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III. Universidade Estadual de Campinas Instituto de Filosofia e

0.1. A questão do material póstumo: qual seu estatuto para o pensamento “público” de

0.2.3. Comum, comunicar, compartilhar: o “pouco valor” de uma filosofia

O substancial da reflexão privada do apontamento 37[2] é retomado pelo aforismo 43 de JGB; mais ainda: o apontamento antecipa a chave de leitura de toda a seção. Não se trata de mera colagem de ideias; a substituição de algumas imagens é estrategicamente articulada, com o paradoxal intuito de comunicar algo decisivo sobre seu conceito-guia: o filósofo do futuro. Ao refletir sobre a própria atividade de filosofar, Nietzsche, simultaneamente, sugere aí também uma reflexão sobre o ato de comunicar a “matéria” daquilo sobre o que se filosofa, no caso, a comunicação de verdades. Filósofo do futuro, filósofo do porvir, ou em outra variante, o espírito livre, como destacamos anteriormente — tal conceito nada tem que ver, no que tange à tomada de posições, com uma orientação ética, moral ou mesmo política, e essa diferenciação representaria, acima de tudo, uma radical ampliação do debate iluminista-francês, desde La Bruyère e P. Bayle, sobre os “libre- penseurs” e o “esprit libre”28, que Nietzsche retoma em alguns aspectos no aforismo 44 de JGB.

Ele emprega esses conceitos para marcar a diferenciação entre os defensores das “ideias modernas” (“libre-penseurs”) e os filósofos cuja necessidade, pensamento e crenças são “outras” (“esprit libre”), e é no registro do espírito (Geist) que Nietzsche pretende fazer emergir as condições para uma radical mudança não no agir humano, como dito antes, mas sim no modo de pensar e comunicar filosóficos. Geist, no contexto dos aforismos da segunda seção de JGB, é aquilo que concretamente distingue, que promove, faz crescer, forma, mas que também faz perecer, que traz a falência de toda e qualquer cultura, toda e qualquer evolução da “planta homem”, tal como afirma Nietzsche em JGB 44. As mais singulares morfologias, as contradições e ambiguidades inerentes às vivências e experiência do “tipo” homem-superior encontram aqui, no registro do espírito, sua força motriz e destino.

Ao marcar a diferença entre o filósofo do futuro e o filósofo dogmático, a partir do modo como eles amam suas “verdades”, seu conceito de “bem”, Nietzsche dá um passo decisivo na caracterização do segundo: dogmático não é simplesmente o tipo de filosofar que sustenta e postula

28 VIVARELLI, Vivetta. Nietzsche und die Masken des freien Geistes : Montaigne, Pascal und Sterne. Würzburg:

“verdades” sobre bases metafísicas, seja concebida em oposição ao ceticismo, seja em oposição ao criticismo. Dogmático aqui vale para aquela atividade do filosofar que, de uma maneira ou de outra, assume que a validade e eficácia do que é “verdadeiro” tem que valer para todos, tem que pressupor uma articulação entre premissas e conclusão no comunicar, que possa ser universalmente comungada; ou seja, que o conteúdo ou matéria daquilo que é sustentado ou postulado por um pensador ou corrente filosófica devesse ser necessariamente tornada comum. Contrariamente, ao afirmar que a cada um cabe resguardar para si suas verdades, seu “bem” (e que isso diz algo do modo como eles a “amam”), Nietzsche destaca que a garantia da divergência e singularidade, da “contingência” dos modos de pensar e filosofar assenta-se não em outra coisa senão no modelo de sua apresentação, na “linguagem” que o comunica.

Novamente a linguagem volta a ter papel preponderante, pois aquilo que permite, para o filósofo do futuro, manter “seu juízo” como sendo “seu” é, fundamentalmente, a linguagem da qual se vale para “apresentar” seu pensamento, para “resguardá-los”. Que ele não possa prescindir da comunicação quando escreve, isso não quer dizer que essa comunicação deva ser apresentada por uma linguagem “comum”. O exemplo da palavra Gemeingut é de grande importância para os propósitos desse capítulo: no que tange especificamente ao uso dessa palavra, Nietzsche supõe que os assim chamados “novos filósofos” (aforismo 44) notariam a contradição nela contida, e não a empregariam em definitivo, pois aquilo que possui um uso comum, que pode ser comungado, tornado comum, pela linguagem, “tem pouco valor”, a dizer, tem valor “nivelado” — e ao recorrer à imagem da “solidão”, nessa mesma passagem de JGB, como marca distintiva dos “espíritos livres” Nietzsche vai confrontá-la exatamente com a ideia do que é “comum” (gemein).29 O conceito “solidão” que representa um papel decisivo no aforismo 44, opera, dito genericamente, uma função ímpar: ele é um contra-conceito ao conceito de se por em concordância, do tornar algo comum. Aquilo que tem “pouco valor” é reconhecido assim pelos filósofos do futuro no caráter (singular) da linguagem que expressa um pensamento, no modo como ela apresenta uma filosofia, e é exatamente por isso que Nietzsche, no aforismo 40, teria advertido que os novos filósofos sempre “tergiversam à comunicação”. Apesar de a palavra alemã indicar algo como “com- partilhar” (Mitteilung), o termo comunicar (para falantes de língua latina), por si mesmo, revela

29 Essa confrotação se tornará mais patente na nona seção de JGB, entre outros, consultar aforismos 268, 278, 283, 284

aquilo para o que Nietzsche insistentemente chama atenção, já que, etimologicamente, tem o sentido de “pôr algo em comum” e, então, “ajuntar, reunir, agremiar pessoas”.30

O elemento da concordância, que Nietzsche destaca no aforismo supracitado e que oblitera toda possibilidade de “independência” no filosofar (no sentido de JGB 41), é central, portanto, para a tese de acordo com a qual a diferença entre os “novos filósofos” e os “dogmáticos” assenta-se não na justificação e fundamentação (metafísica) de sua filosofia, mas sim no uso que eles fazem da linguagem que apresenta esse sistema, nos pressupostos que sustentam suas perspectivas sobre o paradigma que alicerça o comunicar em filosofia. Esse poderia ser, por exemplo, um novo fio condutor para se compreender o modo, como no aforismo 36 dessa seção, Nietzsche apresenta, amalgamado a uma linguagem rica em metáforas e com complexas construções vernaculares, seu conceito-capital, que representa sua interpretação da existência: vontade de poder — mas tratar disso aqui ultrapassaria os propósitos desse tópico.

Com base nessa perspectiva, poderíamos também revisitar os aforismos 27 e 28 da mencionada seção II, nos quais ele discute os limites da comunicação filosófica no caso do seu pensamento. É certo que com os artigos de Josef Simon e, mais recentemente, de Werner Stegmaier sobre o aforismo 27 de JGB31 a Nietzsche-Forschung ampliou muito o domínio dos conceitos antes tidos como fundamentais para o pensamento de Nietzsche: entender (Verstehen) e espaço de manobra (Spielraum) passaram a figurar como conceitos-chave do pensar e filosofar maduro de Nietzsche. Em JGB 27, por exemplo, Nietzsche leva às ultimas consequências seu experimento sobre interação comunicativa: ele sugere que o mal-entender seja o recurso viável para uma contínua e frutífera renovação de toda comunicação filosófica “entre bons amigos, que concedem de imediato um espaço de manobra e de recreação” uns aos outros, já que o “se por de acordo”, o “se colocar em entendimento”, nesse contexto, pressuporia a estabilização e fixação, em

30 Cf. SARAIVA, F. R. S. Dicionário Latino-Português. Belo Horizonte / Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 2000, pág.

257.

31 SIMON, Josef. „Der gute Wille zum Verstehen und der Wille zur Macht, Bemerkungen zu einer

‚unwahrscheinlichen Debatte’“ op. cit. Ver também SIMON, Josef. „Der gewollte Schein. Zu Nietzsches Begriff der Interpretation“. In DJURIĆ, Mihailo und SIMON, Josef (Hg.), Kunst und Wissenschaft bei Nietzsche. Würzburg, 1986, STEGMAIER, Werner. „Nietzsches Zeichen“. In. Nietzsche-Studien, Band 29, 2000.

conceitos universalizantes, de toda criação, seja poética, literária ou filosófica. “Entender-se mutuamente”, visto desse ângulo, nada mais significa do que tudo poder tornar comum.32

No aforismo subsequente, 28, que aprimora ainda mais as exigências de outros e novos critérios para a comunicação de um pensamento “de grande valor”, “nobre”, isto é, não- comungável, Nietzsche, mais do que provocar o leitor que subestimasse a tarefa de uma tradução dos seus livros de aforismo, abertamente revela aquilo que nem sempre é visto como central em seus escritos: seu estilo, e isso, no que tange à “nuança (Nuance)”, ao andamento (das Tempo), ao “metabolismo (Stoffwechsel)” de seus pensamentos, aquilo que, segundo Nietzsche, é “fisiológico” na linguagem de cada escritor. Com a “arte da nuança”, a qual Nietzsche, no aforismo 31, considera “a melhor aquisição da vida”33; com revigorado metabolismo e andamento musical, palavras, conceitos ou filosofemas podem reproduzir, na língua original, mais do que prodigiosas imagens, hipóteses refinadas, brilhantes raciocínios: o vernáculo no qual um livro foi redigido pode abrir, para o atento leitor, uma atmosfera espiritual bem mais rica e híbrida, a atmosfera de seu tempo (Zeitgeist), de seus costumes e hábitos, de suas necessidades e carências, virtudes e vícios, como é o caso, segundo Nietzsche, com Lessing, Maquiavel, Petrônio ou Aristófanes. A tradução, que Nietzsche não toma como mero transpor palavras de uma língua para outra, é aqui criticada como tentativa de tornar inteligível, para um grupo qualquer de não falantes da língua original, não apenas signos e símbolos, mas a própria atmosfera espiritual, o “gosto” de seu autor, o qual é encerrado pela obra, é “resguardado” pelo estilo. Isso, com o intuito claro de tornar possível um tipo de comunicação objetiva entre ambos; ou nas palavras do próprio Nietzsche em JGB 28, a tradução, vista sob esse aspecto, consiste em uma “Vergemeinerung des Originals”, ela torna algo que é particular, próprio, singular em algo que pode pertencer a muitos, algo que é compartilhado, comungado, e também, nesse sentido, vulgarizado, que, em última instância, “despersonaliza”34, suprime aquilo que, em um grande escritor, representa o caráter mais peculiar de seu pensar,

32 Num apontamento preparatório ao aforismo 27 do outuno de 1885 - primavera de 1886, ele escreve: „Es dünkt mich

besser mißverstanden als unverstanden zu werden: es ist etwas Beleidigendes darin, verstanden zu werden. Verstanden zu werden? Ihr wißt doch, was das heißt? — Comprendre c'est égaler“. In KSA 12, 1[182].

33 Patrick Wotling dedicou esmerada atenção a esse tema na introdução (La question de l’inteligibilité) à sua obra

Nietzsche et le problème de la civilisation. Ele afirma que “les lecteurs les plus scrupuleux et les plus attentifs se heurent à un problème de fond: le conflit entre l’effort d’elucidation et le respect des nuances”. in. WOTLING, P. op. cit, pág. 8

34 Sobre esse conceito no registro do tema ora discutido, consultar apontamento póstumo do outono de 1885 -

interpretar, filosofar, ou seja, seu estilo. E note-se que com essa expressão o próprio Nietzsche cria sutilezas que podem constranger seus possíveis tradutores, já que vergemeinern não consta do conjunto oficial de vocábulos da língua alemã; é uma verbalização “original” do adjetivo gemein, portanto, uma nuança de seu estilo, que carece ser preservada por uma interpretação ou tradução, caso ela não se restrinja apenas à mera comunicação de conteúdos.

A rigor, aquilo pelo que Nietzsche, em relação a outros escritores, demonstrou grande admiração e apreço foi, rigorosamente e com propósitos bem definidos, experimentado. Não só no que diz respeito aos recursos estilísticos e vernaculares, mas para se fazer sentir o tempo e o ritmo das frases e dos pensamentos que são apresentados pelos livros de aforismos, Nietzsche recorreu a aspectos ainda menos perceptivos, tais como o uso de sinais gráficos: os “hífens/travessões” (Gedankenstriche), para marcar pausa e andamento de um pensamento; aspas (Anführungszeichen), para dar um tom jogoso, irônico a expressões que, em sua época, eram correntes; reticências (Auslassungspunkte), que autorizam ao atento leitor que ele, ao invés de palavras, e a partir de contextos precisos, depare-se e se surpreenda com a possibilidade de dar continuidade àquilo que é objeto da reflexão.35 Para além dos conceitos e noções que Nietzsche apresenta em seus livros, também esses “detalhes” precisam ser levados em conta, quando se trata de compreender qual o estatuto do Nachlass para o pensar e filosofar “públicos”.

Com essa exposição longa e geral sobre a relação entre pensamento “privado” e pensamento “público” não se procurou apenas apresentar uma chave de leitura que pudesse auxiliar a compreensão mais ou menos precisa das palavras, conceitos ou ideias que os aforismos publicados retrabalharam, levando em conta o que havia sido esboçado no Nachlass, para depois retornar, rediscutir e ampliar o contexto mais geral dos argumentos e teses que são apresentados, como no caso exemplar da segunda seção de JGB. A passagem do pensamento privado de Nietzsche para o público não parece ter sido assim alcançada.

35 Sobre isso, argumenta Fietz: „Auf ein einziges Phänomen nur will ich hinweise, das bei einem Blick in Nietzsches

Bücher sofort in die Auge fällt, bisher aber kaum untersucht ist: sein exzessiver Einsatz von Interpunktionszeichen, wobei vor allem die sogenannten Gedankenstriche, die Auslassungspunkte und die Anführungszeichen sinnfällig sind, daneben aber auch typographisch erzeugte Effekte wie Absätze, Zeilenabstände, Fett- und Sperrdruck, Unterscheidungen, Klammern, Groß- und Kleinschreibung, Trennung u.s.w. Nietzsche ha dergleichen kalkuliert eingesetzt, hat in den Verhandlungen mit seinen Druckern und Verlegern hohen Wert auf solche ä 'Äußerlichkeiten' gelegt“. 27 In. FIETZ, Rudolf. „Das Andere Lesen – oder: Nietzsche (über)lesen“, pág. 27.

Apesar do filosófo alemão, propositadamente, não apresentar um fio condutor claro e seguro para as mais diversas séries de aforismos, o que é resultado da própria economia do estilo, é possível sim pensá-los em conjunto como Nachlass, no entanto, não do ponto de vista das nuanças, das terminologias que cada um apresenta, daquilo que é cortado ou acrescentado pelos aforismos publicados; isso por si só seria a tarefa de um estudo ad hoc. O conjunto — ou como havíamos dito antes, o elemento homogêneo que permite iniciar uma plausível discussão sobre o estatuto dos apontamentos póstumos para os escritos de Nietzsche, aquilo que ele efetivamente quis que seu leitor tomasse conhecimento, não pode ser encontrado pela simples pesquisa filológica, por meio de comparações de conteúdo, da forma, ou mesmo comparações cronológicas. Esse elemento parece surgir do próprio exercício, calmo e trabalhoso, do intérprete em descobrir o que há de “público” no pensamento privado de Nietzsche e, simultaneamente, o que é “privado” nos, e pelos, aforismos, quando estes representarem a forma pronta daqueles.

Um escritor que declara “publicamente” que quer ser mal-entendido, diz isso aos seus “bons leitores”, reservadamente; mal-entendê-lo para com isso renovar continuamente o próprio modo de se pensar filosoficamente; se for essa a estratégia, parece não ter querido com seus livros de aforismos “elucidar”, “tornar mais inteligível” o que, nos póstumos, havia meramente “experimentado”, “dramatizado”. O que é público não é, nesse sentido, mera supressão do “esotérico”, legado ao Nachlass; público não é resultado de uma vontade de elucidar, de um tornar mais claro, acessível, inteligível e lógico aquilo que, agora publicado, passa a ser apresentado pelo livro. A árdua decifrabilidade exigida, o difícil diálogo com seus argumentos, a rigorosa construção de metáforas, a complexidade das ideias expressas em frases breves; em suma: o “esoterismo”, o ensinamento reservado a “poucos”, aos seus “filósofos ainda por vir” é também marca distintiva de seus livros de aforismos, como procuramos mostrar acima. Daí a dificuldade de justificar aquela perspectiva segunda a qual o Nachlass poderia “elucidar” as obras, ou mesmo que as obras publicadas comunicam, sem reservas, o que ele pensava privadamente. Aliás, a tese contrária parece ser mais plausível nesse caso: Nietzsche parece ter propositadamente projetado seus livros de aforismos para guardar, com maior rigor ainda, o que ele havia concebido em seus apontamentos. Queria tornar ainda mais privado seu pensamento não publicado.