COERENTE COM A VOCAÇÃO PÚBLICA METODISTA
3. Pistas para uma inserção coerente com a vocação pública
3.3 Compromisso com a educação e com a criança
Tal como foi mencionado anteriormente, John Wesley não se cansava de orientar sobre o cuidado com as crianças, e o pregador que não soubesse falar com crianças teria que praticar até conseguir, ou não servia para ser um pregador metodista.
Essa postura é fruto da metodologia enérgica de sua mãe Susanna e resultado de como ele mesmo havia sido cuidado na infância: “Para formar as mentes das crianças, a primeira coisa a fazer é subjugar sua vontade e levá-las a um temperamento obediente” – Susanna estava adiante de seu tempo nessa área específica.202
Havia um “regulamento interno” na casa dos Wesley no qual constava seguinte: “Nenhuma ação pecaminosa como mentira, pequeno roubo, brincadeira na igreja ou no dia do Senhor, desobediência, briga, etc, passa-se sem castigo”. Entre as regras do clube santo consta as seguintes perguntas: “Será que não podemos tentar fazer o bem para os que estão famintos? Não podemos contribuir o pouco que temos para que seus filhos tenham roupa e sejam ensinados a ler? Não podemos ver se não ensinadas, sem catecismo, as orações curtas para a manhã e a noite?”.203 A tríade sobre as questões sociais, docentes e relativas à criança aparecem em toda a obra wesleyana, sendo o mote da criança um viés para o excluído em
RAMOS, Luiz Carlos (Org.). Mil vozes para celebrar: tricentenário do nascimento de Charles Wesley. São Bernardo do Campo: Editeo, 2008, p. 36, 43 e 50.
201 Id. ibid., p. 17 e 21.
202 HEITZENRATER, Richard. Wesley e o povo chamado metodista, p. 26.
203 REILY, Duncan A. Wesley e as crianças. In: JOSGRILBERG, Rui S.; RENDERS, Helmut; RIBEIRO,
Cláudio O.; SOUZA, José C. (Orgs.). Teologia e prática na tradição wesleyana: uma leitura a partir da América Latina e Caribe. São Bernardo do Campo: Editeo, 2005, p. 13-5.
geral, tal como a mulher, que o movimento acolheu e o leigo, que tornou-se um recurso essencial.
Numa época em que não havia escola pública e os pobres eram esquecidos pela Igreja, Wesley e seus companheiros se mobilizaram para conseguir ajuda de fora, pagar uma professora, vestir as crianças e até ensinar as primeiras letras e os rudimentos da religião. Wesley admitia crianças na Ceia do Senhor e no batismo, e depois de visitar alguns orfanatos decide comprar o terreno para construir um prédio escolar “para que os filhos dos mineiros pudessem saber as coisas que fazem a sua paz, com algumas pequenas salas para acomodar os mestres-escolas (e, talvez, se agradar a Deus, algumas crianças pobres) morarem”.204
Quando John então funda essa escola nas instalações das minas de Kingswood, estava especialmente preocupado com aquelas crianças pobres que deviam não apenas aprender a “ler, escrever e fazer contas, mas antes particularmente (com a ajuda de Deus) a ‘conhecer a Deus e Jesus Cristo a quem Ele enviara’”. A paróquia de Wesley não era apenas sem fronteiras e sua congregação sem linhagem, mas seu conceito de ministério era sem limites, desde que as atividades estivessem de acordo com a visão bíblica do cristianismo, ajudando as pessoas a receberem a total salvação que Deus trouxe à humanidade.205
A Fundição também acolheu crianças para o ensino, conforme mencionado anteriormente, e o Centro Metodista de Newcastle recebeu o nome “Orfanato” por causa das visitas anteriores de Wesley a eles em Halle, e foi uma história muito similar a Kingswood.
Wesley viu o valor do ramo da educação por meio da Escola Dominical como “uma espécie de caridade mais nobre que se estabeleceu desde o tempo de Guilherme, o Conquistador”. Via que era uma excelente instrumento para o reavivamento da religião por toda parte da nação e escreveu em seu diário depois de visitar a escola dominical em Bingley:
Tantas crianças (240) numa paróquia são impedidas da prática de pecados, e ensinadas nas boas maneiras, pelo menos, bem como ler a Bíblia. Por onde quer que eu ande, encontro destas escolas nascentes. Quem sabe se Deus não tem um propósito mais profundo para elas do
204 Id. ibid., p. 16-7.
que os homens reconhecem? Quem sabe se algumas delas serão sementeiras para os cristãos? 206
Quanto à escoa dominical em Newcastle, Wesley a considerou “uma das melhores instituições vistas na Europa por alguns séculos”. Mesmo aos 80 anos, depois da pregação as crianças o cercavam na rua e corriam ao redor de Wesley, ao que ele testifica que “não ficaram satisfeitas antes de eu apertar a mão de cada uma delas” – o que é revelador do seu amor para com os pequeninos. E as crianças correspondiam a esse amor, encontrava entre 50 e 60 crianças na reunião das 5 horas da madrugada, e falava com esperança da geração que se levantava. Wesley se orgulhava das crianças:
Reuni entre 900 e 1000 crianças pertencentes às nossas Escolas Dominicais. Nunca vi tal cena antes. Estavam todas limpas e vestidas com simplicidade, sérias e bem comportadas. Quando cantaram em conjunto, ninguém desafinou e a melodia era melhor do que a de qualquer teatro. E o que é melhor de tudo, muitos verdadeiramente temem a Deus e alguns se regozijam na sua salvação. São modelos para a cidade inteira. 207
Charles Wesley escreveu em seu hino para crianças cantado na inauguração da escola de Kingswood: “Unir os dois separados há tanto tempo: conhecimento e piedade vital, aprendizado e santidade combinados, verdade e amor”. A frase pessoal de John e a expressão poética de Charles, nessa conexão essencial, entrelaçaram doutrina e disciplina, produzindo profunda influência sobre o movimento.
Posteriormente, Charles preparou hinos especiais para crianças com linguagem simples, porém exata, pura e forte. Eles foram reunidos num hinário intitulado “Hinos para crianças de anos mais maduros”208, os quais tiveram um lugar importante no trabalho com crianças. Igualmente, John preparou uma coleção de orações especialmente para as crianças. Um comunicação metodista inserida na mídia segundo a vocação pública do metodismo deve ter a criança, a mulher, e os excluídos em alta estima, tendo nele um público-alvo independentemente do retorno – financeiro ou de outra ordem – que possa ter, especialmente no tema da construção de uma rede de proteção da criança e do adolescente, da violência doméstica, do abandono de idosos, desempregados, etc.
206
REILY, Duncan A. Wesley e as crianças, p. 22.
207 Idem.
Em seu sermão “Sobre a educação de crianças”, Wesley escreve, em 1783:
Como a única finalidade de um médico é restaurar a natureza ao seu estado próprio; então, a única finalidade da educação é restaurar nossa natureza racional ao seu estado apropriado. [...] E, como a medicina pode justamente ser chamada a arte de restaurar a saúde, então, a educação pode ser considerada, sob outro aspecto, como a arte de recuperar, para o homem, a sua perfeição racional. 209
De acordo com essa compreensão, a educação contribui para a restauração do ser humano, e o tema se tornou uma marca metodista. Uma educação contínua para crianças e adultos de todos os sexos, povos e classes sociais fortalece a santidade e o amor para com Deus e o próximo, é “saúde” – uma das raízes da palavra “salvação”.