção, como visto acima, os estudantes apresentaram muita dificuldade com a leitura, 69%, e no entendimento da fala dos professores, 48%, no primeiro semestre de aula. Exemplo:

O que é ensinado nas aulas de português na minha opinião não foi suficiente para eu acompanhar os professores e as leituras (comentário estudante)

Nas respostas do questionário, foram identificadas diferenças significativas entre as dificuldades apresentas pelos gêneros, visto que as mulheres apresentaram menor dificuldade com a língua. Sendo que entre os homens 84% apresentaram algum tipo de dificuldade e entre as mulheres foram apenas 54%. Entre os estudantes que apresentaram dificuldade nos dois aspectos apresentados, foram 51% dos homens e 31% das mulheres. Já nas dificuldades específicas nas leituras e no acompanhamento das aulas, a porcentagem foi de 71% e 52% dos homens e 46% e 39% das mulheres, respectivamente.

Além das dificuldades apresentadas no questionário, houve relatos de dificuldades com as diferenças entre os sotaques de alguns professores, em outro caso o estudante disse que não entendia as piadas contadas em sala de aula, outros que precisaram buscar livros e vídeo aulas em sua língua natal para poder acompanhar às aulas. Um estudante comentou que a dificuldade maior era nos seis primeiros meses, e que caso “sobrevivessem” a esse primeiro momento seguiriam o curso tranquilo. Outro que a adaptação vinha com o tempo, e que precisariam que professores considerassem as dificuldades dos estrangeiros.

Entre as consequências das dificuldades vividas pelos estudantes em decorrência da língua, o desempenho acadêmico é afetado diretamente, principalmente nesse período inicial do curso. A dificuldade com a língua e/ou a consequente redução do desempenho acadêmico

98 também podem gerar outros problemas como doenças mentais ou sociais e também motivar a desistência desses estudantes. Os professores da graduação têm um papel muito importante em relação a dificuldade dos estrangeiros com a língua, pois pode considerar esse processo de aprendizado da língua nas avaliações ou indicar apoio ao estudante. Diante dos dados, observamos a importância do acolhimento em relação às dificuldades com a língua, tanto período do curso de português, quanto durante a graduação. Como observado, a complexidade do colhimento envolve aspectos de diferentes naturezas e atuações.