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Comte: fundamento positivo do poder moderno

1. Concep ções modernas de poder

1.6. Comte: fundamento positivo do poder moderno

Um pouco antes de Marx, Augusto Comte (1983) desenvolveu um sistema de concepções que tinha como objetivo reorganizar todos os aspectos da vida humana a partir do princípio da positividade, que é a base da ciência. Tendo como pressuposto a idéia de evolução ou progresso como uma lei natural que rege toda a realidade, Comte dividiu a história humana em três estágios ou estados:

1) Estado teológico: O ser humano nesse estado explicava os fenômenos por forças sobrenaturais, primeiramente por espíritos (é o fetichismo), depois por deuses (politeísmo) e por um Deus (monoteísmo). Há um movimento de progresso rumo ao pensamento científico no estado teológico, na passagem de uma fase para outra, embora nas três fases o ser humano utilize a ficção ou imaginação. Para Comte, o pensamento teológico ou religioso é, portanto, a forma mais primitiva e atrasada - em seu conceito de progresso - pela qual o ser humano procurou explicar os fenômenos do mundo.

2) Estado metafísico: As explicações do mundo deixam de atribuir os fenômenos do mundo a causas sobrenaturais, como forças divinas, substituindo-as por causas naturais.

Entretanto, são ainda forças abstratas, como forças da Natureza, ainda construídas pela mente humana. Compreendeu-se, nesta segunda fase, que não se pode mais explicar os fenômenos por meio de um deus. Esta fase é, segundo Comte, um estado intermediário, de transição, entre o estado teológico e o estado positivo.

3) Estado positivo: Neste estado, o ser humano renunciou ao intento de encontrar as causas íntimas dos fenômenos, por ter chegado à conclusão de que é impossível atingir o absoluto. Os fenômenos devem, portanto, ser explicados por outros fenômenos. Cumpre ao cientista observar os fatos e buscar entre eles as leis que os governam, as relações invariáveis.

A lei dos três estados de Comte é a base de todo o seu pensamento. O ser humano chegou, no estado positivo, ao estágio mais avançado do saber. A ciência é o resultado, portanto, da evolução do pensamento humano, que foi afastando-se cada vez mais da ficção e do mito. O espírito humano deve aplicar-se sobre realidades concretas. O objetivo e concreto

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é o material do conhecimento verdadeiro. As ciências devem ser purificadas de todo elemento teológico e metafísico.

Nesse projeto, Augusto Comte cria a sociologia como o estudo da sociedade ou dos fenômenos sociais, os quais devem ser estudados com a mesma metodologia e os mesmos princípios que têm de ser aplicados nos estudos de matemática, astronomia, física, química e biologia. Por isso, a sociologia comtiana é chamada de Física Social.

O projeto de Comte é grandioso: reorganizar a sociedade de sua época, que vivia em anarquia. A Revolução Francesa pusera fim a um tipo de sociedade e oferecia, então, um mundo novo a ser reconstruído. Era necessário que se encontrassem fundamentos sólidos para essa grande tarefa. O magnífico desenvolvimento das ciências experimentais, como com Lavoisier no domínio da Química e com Bichat no estudo dos seres vivos, veio a infundir no espírito de Comte um otimismo e uma convicção de que a ciência poderia ser útil à reorganização social. Essa tarefa deveria começar com a reorganização das crenças, para daí se reorganizar os costumes e finalmente se reorganizar a sociedade.

Na sociologia positivista, a sociedade é maior e mais importante que o indivíduo. O homem é explicado pela Humanidade, não vice-versa. Tudo o que o ser humano é e possui, recebeu da Humanidade e da família, cuja união forma a sociedade. O indivíduo é uma abstração e o individualismo, entendido como destruidor, é produto do estado metafísico, que precisa ser superado. Portanto, a sociabilidade deve prevalecer sobre a individualidade, como também em Hegel. Essa é, essencialmente, a tarefa do Estado, ou seja, preservar a comunhão de crenças, a unidade e coesão sociais.

A nova sociedade “positiva” manteria a separação, característica da Modernidade secularizada, entre religião e Estado. O governo deve exercer o poder temporal, cuja principal atribuição seria garantir a harmonia entre as classes hierarquizadas. Os cientistas exerceriam o poder espiritual, cujo objetivo seria servir de árbitro nos conflitos entre as classes e nos conflitos com outros povos, nos domínios econômicos e políticos, além de cuidar da educação de todos. A ciência exerceria, na realidade, o papel da religião, cujos sacerdotes seriam os cientistas. Essa seria a grande Religião da Humanidade, caracterizada pela solidariedade de todos os seus membros, e o Grande Ser, correspondente ao Deus cristão. A humanidade é, portanto, a divindade positivista, a quem o Estado serve. Comte apresenta um projeto de construção de uma sociedade ideal, que seria moldada pelo pensamento positivo, isto é, científico.

Vemos nas diversas teorias da origem e constituição do poder na sociedade humana apresentadas aqui, em meio às suas diferenças e contraposições, uma carapdfMachine cterística que as

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unifica e identifica. Elas apontam sempre para uma sociedade constituída por princípios e sistemas unificados, consensuais, totais e totalizantes, expressos nas teorias contratualistas pela ação integrada, conjunta e consciente dos indivíduos, os quais criam, seja uma realidade outra, que encarna o poder dos indivíduos e pode forçá-los individualmente (o Leviatã), seja uma realidade inalienada, porém produto social que paira acima da soma dos indivíduos e que igualmente pode forçá-los a submeterem-se a uma "liberdade coletiva", como na democracia direta de Rousseau. Esse mesmo modelo de uma sociedade unida sob um poder constituído

"de baixo" é expresso na teoria idealista de Hegel. O poder moderno encontra sua legitimidade e origem na própria sociedade, nos indivíduos, na cultura, na vontade geral, nos interesses comuns, na soberania do povo, no Espírito do mundo. Além disso, ele só existe pela e/ou para uma sociedade, um corpo social, uma configuração coletiva. A homogeneidade está sempre pressuposta, seja como realidade concreta presente, seja como ideal a ser buscado e construído a partir do próprio ser humano.

As teorias contratualistas de Hobbes e Rousseau explicavam o poder como uma possessão natural dos indivíduos, que era transferida com o seu consentimento para o seu governante por meio de um contrato social. Nessa explicação, o poder dos que governam é visto como originário do povo e com o seu consentimento é exercido. A soberania é uma qualidade original do povo, concentrada e incorporada pelo seu representante, ou substituto, o soberano. O surgimento de Estados nacionais fortes e soberanos na Modernidade tem, portanto, uma vinculação com o processo de independência, de autonomização do ser humano em relação à autoridade divina representada pela instituição religiosa antes hegemônica.

A característica comum dessas construções teóricas modernas sobre o poder e a sociedade é a singularidade, ou talvez melhor dito, a unicidade social. O poder é sempre concebido como central e centralizador, na medida em que todos devem reportar-se a ele, submeter-se a ele. Dele depende a harmonia, a paz e a ordem na sociedade. O Estado moderno surgiu, no Ocidente, para ocupar o lugar do Deus cristão e seu representante único e oficial no mundo: a Igreja Católica Romana. Esta conferia ao mundo, no período anterior, o seu significado e a garantia de sua integridade e homogeneidade debaixo de um único sistema ou cosmovisão. A modernidade surgiu como um processo de laicização, separando poder civil e poder religioso. Já não se podiam manter os fundamentos sagrados para sustentar o poder civil. A Deus cabia legitimar o poder religioso, porém era preciso buscar outra base de legitimação para o poder civil. Este precisava ser laico, mundano.

O fato de terem sido elaboradas várias concepções distintas que justificassem e fundamentassem o novo poder estabelecido jpdfMachine á evidencia por si mesmo que não se caminha

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mais no terreno do absoluto, ainda que o objeto ao qual se procurava conferir significado geralmente fosse absolutizado, ao menos em sua função própria. Herança do mundo religioso.

Sempre há continuidades em meio às descontinuidades. No mundo divino era natural a unidade, a centralização, a homogeneidade e a harmonia. Entretanto, no mundo humano secularizado, é muito difícil reproduzir esse padrão, ainda que se tenha tentado. O aparecimento da diversidade, da heterogeneidade e do conflito gera um processo de relativização e descentralização. Um pouco dessa noção foi introduzida por Hegel, ao entender a vida social, a história, as idéias, como elementos de um processo dialético, ainda que termine atribuindo ao Estado o estatuto de Absoluto, a síntese de todas as diferenças que se manifestam no todo social.

Percebe-se que os que pensaram a sociedade nesse período (séculos XVII a XIX) não se detiveram a analisar o poder em sua natureza, mas em justificar a sua existência e necessidade, dentro de esquemas utópicos de construção de uma sociedade homogênea, cuja força de coesão não pudesse mais ser sustentada por meio de apelos a alguma autoridade divina. Além disso, embora se buscasse, por vezes, no indivíduo a justificação racional para o poder do governo ou do Estado, é este último sempre superior, chegando a assumir uma certa autonomia em relação aos seus progenitores.