4.3 CARACTERÍSTICAS IDENTITÁRIAS DE GÊNERO ENTRE OS INTEGRANTES DAS
4.3.2 Compreensões e contradições sobre família e gênero
A fim de demarcar as influências das compreensões de gênero nas relações familiares foram investigadas as compreensões de família nas falas dos entrevistados e as possíveis diferenças apontadas pelos pais/homens entre famílias nucleares e famílias monoparentais. Buscou-se também verificar a possível atribuição de diferenças a famílias monoparentais com responsável homem ou com responsável mulher. O resultado desta investigação é permeado por contradições apresentadas pelos pais/homens que pretendem ser explicitadas e articuladas no decorrer do texto.
Questionado sobre possíveis diferenças entre uma família nuclear e uma família monoparental, P1 disse: “É, isso eu acho que é muito da educação, não adianta ter uma família com pai e mãe vivendo brigando, vivendo, não se dando bem [...]". Para o pai, parece ser mais importante criar condições para a educação "certa" e ter um relacionamento sem brigas do que manter o modelo de família nuclear. Ele destacou também que sua situação atual está "bem mellhor" do que antes da separação.
Sobre possíveis diferenças entre a monoparentalidade masculina e feminina, P1 disse que não há diferenças e nem tampouco problemas para um homem ou para uma mulher assumir as responsabilidades pelos filhos sozinho (a). Pontuou que as diferenças se dão para os filhos, conforme a seguinte fala:
“Eu acho que a diferença pra criança é a falta da mãe ou do pai que tão junto no dia a dia, né. Que com certeza as crianças sempre querem ver o pai e a mãe juntos. Mas, como eu falei, melhor ter um pai e uma mãe que se deêm melhor do que ter uma família interia que tão todo o momento todo brigando.”
Observa-se que, apesar de afirmar achar mais adequado que pai ou mãe cuidem sozinhos dos filhos, P1 destacou que "Que com certeza as crianças sempre querem ver o pai e a mãe juntos". Esta convicção do pai parece resgatar o modelo nuclear como a estruturação familiar ideal. Entretanto, se não houverem possibilidades de exercer com sucesso as funções para que este formato se mantenha, o pai parece achar mais adequado que o casal se divorcie.
P2, questionado sobre possíveis diferenças entre uma família nuclear e uma família monoparental respondeu: "Existe bastante. Existe bastante porque eu posso dizer que hoje, hoje eu sou um cara realizado e antes faltava algo pra mim e faltava algo pra eles. Então hoje eu acho que a gente conseguiu juntar o que faltava." Ao descrever o que é que faltava, o pai mencionou "Seria a atual mãe, ou a atual esposa, pra eles, pra mim". O pai também apresenta o modelo nuclear formado por pai, mãe e filhos. Este modelo familiar evidenciado nas falas de P2 parece representar a completude, o ideal de família.
Indagado sobre as possíveis diferenças no cuidar sozinho dos filhos sendo homem ou mulher, o pai também disse existirem muitas diferenças. A fim de exemplificá-las, destacou:
“É com o cuidado, é como eu disse antes ali, tinha muitas vezes que eu achava que seria daquela forma e não era. Que eu não conhecia os cuidados, não sabia o que, o que, é digamos, a decisão que tomar. E em dois ou, eu acho que é mais fácil né."
Com esta afirmação, P2 reitera o modelo de família nuclear como aquele que parece ser o ideal para que se possa cuidar dos filhos. Fica evidente na fala do pai que neste modelo familiar, pai e mãe assumem funções diferenciadas, uma vez que ele mencionou ter sentido dificuldades. Essas dificuldades, segundo o que foi exposto por P2, parecem atreladas, principalmente, a cuidar dos filhos e precisar conciliar este cuidado com o trabalho fora de casa. Se antes o pai trabalhava fora e a mãe cuidava da casa e dos filhos, depois da separação, além de continuar trabalhando, o pai precisou também cuidar dos seus filhos e da casa.
P2 parece novamente remeter-se à representação social de homem provedor que, por trabalhar fora, onde encontra o sustento da família, se afasta do cuidado dos filhos e cuidado da casa. Devido a esta diferenciação de funções que se estabeleceu na família de P2, o pai disse acreditar que é mais difícil para os homens assumirem sozinhos o cuidado dos filhos do que para as mulheres, conforme sua afirmação:
"[...] eu acho que a separação quando os pais ficam é mais complicado do que quando a mãe fica... Porque com o pai, o pai normalmente, quando ele se separa, normalmente o pai já tá se separando porque ele tá afastado um pouco, né. Que nem no meu caso eu não tava totalmente afastado, eu me separei por causa das coisas que vinham acontecendo em casa né, mas normalmente o que eu vejo assim, as separações são porque já tão meio que afastado um do outro e aonde acabam decidindo ficar longe mesmo. Mas os pais, eles, é mais complicado por eles não, já não ter, quando eles tem a família ali junto, normalmente eles saem pra fora pra buscar o que falta dentro de casa né, ou então o sustento da casa e, onde se torna que ele se desliga das coisas de dentro de casa. Quando já em caso de separação que os pais ficam, daí a pessoa já tem que mudar o modo de ver e quando vê, é totalmente diferente”.
P2 parece denotar uma contradição em sua fala, pois supõe-se que ele acredita que os pais/homens se divorciam por estarem afastados, enquanto que ele parece não compartilhar desta experiência. Conforme ele mesmo mencionou "Que nem no meu caso eu não tava totalmente afastado, eu me separei por causa das coisas que vinham acontecendo em casa né [...]". Disse também que depois de sair de casa precisou voltar atrás na sua decisão e solicitar a guarda dos filhos, o que corrobora este entendimento de que a sua vivência foi diferenciada dos outros pais que ele mencionou. A contradição aparece na evidência de que, no seu caso, ele também, assim como os outros homens, afastou-se de casa, dos filhos, da família, porém precisou repensar e modificar esta decisão, o que o diferencia dos demais pais citados por ele.
P3, buscando responder ao questionamento sobre possíveis diferenças entre famílias nucleares e famílias monoparentais, disse acreditar que existem muitas diferenças. O pai afirmou:
“Eu acho que assim oh, eu acho que um pai só, ou uma mãe só tem condições. Lógico, se a gente estivesse junto, talvez seria bem diferente. Porque o amor dos dois, do casal também influencia muito, eu penso né. Influencia muito o amor do casal, influencia muito na formação e também no que a criança pensa né, da vida, do casal. O amor que a gente tem um pelo outro transmite também pra eles né, pra eles terem uma noção do que que é o amor, também. E é lógico que isso é essencial, mas eu acredito que em certas situações, um pai ou uma mãe só, pode
realmente dar uma boa educação que um próprio casal, eu penso. Eu penso por esse lado. [...] porque eu acho assim oh, família, família consiste até no casal né. Família consiste no casal, então eu acho que se o casal se relaciona bem e, bom já falei tudo, se relaciona bem, né. E eu acho que, pra mim, é muito mais válido pra formação da criança, pra ela entender um pouco o que é a vida, o que é o amor, o que é o certo e o errado, acho que voga muito isso aí.”
Mais uma vez, observa-se a referência à família nuclear. P3 parece descrever o casal como a base da família e referiu que na falta de um dos genitores, o outro tem condições de “dar uma boa educação” assim como aquela que é dada pelo casal. Sua fala parece demonstrar certa valorização às famílias cujas bases se estruturem na conjugalidade, uma vez que ele definiu que este relacionamento estabelecido entre o casal é norteador das aprendizagens dos filhos.
Sobre possíveis diferenciações entre homens e mulheres assumindo sozinhos os cuidados com os filhos em famílias monoparentais, P3 disse:
P3: “Sozinho? Olha, eu acho assim oh, eu acho que a pessoa, o pai, ele tem que se doar um pouquinho mais, porque a mãe...”
Pesquisadora: “Se doar em que sentido?”
P3: “Em tudo né. Na atenção com o filho, aí na educação, no cuidado com a saúde, é no cuidado com o lar, com a casa né, porque daí é ele sozinho, antes era dividido as tarefas, né. Então, tanto ele quanto ela, a mãe. Mas eu acho que a pessoa se auto-supera né, na falta de outra pessoa ela consegue sim. Consegue porque se não, se eu não conseguisse eu não pediria a guarda. Porque eu tinha plena certeza que eu dava conta.”
Observa-se que, assim como P2, P3 também parece acreditar que o homem precisa se doar mais do que a mãe quando assume a guarda unilateral dos filhos. Embora P3 tenha referido que tanto o pai quanto a mãe precisam "se doar" para cuidar sozinho (a) dos filhos, ele afirmou que "[...] o pai, ele tem que se doar um pouquinho mais". Os dois pais indicaram que um fator dificultador para o homem seria a necessidade de assumir sozinho o cuidado com os filhos, o cuidado com a casa e o trabalho fora de casa. É interessante notar que, em nenhum momento estes pais fizeram referências que indicassem que quando a mulher
assume a guarda dos filhos, ela possivelmente precisará conciliar estas atividades também, assim como os homens.
Outro aspecto a ser destacado nas falas de P3 é que o pai parece compreender que se a mãe faltar, o pai tem condições para se responsabilizar sozinho, mas assim como P2, continua referindo a completude que pai e mãe representam. Em outro momento o pai disse também que sua ex-esposa já casou-se novamente, enquanto que ele ainda estava com o “coração fechado”, parecendo indicar que espera alcançar esta completude novamente.
A maioria das falas extraídas das entrevistas com os pais e discutidas nesta categoria parecem contrastar ou confirmar os padrões sociais hegemônicos de família e gênero com as experiências familiares e vivências de masculinidade de cada pai. Diante destas articulações evidenciam-se contradições, uma vez que as práticas cotidianas destes pais nem sempre correspondem aos ideais de família nuclear.
Sendo assim, a todo momento os pais parecem referir que o ideal seria ter uma família formada por pai, mãe e filhos, o que representa para eles a mencionada completude. Este ideal de família pode ser evidenciado quando todos os pais entrevistados utilizaram a palavra a falta em suas respostas quando ao entendimento de família. P1 disse que a diferença entre uma família nuclear e uma família monoparental é a “falta” que a mãe ou o pai faz para a criança. P2 mencionou que quando viveu a monoparentalidade “faltava” algo para ele e também para os seus filhos. Já P3 afirmou que um dos genitores é capaz de assumir a responsabilidade pelos filhos na “falta” de outra pessoa.
Entretanto, percebe-se que a família de cada um deles modificou-se, deixando de seguir este padrão de família nuclear, ao menos provisoriamente, no caso de P2. Diante deste contraste entre o ideal e o real, os pais parecem não referir problemas com o fato de suas famílias serem diferentes da família idealizada socialmente. Entretanto, evidenciam através de suas falas as contradições entre este padrão de família e as famílias que eles possuem.
Fonseca (2005) apresenta conceitos de “família” e “unidade doméstica” que podem auxiliar na diferenciação entre os padrões idealizados e reais de família. De acordo com a autora, a unidade doméstica leva em consideração apenas os moradores da residência, enquanto que a família extrapola os espaços da casa, pois precisam ser consideradas as dinâmicas das relações familiares. Pensar a família levando em conta apenas a unidade doméstica ou mesmo a estrutura nuclear fica aquém da realidade das famílias brasileiras, que costumam extrapolar dimensões espaciais e temporais. Conceituar e compreender família desta forma parece um desafio, tanto aos pesquisadores, quanto aos próprios pais, que conforme apontado, apresentam contradições entre a sua família e a família ideal.
Além disso, os padrões sociais de masculinidade e feminilidade vigentes parecem afastar os homens dos cuidados com seus filhos. Isto acontece tanto por considerar que cuidar é uma função feminina, quanto por atribuir ao homem o papel de provedor. Diante desta determinação social, parece que para esses pais/homens, ainda é um desafio fazer diferente.
A seguir é discutido de que forma as compreensões e contradições de gênero e de família marcam as relações familiares no tocante aquilo que os pais/homens descreveram sobre seus filhos meninos e filhas meninas.