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Compreensões sobre a mentoria e o papel de mentora

DAL-FORNO, J P.;

4. ELEMENTOS DAS TRAJETÓRIAS PESSOAL E PROFISSIONAL

4.3. MARIA CLAUDETE

5.1.2. Compreensões sobre a mentoria e o papel de mentora

Ao analisarmos as narrativas de Adriana, percebemos que suas compreensões sobre a mentoria e o seu papel de mentora se evidenciaram, principalmente, ao narrar sobre o acompanhamento das professoras iniciantes (PIs), as ferramentas digitais e suas aprendizagens no programa; além de ficarem evidentes nos momentos em que ela destacou diretamente essas questões.

Ao se referir diretamente sobre a mentoria, Adriana relatou:

Para mim, a mentoria, enquanto processo formativo, significa aprendizagem constante; trocas de experiências e conhecimentos; interação; parceria; reflexão; ensino e aprendizagem. (Adriana, reflexões de aprendizagens, módulo VII, março/2019)

Desse modo, a mentora pontuou alguns elementos que considera que sejam primordiais no trabalho de mentoria, demonstrando sua percepção sobre esse processo.

Ao narrar sobre o acompanhamento das PIs, ela descreveu que foi na prática que pode entender um pouco melhor sobre a mentoria. Assim, a prática pareceu ocupar um espaço fundamental, no que diz respeito à aprendizagem de seu papel, pois, segundo Adriana, foi a partir do contato real com as PIs e do desenvolvimento de sua assessoria que ela passou a entender como seria o trabalho como mentora. Além disso, uma característica

que pareceu fazer parte do papel de mentora, pelos seus registros/relatos, é o “resgate” dos professores iniciantes (ir atrás dos PIs quando passam um tempo considerável sem dar retorno); sendo bastante recorrente em suas narrativas.

Ainda considerando suas narrativas sobre o acompanhamento das PIs, Adriana pontuou que suas principais aprendizagens desse processo foram ter mais paciência, falar de uma maneira que não assuste as professoras iniciantes (sem muitas cobranças) e ter mais empatia. Dessa maneira, podemos observar alguns destaques que envolvem certos aspectos/determinadas características pessoais que a mentora considera importantes para o trabalho de assessoria.

Com relação às ferramentas digitais, os relatos de Adriana revelam que ela considerou o ambiente online potencializador da interação entre ela e as PIs, por possibilitar uma comunicação mais dinâmica e que considera o tempo de cada uma para poder acessar a ferramenta; sem ter um lugar e hora determinados para isso. Além disso, segundo a mentora, o ambiente virtual também possibilitou uma variedade de ferramentas para que pudesse trabalhar com as PIs e a auxiliou a encontrar certas necessidades formativas das iniciantes. Entretanto, ela também destaca que algumas ferramentas digitais, como o WhatsApp, embora ofereçam uma agilidade maior no contato, não possibilitam uma conversa muito extensa e reflexiva. Essas considerações de Adriana demonstraram compreensões sobre a mentoria e seu papel de mentora ao explicitarem certos limites e potencialidades que percebe em algumas ferramentas digitais ao exercer seu trabalho de assessoria.

Ao narrar sobre o programa de mentoria e suas aprendizagens, a mentora considerou que o PHM superou suas expectativas, pois além de ter aprendido muito com as trocas de experiências, pode rever seus conceitos e princípios e refletir sobre sua própria prática. Assim, ela pontuou que:

[...] aprendi muito com os materiais disponibilizados para leitura; com os momentos dedicados à reflexão de conceitos e temas relevantes para a nossa formação como mentora e docente, bem como com os momentos presenciais em que todos tinham a oportunidade de expressar suas dúvidas e opiniões. (Adriana, avaliação final, módulo II, agosto/2017)

Desse modo, Adriana destacou que foram muitas as suas aprendizagens, desde a aquisição de habilidades para lidar com as ferramentas digitais até o entendimento de desenvolver atividades com as PIs e elaborar feedbacks e portfólios. Assim, a mentora acentuou que as aprendizagens foram além do próprio trabalho de mentoria e impactaram em sua própria prática docente.

Diante disso, ao refletir sobre o programa, enfatizou:

Eu percebo que o programa foi tendo um “crescente” [...]. Eu sinto que começou com a gente sem saber o que estava fazendo aqui e tentando entender o que era o programa. Então, chegamos sabendo que ia ter relação com professor experiente e iniciante, mas não sabíamos exatamente o que era. Tanto a questão de curso e programa, foi durante a formação que a gente conseguiu distinguir que não era um curso, era um programa. Então, eu vejo que no início tivemos aquele primeiro período de formação, de entender o programa, conhecer o programa, ajudar a ir construindo como seria essa mentoria com as PIs e, ao mesmo tempo, a nossa própria formação, de conteúdo, de ser uma mentora e de saber como funciona isso, até [chegar] hoje, que a gente tem tanto a formação quanto o acompanhamento das PIs ao mesmo tempo. (Adriana, entrevista, módulo VII, abril/2019)

Essas narrativas revelam que as aprendizagens de Adriana sobre a mentoria não apenas apresentam características que ela considera importantes para seu exercício de mentora, mas também o impacto da formação como mentora em sua prática docente. Relatos sobre esse impacto da mentoria em suas práticas, inclusive, são recorrentes em suas narrativas. Além disso, podemos perceber indícios do processo de formação da mentora ao ir deixando de considerar o PHM como curso e passar a entender a proposta construtivo- colaborativa (MIZUKAMI, 2002, 2003) do programa.

Propriamente sobre os aspectos da mentoria, Adriana demonstra tê-los evidenciado ao considerar ter cumprido de maneira adequada alguns deles:

Os aspectos que acredito ter gerido bem foram: dedicar um bom tempo para elaborar os feedbacks para a PI e sempre contar com a ajuda da tutora; enfatizar e elogiar o trabalho realizado pela PI; enviar mensagens de resgate quando a PI não acessa o ambiente regularmente; retornar todas as mensagens enviadas pela PI. (Adriana, autoavaliação, módulo IV, março 2018)

Neste sentido, ao falar sobre o que considera ter gerido bem é possível percebermos elementos que a mentora compreende serem importantes para a mentoria e para um bom acompanhamento da PI. Assim, segundo Adriana, ela realizou suas atividades com muita responsabilidade, teve iniciativa ao interagir com as PIs, propor atividades e realizar feedbacks, respeitou os prazos de entrega das atividades do programa, buscou levantar questões que desafiassem as professores iniciantes a refletirem sobre suas práticas, bem como procurou sempre refletir sobre sua prática como mentora e docente. Ainda, ela pontuou que se dedicou para aprimorar sua escrita e que esse empenho teve como resultado uma interação mais ativa e melhores retornos em sua assessoria.

Desse modo, percebemos que esses aspectos destacados pela mentora também revelam elementos que ela considera importantes para a mentoria e, além disso,

demonstram que ela reconhece um avanço em sua formação quando considera que sua escrita melhorou com o tempo de atuação como mentora.

Ao se referir especificamente ao papel de mentora também considerou algumas características importantes:

[...] primeiro, uma mentora tem que ter experiência, porque não tem como elas ser mentora de alguém se não tem experiência naquele assunto. Ela tem que dominar também os conteúdos daquela área [...] ter um conhecimento da área, do que você tem que fazer. Ser uma boa ouvinte. Eu acho que o que elas querem mais, às vezes, é que alguém escute os problemas delas [...]. Na questão da interação, você tem que conseguir estabelecer uma relação, uma interação de confiança [...]. (Adriana, entrevista, módulo VII, abril/2019)

Assim, ao considerar se possui essas características que elencou, Adriana destacou:

[...] olhando agora, eu percebo que tenho algumas características, como a experiência, mas não sei tudo, tem conteúdo que precisava saber mais. Tento ouvir, não sei se eu sou uma boa ouvinte, mas eu percebi isso e estou tentando fazer esse trabalho de ser uma boa ouvinte para elas, tento ouvir as demandas delas e tento responder na medida do possível. Então, eu acho que um pouco delas eu tenho, mas preciso melhorar ainda. (Adriana, entrevista, módulo VII, abril/2019)

Diante disso, ela reconhece que precisa melhorar alguns pontos para poder construir certas características que considera adequadas para o trabalho de assessoria, mas, também entende que melhorou bastante desde o início de sua formação como mentora:

[...] eu já não sou mais aquela pessoa que não tinha ideia, hoje eu vejo que eu sei o que uma mentora deve fazer e acho que estou caminhando dentro da mentoria, mas, ainda acho que preciso melhorar mais. (Adriana, entrevista, módulo VII, abril/2019)

Ao narrar sobre os recursos que utiliza para o exercício de mentoria, Adriana pontuou:

Bom, eu utilizo mais fontes daqui do grupo mesmo, da nossa formação. [...] eu procuro muito no próprio programa, porque eu acho que a gente tem até medo de procurar fora e pegar algum material que não é tão bom [...]. Às vezes, converso com as colegas mentoras e procuro os tutores. [...] Também pego alguma coisa, que nem aquele vídeo [...] que já era de um material que eu conhecia, que eu tinha feito o curso. [...] Então, eu pesquisei; conversei com o tutor e com outras colegas; com profissionais especializados também, quando falei com as professoras do AEE. Acho que as fontes e os recursos são esses. (Adriana, entrevista, módulo VII, abril/2019)

Assim, a mentora compartilha que não costuma pesquisar muito para procurar recursos para trabalhar com suas PIs e acaba recorrendo, majoritariamente, à própria formação que recebe no programa.

A partir do exposto, podemos perceber que Adriana revelou alguns aspectos e características que considera importantes para o exercício da mentoria, bem como elucidou

certos elementos de sua prática como mentora. Em suma, sobre o acompanhamento dos PIs, a mentora destacou a importância da prática para a aprendizagem de seu papel e do “resgate” contínuo desses professores iniciantes para que seja possível realizar o trabalho de mentora. Considerando as ferramentas digitais, Adriana pontuou certas potencialidades e limites das ferramentas do ambiente virtual para a interação e trabalho com as iniciantes. Levando em conta as aprendizagens da mentora, o uso das tecnologias digitais, as reflexões, a formação como mentora, o impacto da mentoria em sua prática docente, entre outros, se destacaram. Com relação aos trechos em que abordou diretamente sobre a mentoria e o papel de mentora, Adriana enfatizou de modo recorrente as aprendizagens constantes, as trocas de experiências e conhecimentos, a interação, a reflexão, os feedbacks, a experiência, a aprendizagem contínua, o tempo, a paciência, a confiança, dentre outros. Neste sentido, podemos inferir que tais percepções sobre esses elementos/características influenciam a construção de sua identidade de mentora e revelam a imagem de mentoria construída por Adriana, bem como o seu estilo de ser mentora: que se preocupa em resgatar os iniciantes e a mantê-los interessados no programa, que busca melhorar sua escrita para aprimorar seus feedbacks e trabalhos na assessoria, que tenta refletir e fomentar reflexão nos iniciantes sobre o processo de mentoria e sobre suas práticas e contextos docentes, que espera aproveitar ao máximo as aprendizagens novas que está construindo e levar isso para sua realidade enquanto professora e que se preocupa com o seu comprometimento, dedicação e engajamento no programa.