O principio da infastabilidade é a garantia que a parte tem de pleitear em juízo suas necessidades. Através do princípio da inafastabilidade da jurisdição, a Constituição da República afiança a necessária tutela estatal aos conflitos que ocorrem na vida em sociedade.
O artigo 5º, XXXV da Constituição da República expressa a garantia do principio da inafastabilidade, o qual dispõe, in verbis: “Art. 5º [...]XXXV - a lei não excluirá da apreciação do Poder Judiciário lesão ou ameaça a direito;” 54
53 TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO 3ª REGIÃO. Processo: 00668-2007-000-03-00-5 DC - DC Relator: Convocada Maria Cecília Alves Pinto. Disponível em http://gsa.trt3.jus.br/search?q=cache:as1.trt3.jus.br/jurisprudencia/acordaoNumero.do%3Fevento%3D
Nesse ponto grandes questionamentos tem sido evidenciado, no que diz respeito à exigência do comum acordo e à afronta ao contido no artigo.
A partir do momento que a Emenda Constitucional 45/04 estabeleceu como pressuposto para o ajuizamento do dissídio coletivo o comum acordo, tem-se notadamente a ameaça ao contido no principio da inafastabilidade.
Luciana de Miguel Cardoso expressa que o que segue:
A Emenda Constitucional nº 45, de 8 dezembro de 2004, traz a necessidade de "comum acordo" para a instauração do dissídio de interesse. Essa alteração deve ser analisada sistematicamente com todo o texto constitucional. Percebe-se, assim, que se estaria afastando o conflito de uma tutela jurisdicional, por haver uma exigência na maior parte das vezes impossível de se satisfazer. Não se pode exigir do autor um requisito impraticável, sob pena de se estar cerceando seu direito de agir.55
Diante da impossibilidade do ajuizamento por uma das partes tem-se a equivalência do afastamento do conflito coletivo da legítima solução por parte do Estado.
Afastar os conflitos de interesse da apreciação do Judiciário pode levar a conseqüências muito graves para a sociedade. Poderá haver uma perpetuação da situação de conflito, gerando grande insatisfação aos trabalhadores, e, inevitavelmente, compelir os trabalhadores à deflagração de greve, pois será a única forma disponível para pressionar as empresas à negociação. A tutela estatal é fundamental para a proteção dos interesses dos trabalhadores, tendo papel essencial na pacificação social dos conflitos.56
Embora exista o entendimento de que tal pressuposto não ofende esse princípio tendo em vista que o ajuizamento de dissídio de natureza econômica tem como conseqüência o exercício do poder normativo pelos tribunais do trabalho, e tal, como é sabido, nada tem de jurisdicional.
Thais Borges Silva nesse sentido expressa que:
54 CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Edição eletrônica. Disponível em http://www.dji.com.br/constituicao_federal/cf111a117.htm. Acesso em 22 out. 2010.
55 CARDOSO, Luciana de Miguel. Da exigência de comum acordo para a instauração dos dissídios coletivos frente ao princípio da inafastabilidade da jurisdição. Disponível em:
<http://jus.uol.com.br/revista/texto/9582>. Acesso em: 11 nov. 2010.
56 Ibidem. Acesso em: 11 nov. 2010.
O poder normativo da Justiça do Trabalho, por não ser atividade substancialmente jurisdicional, não está abrangido pelo âmbito normativo do art. 5°, XXXV, da Constituição da República. Assim sendo, sua restrição pode ser levada a efeito por meio de reforma constitucional, sem que seja violada a cláusula pétrea que estabelece o princípio da inafastabilidade do Poder Judiciário. 57
Porém, se verdadeiramente for estabelecido o mútuo consentimento para o ajuizamento dos dissídios coletivos de natureza econômica, os trabalhadores permanecerão afastados da tutela do Estado, nascendo um espaço de desagrado social em razão da litigiosidade contida.
Considerando a falta de negociação e impossibilidade de provocar o Judiciário, os trabalhadores terão como alternativa exclusiva a deflagração de greve, o que origina estragos sociais e econômicos ao país e não nuca deverá ser excitada.
Assim sendo, é dever do Estado buscar soluções adequadas para as situações de conflito com justiça, tendo como intento a pacificação social que a razão de existir do Judiciário.
57 SILVA, Thais Borges da. A nova configuração dos dissídios coletivos . Disponível em:
<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=15109>. Acesso em 25 out. 2010.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Certo é que as negociações coletivas são imprescindíveis dentro do âmbito trabalhista, tanto as convenções quanto os acordos coletivos são instrumentos normativos da Justiça do Trabalho.
Por meio das convenções trabalhistas, as quais se relacionam com as negociações em nível de categorias, o acordo pode ser alcançado. Assim, os sindicatos representantes da respectiva categoria deliberam acerca das condições de trabalho de seus representados.
No que diz respeito aos acordos coletivos vê-se que fazem referencia ao acordo firmado entre um determinado sindicato representante de uma classe de trabalhadores e uma empresa.
Nota-se que diferença primordial vista entre os dois institutos está em dizer que as convenções coletivas estão relacionadas a toda categoria, enquanto que o acordo implica apenas as partes envolvidas. Ainda, os sujeitos envolvidos são distintos, nas convenções coletivas firmado entre dois sindicatos, conquanto que nos acordos coletivos é entre empresa e sindicato representante da categoria.
A decisão proveniente dos dissídios coletivos é chamada de sentença normativa as quais possuem de lei, daí decorre o poder normativo da Justiça do Trabalho, já que da sua decisão se criam leis.
Essa é a nomenclatura dada a competência conferida à Justiça do Trabalho para solucionar, interpretar, e até mesmo criar e modificar normas, em sede de dissídios coletivos.
Os dissídios podem ser definidos como o processo em que o judiciário resolve as questões inerentes aos conflitos de trabalho.
É preciso evidenciar que os dissídios podem ser de natureza jurídica ou econômica. Os primeiros são destinados a proceder à interpretação das clausulas da sentença normativa. Já os dissídios coletivos de natureza econômica estão relacionados com normas e condições de trabalho concernente à remuneração.
A Emenda Constitucional 45/04 trouxe mudanças importantes para a Justiça do Trabalho. Especificamente ao artigo 114, §2º da Constituição da República tais mudanças tiveram incidência direta aos dissídios coletivos de natureza econômica e ao poder normativo.
Com relação aos dissídios coletivos de natureza econômica a principal modificação foi a inserção do pressuposto processual do comum acordo entre as partes para a impetração do mesmo fez com que gerasse divergências, tendo em vista que a existência desse ajuste traria a falsa presunção de incitação à greve. Ou seja, diante da renúncia do empregador em aceitar o dissídio caberia aos empregados exercerem esse direito para que tivessem sua exigência reconhecida.
Visando uma melhor interpretação do dispositivo, a fim de atender aos anseios sociais, bem como o preconizado pelo princípio da proteção ao trabalhador e da inafastabilidade, é importante que se dê uma interpretação mais flexibilizada ao termo comum acordo, aceitando a propositura unilateral do dissídio desde que a outra parte não impugne o ato, conforme preceitua Amauri Mascaro do Nascimento, marco teórico dessa pesquisa, pois sem esse entendimento a parte que irá escolher sobre a possibilidade ou não de um processo contra si.
Vê-se que esse é o melhor entendimento a ser dado à matéria, até o julgamento das ADIs que tramitam no Supremo Tribunal Federal a fim de solucionar a problemática em questão.
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http://www.dji.com.br/normas_inferiores/enunciado_ tst/tst_0271a0300.htm. Acesso em 19 set. 2010.
ANEXO
PROCEDÊNCIA
Número: ADI 71425
Orgão de Origem: SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Origem: DISTRITO FEDERAL
Assunto DIREITO DO TRABALHO | Sentença Normativa
Folhas 98
Data de Autuação 10/06/2005
PARTES
Categoria Nome
REQTE.(S) CONFEDERAÇÃO NACIONAL DOS ESTABELECIMENTOS DE
ENSINO - CONFENEN
ADV.(A/S) RICARDO ADOLPHO BORGES DE ALBUQUERQUE
REQDO.(A/S) CONGRESSO NACIONAL
Data Andamento Órgão Julgador Observação Documento 24/04/2010 Substituição do Relator, art. 38 do RISTF MIN. GILMAR MENDES
27/04/2006 CONCLUSOS AO RELATOR
27/04/2006 RECEBIMENTO DOS AUTOS DA PROCURADORIA-GERAL DA REPÚBLICA COM PARECER PELA IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO.
02/02/2006 VISTA AO PROCURADOR-GERAL DA REPUBLICA
02/02/2006 RECEBIMENTO DOS AUTOS DA ADVOCACIA GERAL DA UNIÃO, COM DEFESA (PG N.º 11203/06 DO DIA 1º/02/06).
09/12/2005 VISTA AO ADVOGADO-GERAL DA UNIAO
09/12/2005 JUNTADA PG Nº 144002/05, DO CONGRESSO NACIONAL, PRESTANDO INFORMAÇÕES.
09/12/2005 INFORMACOES RECEBIDAS, OFICIO NRO.: 5616/R, PG Nº 144002/05, DO CONGRESSO NACIONAL.
28/11/2005 PUBLICACAO, DJ: DESPACHO DE 22/11/05.
28/11/2005 PEDIDO DE INFORM. CONGRESSO NACIONAL OFÍCIO Nº 5616/R - PRAZO: 10 (DEZ) DIAS..
22/11/2005 REMESSA DOS AUTOS À SEÇÃO CARTORÁRIA
22/11/2005 DESPACHO ORDINATORIO "O PEDIDO COMPORTA APRECIAÇÃO NOS TERMOS DO ART. 12 DA LEI Nº 9868, DE 10 DE NOVEMBRO DE 1999.
SOLICITEM-SE, POIS, INFORMAÇÕES NO PRAZO DE 10 (DEZ) DIAS. APÓS, VISTA,SUCESSIVAMENTE, POR 5 (CINCO) DIAS, AO ADVOGADO-GERAL DA UNIÃO E AO PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA. PUBLIQUE-SE"
10/06/2005 CONCLUSOS AO RELATOR
10/06/2005 DISTRIBUIDO POR PREVENCAO MIN. CEZAR PELUSO