2 ADOLESCÊNCIA E USO DE DROGAS: EXISTEM RELAÇÕES?
2.2.7 Comprometimento ideológico versus Confusão de valores
“Do que dissemos até agora, podemos atribuir à ideologia
a função de oferecer ao jovem: (1) uma perspectiva
simplificada do futuro..., (2) uma correspondência
fortemente estabelecida entre o mundo íntimo de ideais e
perversidade, e o mundo social com suas metas e
perigos; (3) uma oportunidade para exibir alguma
coerência entre aparência e comportamento...; (4)
incentivos para uma experimentação coletiva de papéis;
(5) introdução aos valores éticos da tecnologia
predominante e, portanto, à competição sancionada e
regulamentada; (6) uma imagem do mundo
geográfico-histórico como quadro de referência para o início da
identidade do jovem; (7) um fundamento racional para um
modo de vida sexual...(8) submissão a líderes, no
momento adequado...” (Erikson, 1968, p. 187-188)
O comprometimento ideológico, para Erikson, revela a capacidade
organizar suas experiências passadas e atuais, com vistas às aspirações
futuras. A crença do adolescente de que seus valores e objetivos são
significativos, no contexto social mais amplo, contribui para o evitamento das
experiências de confusão de autoridade e de valores.
Erikson sugere que a construção de uma ideologia pessoal contribui
para que os jovens possam solucionar seus conflitos da crise de identidade,
assim como também os conflitos da última idade do homem, ou seja, a
“integridade versus desesperança”. Salienta, ainda, que a formação de uma
identidade se constitui num processo extremamente complexo, sendo
influenciado pelas instituições, sociedade e cultura nas quais a pessoa está
inserida. Nesse processo, também, há amplas variações individuais, sendo que
a transição, para cada jovem, será muito particular “... cada sociedade e cada
cultura institucionaliza uma certa moratória para a maioria de seus jovens. Na
sua maior parte, estas moratórias coincidem com aprendizados e aventuras
que se harmonizam com os valores da sociedade.” (Erikson, 1968, p.157)
A adolescência, na perspectiva eriksoniana, é um período de
transição em que o adolescente deve passar por experiências diferenciadas
para que tenha a oportunidade de explorar os vários aspectos de seu eu.
Acredita-se que “não pode haver um crescimento pessoal que leve a um firme
sentimento de identidade, sem que ocorram certos conflitos.” (Gallatin, 1978,
p.229)
Para ilustrar as relações desse conflito com o uso de drogas, foi
“Eu penso que o usuário de droga, no mínimo, não possui
um sentido para sua própria vida. Não tem segurança nos
seus objetivos pessoais, aí tenta fugir. Não confia nos
seus ideais, tem medo do futuro. Fico pensando, também,
que nem sempre a família e a sociedade dão uma mão. O
adolescente é todo confuso, usa droga, curte uma onda e
vai indo até ficar dependente”. Conheço muitos colegas
que se sentem assim e usam, eu me senti assim algumas
vezes e usei algumas vezes. Só que agora eu saí desta,
não dá para continuar, comecei a fazer tratamento. Agora
estou fora mesmo, mas custei para enxergar isto. Estou
em outra agora.” (Marcos, 16 anos, 1ºB,24/10/00 -
Grupo2)
2.3 Experimentação das Drogas na Adolescência – explorando alguns
dados
Os estudos estatísticos atuais revelam a cada ano o aumento do uso
das drogas, principalmente, pelos adolescentes. O início do uso tem atingido
uma faixa etária cada vez mais jovem, variando entre os dez e os doze anos,
quando não menos e abarcando os sexos feminino e masculino
(CEBRID,1997). Essa situação atinge pessoas de diferentes grupos sociais, o
que permite afirmar que o uso de drogas responde a aspectos sociais,
econômicos, culturais, biológicos e psicológicos diferenciados. Com isso, é
possível dizer que a ocorrência do uso e/ou abuso não se dá em um grupo de
risco pré-determinado. Os dados estatísticos demonstram tanto a aceleração
do uso de drogas lícitas (álcool, tabaco e medicamentos) quanto de drogas
ilícitas (maconha, cocaína, crack e etc). Com relação a faixas etárias abaixo de
menos favorecidas, uma vez que tais crianças, muitas vezes, são colocadas
em situação de trabalho cada vez mais cedo.( Almeida, 1999)
Dentre os vários aspectos que envolvem o uso e o abuso de drogas
na adolescência, os estudos atuais têm se preocupado em compreender os
motivos individuais que levam os jovens a usarem e/ou abusarem das drogas.
Os motivos variam desde a curiosidade até a busca de saídas para os conflitos
da própria existência.(CEBRID, 1997)
De acordo com os adolescentes entrevistados, os conflitos
nucleares vivenciados no período da adolescência parecem estar associados
ao uso e/ou abuso de drogas sem, contudo, obscurecer a influência social com
relação, principalmente, ao consumo de drogas lícitas, como é o caso do
tabaco e álcool
5, que são amplamente difundidos e tolerados entre os adultos.
A questão do uso de drogas abarca uma complexidade de aspectos,
o que torna inútil tentar compreendê-los de forma unilateral. Entretanto, parece
notório que o período de maior prevalência para o uso é o da adolescência,
justamente por ser uma fase de busca de auto-afirmação e formação da
identidade. As confusões apresentadas nos conflitos nucleares dessa fase da
vida parecem contribuir para a iniciação e o abuso das drogas. Os relatos dos
adolescentes, colhidos em campo, confirmam a afirmação.
Sem deixar de considerar os aspectos que não são de ordem
psicológica, já que a questão do uso de drogas na adolescência não deve
convergir para um ponto único (nos próprios relatos é possível perceber as
com outros aspectos, sejam de ordem social, cultural, biológica, etc), foi
possível evidenciar que a formação da identidade e a consciência da
aproximação de uma vida adulta revelam-se bastante conflituosas. Por vezes,
a nova consciência de si mesmo oferece insegurança e a droga,
aparentemente, fornece um alívio para esse momento de confusão. Mesmo
que não seja a maioria dos adolescentes que busque essa possibilidade para
atenuar o sentimento de angústia da crise de identidade, ainda assim, faz-se
necessário intrumentalizá-los para evitar que, para alguns, a possibilidade de
saída da crise seja uma opção superficial. E é esse um papel importante da
escola e ao qual ela hoje não pode se furtar.
Após o estudo dos aspectos psicológicos relacionados à
adolescência, as seções posteriores visam a descrever e analisar as variáveis
mais importantes reveladas na pesquisa.
Para melhor visualização das variáveis obtidas em entrevistas com
os dois grupos de adolescentes e com os professores, sugere-se recorrer aos
quadros relativos às perguntas norteadoras da pesquisa com as respostas
mais comuns, que se encontram no anexo B.
5
O IV levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras, 1997,
realizado pelo CEBRID constatou que o uso inicial da maconha pelos estudantes está situado numa porcentagem de
7% a 10%, enquanto a do álcool é de 70% a 80% e o tabaco , 30% a 40% em média.
No documento
acervo.paulofreire.org Este documento faz parte do acervo do Centro de Referência Paulo Freire
(páginas 48-53)