• Nenhum resultado encontrado

Parte II – Revisão bibliográfica

3. Comportamento normal do cão

3.2. Comunicação

Uma comunicação eficaz é essencial para a formação e manutenção de relações sociais estáveis (BSAVA, 2002). As orelhas, a cauda e a posição do pêlo são elementos importantes na comunicação visual entre cães. No entanto, esta comunicação tende a falhar quando consideramos raças que têm sofrido modificações, tanto genética como cirurgicamente. Cães com orelhas pendentes, como alguns cães de caça, conseguem apenas sugerir estados de alerta ou de medo. Da mesma forma, torna-se difícil detectar a erecção do pêlo em animais de pelagem comprida. O pêlo impede também os cães de muitas raças de observarem os sinais transmitidos por outros animais, sendo que, o simples corte da porção que dificulta a visão do cão, pode melhorar o seu temperamento. Outras raças sofreram ainda a amputação da cauda, o que deixou de permitir a interpretação dos seus movimentos. Por essa razão, estes animais aprenderam a sacudir toda região traseira do seu corpo, possibilitando assim a expressão, se não do medo, pelo menos da satisfação (Houpt, 2005a).

Para além da função evidente de transmitir uma mensagem, o comportamento social expressivo, compreendendo as expressões faciais, os movimentos corporais, a vocalização e o toque, exerce ainda um importante efeito modulador sobre os sentimentos e o estado de espírito do receptor (Lindsay, 2000).

3.2.1. Vocalização

O ladrar, o ganir, o uivar e o rosnar são as vocalizações mais comummente observadas no cão (BSAVA, 2002; Houpt, 2005a). O ladrar corresponde a um comportamento territorial e é utilizado com o objectivo de proteger uma determinada área e de demarcar os seus limites, sendo por esta razão raramente observado nos cães vadios, cujos locais de repouso são geralmente temporários (Houpt, 2005a). Podem ser reconhecidos diversos tipos de latidos, identificando-se diferenças entre aquele que ocorre quando o animal pede para entrar em casa e aquele que é dirigido a intrusos humanos ou aquele que é dirigido a outros cães (BSAVA, 2002; Houpt, 2005a). O ladrar é um comportamento seleccionado no cão doméstico, sendo procurado pelas pessoas com o objectivo de serem alertadas contra a aproximação de intrusos. No entanto, existe uma maior probabilidade de um cão ladrar em resposta a outro cão, do que à passagem de uma pessoa, podendo esta atitude tornar-se num transtorno para os proprietários, sobretudo em grandes meios urbanos. Este comportamento constitui também um problema quando os animais se encontram em canis ou em jaulas, nomeadamente em clínicas veterinárias (Houpt, 2005a).

O ganir, por sua vez, está relacionado com a necessidade de atenção. É utilizado inicialmente pelo cachorro, como forma de comunicação com a mãe, que lhe proporciona

calor e alimento. O cão adulto recorre a esta vocalização quando procura o alívio da dor ou quando se encontra numa situação de alguma frustração, como no caso em que deseja sair para a rua ou alcançar uma presa escondida (Houpt, 2005a).

O uivar é uma forma de comunicação que ainda não foi completamente decifrada e que ocorre mais frequentemente em canídeos selvagens e em algumas raças de cães domésticos, como por exemplo os Huskies, os Malamutes ou, em menor extensão, os cães de caça (Houpt, 2005a).

No que diz respeito ao rosnar, trata-se de uma vocalização que traduz agressividade ou uma tentativa de afastamento de outros animais ou pessoas (Houpt, 2005a). Alguns proprietários poderão encorajar este comportamento, por sentirem que estão a ser protegidos. No entanto, ao rosnar, o cão está geralmente a proteger-se a si mesmo ou àquilo que considera ser seu (Davis, 2006).

3.2.2. Postura

O estado emocional de um cão pode ser determinado através da observação das orelhas, da boca, da expressão facial, da cauda, do pêlo na região do garrote e da garupa, bem como da sua postura corporal global. Quando o cão se encontra calmo, as suas orelhas e cauda encontram-se pendentes, elevando-se à medida que o animal fica alerta, podendo ainda apontar com um dos membros anteriores (Houpt, 2005a). Ao tornar-se mais agressivo, o pêlo do garrote e da garupa eleva-se, os lábios são puxados para trás e as orelhas mantêm-se voltadas para a frente, podendo a cauda movimentar-se devagar. O aumento da agressividade leva a uma maior retracção dos lábios, expondo os dentes e rosnando, enquanto o corpo se mantém direito. À medida que o cão se encontra mais assustado, as orelhas voltam-se para trás, até encostarem à cabeça, e a cauda desce, colocando-se entre os membros posteriores (BSAVA, 2002; Houpt, 2005a).

A postura de um cão com medo e disposto a morder, que frequentemente se encontra numa consulta, corresponde à do cão assustado, com as orelhas e cauda descidas e o corpo inclinado na direcção contrária à ameaça. Observa-se também a erecção do pêlo do garrote e a retracção dos lábios, rosnando e exibindo os dentes caninos e molares. A elevação do lábio constitui muitas vezes a única indicação de uma eminente agressão defensiva, pelo que deve estar-se sempre atento a este sinal ao abordar um cão. Se tiver oportunidade, um animal nestas condições, tentará fugir. No entanto, se sofrer uma aproximação para além daquela distância que considera crítica, ele atacará (Houpt, 2005a).

A situação mais frequente, apesar de tudo, é aquela em que o medo não está combinado com a agressividade, onde o cão se apresenta abaixado, com a cauda entre os membros e as orelhas encostadas à cabeça. Se o animal for excessivamente submisso, deitar-se-á de lado, levantando o membro posterior e expondo a região inguinal, podendo ainda realizar

movimentos demonstrativos da intenção de lamber e até mesmo urinar (Houpt, 2005a; Lindsay, 2000). Este comportamento representa, presumivelmente, um retorno aos hábitos de cachorro, que permitiam desta forma que a mãe, animal dominante, o lambesse e cuidasse da sua higiene. Durante uma abordagem a um animal submisso, este curva o seu corpo, enquanto que um animal dominante caminha direito, com a cauda e as orelhas erectas. Este endurecimento da postura pode ser utilizado como forma de prever quando uma saudação inicialmente amigável está prestes a transformar-se num ataque (Houpt, 2005a).

3.2.3. Saudação e comportamento lúdico

A saudação e o comportamento lúdico são exemplos típicos de expressões sociais de afecto ou de filiação social (Lindsay, 2000).

O cão cumprimenta o seu dono da mesma forma que o fazia com a sua mãe, lambendo o rosto (BSAVA, 2002; Houpt, 2005a). Originalmente, este comportamento tinha como finalidade obter alimento regurgitado pela mãe, acto muito frequente entre os canídeos selvagens, embora nem todos os cães domésticos o pratiquem. Contudo, o comportamento de súplica é exibido por cachorros domésticos, mantendo-se nos cães adultos que, não lhes sendo permitido fazê-lo com os donos, por uma questão de educação ou, simplesmente, de altura, realizarão movimentos representativos da intenção de lamber (Houpt, 2005a).

Na comunicação entre cães, existe a necessidade de exibir sinais indicativos do início de uma actividade lúdica, para que não haja o risco do animal receptor confundir este comportamento com uma agressão ou com actividade sexual, emitindo uma resposta inadequada. Por esta razão, quando tem a intenção de brincar, o cão adopta a posição de vénia, baixando a parte anterior do corpo, elevando a garupa e agitando rapidamente a cauda. Frequentemente, utiliza também uma pata para acenar ou para esfregar o seu próprio focinho (Houpt, 2005a).

Documentos relacionados