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PARTE II: ANÁLISE E DISCUSSÃO

Caixa 5.11 Compulsão e feedback

“eu vejo que a minha irmã está sempre agarrada ao telemóvel. Quando não estão juntos ela comunica muito com ele…sempre…desde o momento que se afastam…ela começa logo a mandar mensagens”

E1 (15 anos; 10º ano, sexo feminino)

“eu acho que uma coisa má nas sms’s (entre namorados) é que uma pessoa consome muito a outra pessoa…eu acho que com muitas mensagens ou falar demasiado tempo com a pessoa, depois cansamo- nos dessa pessoa e acabamos por nos fartar dela…acho que é algo que leva as pessoas a acabarem as relações…”já sei tudo o que há a saber sobre a rapariga e perdi o interesse em estar com ela”

“acho que hoje em dia quanto menos se contactarem melhor…acho que se trocam demasiadas mensagens entre namorados…acho que deveria ser menos…acho que se fartam rapidamente um do outro, engolem- se quase um ao outro, chuva de mensagens e telefonemas…ficam horas e horas agarrados ao telemóvel”

E4 (17 anos, 12º, sexo masculino)

“os namorados quando não estão juntos estão, basicamente, a toda a hora sempre a trocar mensagens um com o outro…o que até se compreende…porque tipo, se gostam muito um do outro, a mensagem é tipo uma extensão como se eles estivessem juntos…com tantas mensagens é que há aqueles tarifários especiais onde as mensagens não se pagam”

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“Existe uma pessoa com quem eu quase não estou mas com quem tenho intimidade, com quem troco SMS’s”

E2 (15 anos, 10º ano, sexo feminino)

“P: com que frequência é que achas que um casal de namorados (ou de "amigos" íntimos) se deve contactar (SMS, telemóvel, etc.)?

R: acho que não devem estar sempre a todos os momentos a mandar sms, a dizer passo-a-passo da sua vida

P:vês isso a acontecer muito? R:cada vez mais…”

E5 (15 anos, 10º ano, sexo feminino)

“P: Quantas SMS’s (+/-) mandas por dia? R:não sei , mas perto de 70 acho eu .

P: tens alguem em especial com quem troques as SMS? R: a minha namorada”

E8 (15 anos, 10º ano, sexo masculino)

5.5 Ethos, autonomia e identidade

As regras sociais sejam elas impostas externamente, cultivadas internamente, sejam institucionais ou circunstanciais, encontram-se de mãos dadas com a problemática dos valores e, sobretudo, dos

183 preceitos éticos. Neste sentido, e no que toca às práticas, as regras e normas seriam uma espécie de rede de protecção contra o descontrolo, garantindo uma certa autonomia de escolhas na orientação do quotidiano.

De um certo prisma, e dado o período de especial susceptibilidade na adolescência face a todo o conjunto de pressões grupais, solicitações e estímulos publicitários múltiplos acelerados pela comunicação móvel, a autonomia ou independência saem prejudicadas (Castells et al, 2009 : 214). Se a isto se acrescentar o desfasamento entre a escolarização e as perspectivas de trabalho (Pinto, 1991: 222; Pais, 2001), o panorama de incertezas e riscos aumenta. Porém, a questão da autonomia, no quotidiano juvenil afigura-se, em termos analíticos, mais complexa.

Se, por um lado, existem as ameaças à autonomia atrás descritas, por outro, a diversidade enorme, a facilidade de acessos e de (re)agendamento motivados pelas novas tecnologias e ainda uma certa emancipação em relação a valores mais conservadores, (Vala e Costa-Lopes, 2010; Pappamikail, 2007) possibilitam novos caminhos de autonomia.

A versão mertoniana da anomia – exprimindo uma condição de indivíduos, onde se dá uma tensão entre objectivos e os meios para necessários para os atingir (Merton, 1970: 235) – serve melhor a análise do presente estudo, se comparada com a versão de Durkheim (1995). Pais sugere que, entre os jovens, as práticas, designadamente as sociabilidades, não são anómicas (no sentido durkheimiano), “já que elas expressam nomos (normas) tipicamente juvenis” (1993: 191). Relativamente a este quadro apresentado, as sociabilidades juvenis actuais, não parecem ser muito diferentes quanto à existência de normas próprias ou, se se preferir, de culturas próprias, até porque continua – porventura, de forma mais acentuada – a haver uma dissonância normativa geracional. Tal como no tempo das arcadas retratadas por Pais, as sociabilidades distanciam-se grandemente dos quadros de normas e valores próprios dos adultos (1993: 193).

Autores como Beck (1992) e Giddens (1994; 2000a) sugerem uma mudança, nas últimas décadas, para uma ordem de valores centrados, sobretudo, no indivíduo. Não sendo uma ideia inteiramente nova – décadas antes, Merton referia uma disseminação do egoísmo hedonista (1970) – o individualismo traduzir-se-ia numa “adopção de éticas de vida mais expressivas, conviviais e hedonistas, que sublinham a importância de valores como a autonomia, a diversão, a experimentação (…)” (Pappamikail, 2007: 167).

Para Singly a modernidade apresenta duas injunções contraditórias: “a da igualdade de tratamento e a da diferenciação.” (2006: 133). No cerne desta contradição está o indivíduo, que

184 reclama para si os mesmos direitos de cidadania que foram sendo cultivados pelas democracias ocidentais, mas que, ao mesmo tempo insiste numa diferenciação e autonomização do seu raio de acção e na exploração da sua identidade.

Em última análise – e tomando em consideração a tendência de mudança nas formas de solidariedade ao jeito de Durkheim (1995) – a concomitância de uma crescente especialização das actividades (e da própria acção) com uma urgência de interdependência de processos sociais é tudo menos pacífica. Independentemente desta ideia, interessa questionar de que forma valores como a solidariedade, a tolerância ou as atitudes perante o compromisso marcam presença no quotidiano juvenil.

Putnam descreve, como foi visto, o advento de uma reciprocidade “imediatista”, nas novas gerações, no virar do século, em detrimento da reciprocidade enquanto valor intrínseco (2001: 21). Não sendo propriamente um valor, a confiança é, contudo, o mecanismo agregador que subjaz a tudo isto. Estas e outras questões são difíceis de aferir, justamente porque são, muitas vezes, propensas a generalizações algo infrutíferas, um risco que qualquer estudo sobre valores na sociedade acarreta. Contudo, tal não impede o levantamento de algumas hipóteses e pistas para análise.

Relação com a culpa

Reforçando a perspectiva analítica em torno do ethos juvenil, interessa destacar dois aspectos que sobressaíram na pesquisa de terreno: a relação com a culpa e o controlo. Trata-se de problematizar a relação entre alguns mecanismos associados à culpa e os mecanismos do controlo ou, como já foi exposto anteriormente, os mecanismos do locus de controlo (Rotter, 1966).

Relativamente à questão da culpa, não interessará tanto estudar os mecanismos últimos da culpa – até porque a temática já é suficientemente marginal no campo da sociologia – mas antes colocar o enfoque analítico em determinadas práticas que, sob o ponto de vista ético, podem ser zonas de fronteira indicativas de um maior ou menor (auto)controlo ou de uma maior ou menor confrontação com os meandros da culpabilidade.

185 A culpa, embora possa derivar de elementos não conscientes, despoleta, certamente, a justificação da acção (culpabilizante) num acto reflexivo que permite “encaixar” (para si próprio) o sentido da mesma. Desculpar-se com a ideia de que “toda a gente faz o mesmo” é um exemplo de amenização da transgressão. Isto compreende as maneiras e comportamentos diários, os aspectos cívicos, e outros desempenhos quotidianos, associados a um quadro normativo que, em maior ou menor grau, está presente na estrutura interna dos actores.

No decorrer das entrevistas, surgiu, quase por acaso, a referência ao acto de pedir desculpa a alguém após uma atitude supostamente condenável. Este aspecto particular em torno da temática da culpa será, provavelmente, mais uma pequeno apontameto analítico do que uma incursão representativa das dinâmicas em causa. Ainda assim, veja-se o conjunto de excertos recolhidos (caixa 5.12).