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4 O PREPARO DE VEGETAL

4.4 COMPREENSÕES DE COMO AS PALAVRAS

AFETAM O VEGETAL

Dentre todos os fatores apresentados como necessários ao preparo do Vegetal, o cuidado com as palavras é considerado decisivo. A realização das chamadas, assim como o uso da palavra durante as distribuições de Vegetal, é criteriosamente examinado pelos sócios, que buscam ―trazer palavras que venham fazer crescer a burracheira‖. E é a respeito desta relação que venho deter-me mais profundamente. Seguirei narrando alguns diálogos a partir dos quais determinadas concepções caianinhas são elucidadas, como por exemplo, a de que as palavras afetam o grau do Vegetal. Desta afirmação, suscito duas questões: como os discípulos da UDV compreendem que as palavras afetam o grau do Vegetal? Quais são as características de um Vegetal ponto grau?

Estas questões guiaram minha atenção e motivaram as perguntas feitas a meus irmãos, tanto em entrevistas quanto em conversas informais. Durante um preparo, em uma das pausas do

trabalho, eu e um irmão começamos a conversar a respeito de como as palavras afetavam o Vegetal, e eu lhe disse que uma das respostas recebidas por mim foi de que as palavras ficavam ―registradas no Vegetal‖. Compartilhei com ele que esta resposta ainda não esclarecia minha interrogação e perguntei-lhe sua compreensão. Ele assim me respondeu:

A gente está ali numa comunhão né? Tá preparando o Vegetal, quando a gente fala do cuidado, é exatamente a gente estar ligado pelo nosso pensamento e as nossas ações pra gente poder trazer as coisas dentro dos mistérios das palavras. Exatamente porque a gente vai se encontrar com esses mistérios, dentro do Vegetal que a gente vai beber na sequência. Então, por exemplo, vou falar uma coisa que é sujeito eu me encontrar com ela lá na frente? Eu, sabendo que não vai ser legal, eu não vou falar. Então, por exemplo, eu vejo, no meu entendimento [tom enfático], a gente está preparando mariri e chacrona, mas o que tem ali na panela? Água. E a água ela tem essa capacidade de registrar as coisas, entendeu? Então, eu vejo que fica ligado, por isso que fala bem assim, o pessoal no preparo tem que estar em harmonia, a irmandade tem que estar ligada, prestando atenção no que os outros estão falando, pra não trazer uma palavra que não vai ser legal, por quê? Porque a gente está querendo subir, levar pro alto, subir pra ter uma burracheira boa, um aproveitamento legal. O que eu vejo que grava, porque também grava em nós, que bebemos o Vegetal ali e estamos acompanhando. Grava em nós, na nossa memória. Eu entendo que é a água que tem essa capacidade (Irmão do corpo instrutivo – Florianópolis, maio de 2015).

Não é sem razão que ao dizer ―no meu entendimento‖ o irmão mudou o tom de voz para ser mais enfático. Pois a

compreensão tem um estatuto diferente daquela atribuído à palavra do Mestre Gabriel58. A compreensão de que as palavras ficam registradas no Vegetal em virtude da água ali presente é compartilhada por diversos sócios com os quais conversei. Este irmão aponta para uma capacidade da água em registrar a palavra, refletindo nos efeitos que o Vegetal apresentará. Para ele, a pessoa se encontrará com suas palavras e, consciente disso, busca falar palavras elevadas e positivas. Destaca também que pela comunhão com o Vegetal, os discípulos mantém sua atenção direcionada de modo que as palavras se gravam em suas memórias. A noção de comunhão é uma chave importante à compreensão de como ―as palavras circulam dentro de um preparo‖ ou em uma sessão.

Em outro preparo, perguntei ao mestre dirigente da distribuição como a água é capaz de registrar nossas palavras e ele respondeu-me:

A água tem uma memória. Alguns se perguntam se ela é matéria ou espírito, eu cheguei a conclusão de que ela é um ser misterioso. A água é uma condição da vida na terra, a água e a luz do sol. A água está presente no ar, o Reino Mineral é superior pois serve a todos os outros. Serve ao Vegetal e ao Animal, mas eu não estou querendo entrar muito nesse assunto (Irmão do quadro de mestres - Brasília, março de 2015).

Ainda a respeito desse tema outro mestre me disse: Com relação ao Vegetal, Mestre Gabriel disse assim: que todas as coisas que são faladas ali ao redor dos tachos, próximo as panelas, ali próximo das panelas ficam

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A compreensão é apresentada diversas vezes como uma forma de entender e ligar diversos ensinos do Mestre, ou responder a perguntas que não foram feitas ao Mestre Gabriel. Assim, ela indica uma diferenciação entre a palavra do Mestre Gabriel, as respostas que o Conselho da Recordação consolidou em relação aos ensinos e o estudo que um sócio pode fazer, apresentando um entendimento pessoal. Esclarecerei melhor esta questão no capítulo 5.

gravadas no Vegetal. Ele não falou assim 'ah, fica gravado na água', falou fica gravado no Vegetal. Porque se você estivesse com um copo de água lá, depois bebe na sessão a água, não é assim... é pelo Vegetal porque é a Hoasca que traz isso aí, entendeu? (Irmão do quadro de mestres - Florianópolis, abril de 2015).

Ele me explicou também que algumas pessoas relacionam a palavra do Mestre Gabriel a respeito do copo com água59, disposto na mesa do mestre dirigente, com a afirmação dele de que as palavras ficam gravadas no Vegetal. Toda sessão de Vegetal tem um copo com água, pois Mestre Gabriel disse que com o tempo aquela água vai gravando os fluidos das sessões. Em virtude desta palavra do Mestre Gabriel, algumas pessoas compreendem como, se ela tem capacidade de gravar é porque tem memória:

Mestre: Então, por aí você até pode imaginar, pensar, que a água grava né? Porque se ele falou que ali vai gravar com o tempo, fica gravando os fluídos da sessão...isso aí que ele falou, né? Aí você pode falar, a água tem memória. Porque se grava tem memória, né? É por isso aí. Mas ele não falou assim, não usou essa expressão, entende?

Eu: Isso já é um estudo que as pessoas fazem a respeito da fala do Mestre... Mestre: Da fala do Mestre e também de outros estudos que existem e as pessoas falam também, né? Não dentro da União do Vegetal. Tem a homeopatia, tem outros estudos que dizem que a água grava né? E aí, com essa palavra do Mestre Gabriel reforça e as pessoas falam, né? Assim... que a água tem memória. Mas vamos dizer assim, não é uma coisa matemática, vai lá grava e aí você bebe, entende? (Irmão do quadro de mestres – Florianópolis, abril de 2015).

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Esta é forma pela qual os estudos vão se constituindo: as pessoas compartilham suas reflexões interligando seus conhecimentos às referências existentes a respeito da palavra do Mestre Gabriel e dos ensinos da UDV. Enquanto o primeiro interlocutor apresenta a concepção de que a água registra as palavras como sua compreensão, o segundo afirma que ela tem uma memória, e o terceiro busca naquilo que conhece a respeito da palavra do Mestre Gabriel, uma diferenciação entre esta e o estudo feito por seus discípulos.

Pode-se notar, o terceiro irmão chama atenção ao contexto de enunciação da palavra do Mestre Gabriel, apontando dois enquadres distintos relacionados por alguns sócios para constituir uma explicação capaz de esclarecer como as palavras ficam registradas no Vegetal: o primeiro oriundo da palavra do Mestre Gabriel de que a água registra os fluidos da sessão e a dedução, articulando outros conhecimentos (a homeopatia, por exemplo), considerados evidências, de que a água tem memória.

Para este mestre, no entanto, as palavras ficam registradas não apenas no Vegetal mas por meio dele: ―é pelo Vegetal porque é Hoasca que traz isso aí, entendeu‖? Disso compreendo que o Vegetal não é somente depositário das palavras. A Hoasca realiza o registro delas. E como ela o faz? Esse é o mistério.

O estudo de cada discípulo é semelhante à elaboração de um mosaico, em que diversos fragmentos são organizadas com o intuito de desvendar o mistério. Seguindo esta metáfora, o mistério é uma imagem a ser re-produzida através do estudo: por meio das associações entre as palavras do Mestre Gabriel, as chamadas, as histórias da UDV e suas referências pessoais (por exemplo, a homeopatia), nós sócios vamos tecendo entendimentos a respeito destas mesmas palavras, chamadas e histórias.

As conversas relatadas aconteceram com pessoas e circunstâncias diferentes - os dois primeiros diálogos aconteceram durante um preparo, e o terceiro numa entrevista uma semana após o preparo – e em todas o estudo da água aparece como ligada ao preparo de Vegetal. Isto porque o preparo de Vegetal movimenta o estudo de aspectos da cosmologia caianinha ―ligados aos Reinos da natureza e aos seus elementos, a terra, o fogo, a água e o ar‖.

4.5 OS REINOS DA NATUREZA NA COSMOLOGIA