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CAPÍTULO III A INQUISIÇÃO NO SERTÃO

3.4. Comunicação oral e o ajuntamento dos denunciantes

A comunicação oral dos denunciantes sustentava gradualmente os inquéritos e reforçava a ideia de justiça. Distinguem-se os laicos em favor da diligência a partir da comunicação oral. O espirito comunicativo dos denunciantes ganha destaque, pois esse era bem visível em uma época em que o compromisso religioso alargava os traços moral e

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ANTT, IL.. processo n. 502 f.20v-22. O mandingueiro mencionado é o João Curto um processo peculiar que apresenta aspectos interessantes ao que se refere às atitudes de colaboração dos denunciantes.

religioso de uma sociedade. Para os fiéis, o ato de noticiar as transgressões por vezes se tornaria um compromisso com a Igreja e um compromisso social. Partindo da premissa de que havia uma comunicação convencionada ao sistema de crenças, conhece-se o ânimo do pronunciamento das palavras que ecoavam como uma forma de rejeitar legalmente a existência desse fenômeno.

Diante dessa realidade, comecemos por dizer que o ajuntamento dos denunciantes e a comunicação oral entre eles tinham como eixo central combater o pecado. Em cada uma das falas havia um desejo específico de reconhecer o delito como crime. Esses indicativos expressados na comunicação foram mais do que suficientes para conduzir os trâmites judiciais.

Por exemplo, é imprescindível pensar em termos judiciais, onde uma multiplicidade de aspectos entram em jogo. Concordando com José Pedro Paiva, que “a acusação resultava de crenças, sentimentos, motivações, comportamentos individuais e coletivos determinam um resultado concreto que não fora procurado por ninguém

individualmente”222. Naquela localidade denunciar não era apenas um ato individual, mas

garantia uma adesão coletiva que servia de sustentáculo às normas jurisdicionais.

A comunicação e o ajustamento dos denunciantes não anulam as ações normatizadoras. Isto é, quando muitos denunciantes chegaram para expressar as suas queixas praticam a obediência visivelmente concedida na comunicação oral. Acreditamos que a elaboração de uma comunicação que aparece com frequência serviu para desestabilizar a sociedade. Eles proporcionavam uma comunicação conjunta com os membros eclesiásticos. Essa comunicação era algumas vezes influenciada por ideias disciplinadoras que contemplam

a validade das denúncias223.

Mesmo após o arrolamento dos denunciantes, as pessoas adotaram uma relação direta com os casos. O fato de haver um dado curiosíssimo no estilo de denunciar que reajustava as especulações, alcançariam um plano de intervenção tido como verdade. Eles espalharam as notícias pela redondeza, sobretudo em 1746, quando os acusados estavam presos. Nessa época mais denúncias iam surgindo e a justiça eclesiástica tratou de fazer um segundo arrolamento baseado em um modelo persuasivo que ia se desencadeando ocasionalmente. As principais argumentações dos denunciantes se baseavam em quatro

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PAIVA, José Pedro. Baluartes da Fé e da Disciplina... p.230

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noções: “por ouvir dizer, por ser público, por presenciar, por ser uma afronta aos dogmas

católicos”224.

Estes quatro eixos comunicativos apresentam uma sustentação ao posicionamento que a população tinha acerca dos casos. Diríamos que o denunciador encontra nesse padrão denunciativo “uma história da justiça”, inclusive apresentando-se como uma ação de envolvimento que responde aos rumores fundados não naquilo que há como verdade , mas no desatino do pensamento e da própria linguagem que ia se generalizando. Naquela localidade, a comunicação permite a significação da linguagem do convencimento e a transmissão de informações.

Os denunciantes iam construindo a sua verdade a partir do ouvir dizer, uma expressão que não era desconhecida da Inquisição. Talvez essa certeza de que as autoridades iriam aceitar o ouvir dizer, provocou a denúncia do agricultor Martins de Almeida. Ele pertencia à mesma camada social dos culpados e alegou que tinha obrigação de ir depor, pois ouviu dizer. O denunciante vivia em um sitio afastado dos campos de Riachão (distrito de Jacobina onde ocorreu o incidente do uso inadequado da hóstia consagrada) e sustentava sem qualquer decoro: que não conhecia “os ditos Matheus e Luís, nem José Martins, não sabia onde moravam nem ao menos os conhecia, mas oferecia suas

palavras” 225 . Ao sublinharmos a comunicação oral sobre o acontecimento teremos um

modelo que estava em conformidade com um contexto de ordenamento e disciplinamento, por isso as pessoas agiam com rapidez e confiavam nos boatos que cresciam.

A despeito dos argumentos declarados pela testemunha citada acima, vê-se que muitas pessoas se baseiam na linguagem mais usual, argumentos bem parecidos como a classificação apresentada na tabela I. As notícias ou simplesmente o ouviu dizer, era repercussão do escândalo público. Constata-se uma convicção religiosa, refletida nos hábitos da linguagem. Uma comunicação oral que também era utilizada pelos membros episcopais capazes de reunir elementos comunicativos persuasivos.

Podemos constatar através dos processos estudados a capacidade dos laicos e das autoridades religiosas quando esboçam estratégias para o convencimento dos fatos. Nesse sentido, os denunciantes garantem uma investida de ações cujo formato propiciava a inserção de um “jogo político-religioso” fundamentado na linguagem. Francisco Bethencourt esclarece que “o estabelecimento e a fundamentação da acusação baseiam-se na reputação dos

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ANTT, IL, processo n. 508 f.26.

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denunciantes, elementos subjetivos ligados ao jogo das interações”226. Este jogo de interação era o que corresponde a um envolvimento dos denunciantes com a vida da Igreja.

Desta maneira, a Inquisição, plenamente habilitada para o julgamento, acolhia as denúncias com base em informações de terceiros. Segundo Laura de Mello e Souza, os inquisidores acatavam denúncias de ouvir dizer, eram “testemunhas de ouvida”. A autora coloca em confronto as normas da Inquisição e diz que não havia idoneidade entre os

depoentes, pois qualquer testemunho valia, inclusive o de uma criança227.

O primeiro aspecto a ser observado é o sentido jurisdicional da Inquisição quando se trata da forma em que eram conduzidos os processos. Por outras vias interpretativas, percebe-se que a concepção judicial do Tribunal do Santo Ofício permite uma subjetividade que estava ligada aos princípios dos ensinamentos propagados pela instituição. Antônio José Saraiva escreve:

[...]todas as denúncias eram recebidas fosse qual fosse a idoneidade dos denunciantes. É este um dos pontos em que o processo inquisitorial se distingue do processo comum, que não admitia os depoimentos de escravos, pessoas infames, excomungados ou condenados de direito comum. Na Inquisição, aceitavam-se inclusivamente as denúncias por carta anônima..”228.

No que tange a comunicação dos denunciantes não podemos deixar de dizer que grande parte dos dados transmitidos aos inquisidores de Lisboa pelas autoridades locais, era uma composição de mensagens que chegava das queixas (ouvir dizer). Talvez, no arrolamento dos denunciantes tivesse mesmo uma integração de falas, que acabou por revelar traços simbólicos da jurisdição episcopal e inquisitorial. Em termos do relativismo religioso/ jurisdicional, consequentemente existiam hábitos que fixavam as obrigações de bons cristãos e o nome do Tribunal do Santo Ofício que não caiu no esquecimento.