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CAPÍTULO II: Integração, Convergência de Meios e Reorganização das Redações

6. As velhas redações e [uma possível] reorganização das áreas de trabalho

6.1. Comunicar para a Web: quando o Media se torna Multimédia

A forma como a própria informação é disposta num ecrã de computador desperta no leitor outras sensações e curiosidades, pelo que o princípio da pirâmide, base do jornalismo escrito, é aqui secundarizado. Canavilhas (2008) usa o termo de pirâmide deitada para caracterizar a horizontalidade da notícia e os seus níveis que vão aumentando gradualmente à medida que o conteúdo é desenvolvido e se responde às tradicionais questões quem, o quê, onde, quando, como e porquê. Ao abrir uma página será mais funcional um conjunto de pequenos textos seguidos de hiperligações interessantes. Existe uma relação de visualidade a partir do momento em que há um interface visual do site onde se encontram os elementos que vão compor a notícia. Uma gama de signos é percebida, interferindo e influenciando a produção do sentido. Podemos também falar em analogia ao tato a partir do momento em que há um envolvimento do corpo no processo de perceção, já que ao usuário é permitido manipular ainda que no sentido virtual.

No que diz respeito à sua estrutura, os textos são gerais e lineares, sem grande contexto, usualmente composto por duas linhas onde se avança com o conteúdo principal (muitas vezes sem confirmação) perante “a urgência da imediaticidade sobrepõe-se às exigências da objetividade e da verificabilidade” (Fidalgo, 2007, p. 107) e nesta forma de organização parece não haver “uma organização dos textos em função da importância informativa, mas uma tentativa de assinalar pistas de leitura.” (Canavilhas, 2008, p. 28) E podemos dizer que a leitura passa a ser feita em blocos: há uma unidade base onde é lançado o essencial, seguido de um nível de explicação, depois de contextualização, onde já podem ser incluídas fotografias, infografias e até vídeos e

finalmente um nível de exploração, com a ligação a links externos ou arquivos. Poderíamos acrescentar outro nível, no patamar de receção, de troca e comentário, por parte do usuário, onde ele próprio pode acrescentar mais informação à inicialmente publicada e partilhar com o seu universo de leitores.

O limite está na digitalização que afeta as próprias redações jornalísticas, que se reestruturam para produzir conteúdos convergentes e onde emergem novos métodos de apuração de informação. O telefone e o email substituem muitas vezes o contacto pessoal com as fontes, as possibilidades de pesquisa de informação com base na web retiram os profissionais do terreno e da investigação mais profunda, perpetuados na imagem do jornalista sentado e sedentário.

Há aspetos que nunca devem mudar no que diz respeito à profissão.

Gravar o que aconteceu: o gravador e o jornalista devem permanecer inseparáveis, pois é o utensílio que lhe permite uma segurança no conteúdo e na credibilidade do seu trabalho. Chegar às fontes, falar com elas e gravar deveria ser algo que não deveria mudar.

Localizar a informação e dar contexto: antes da internet o jornalista tinha que procurar informação. E se é verdade que a internet se tornou na biblioteca de bolso, ela não contém tudo o que necessitamos para uma boa investigação.

Lutar contra o gigante da informação: o papel de gerir, filtrar, contextualizar é fundamental face à quantidade de informação que o leitor tem acesso. O leitor procura a sua informação, mas também procura quem o auxilie nessa triagem.

Expor o que está errado, vigilante: o jornalismo não pode perder a sua função de vigilante da sociedade e do poder político que está na sua génese e remonta aos tempos vindouros do jornalismo de investigação.

É notório que o jornal na Internet atravessa um interessante percurso visual, ainda experimental, mas que não podemos deixar de analisar. O acompanhamento das notícias faz-se ao minuto e sempre com carácter de atualização constante. E o papel agora transposto para o ecrã de um computador, de um tablet ou de um telemóvel, dá a conhecer ao utilizador o novo rosto de um jornal que se tinha como oculto e misterioso.

De facto, o cibernauta experiencia uma liberdade total para a harmonização de vários elementos à sua própria vontade. E é o interface e interatividade dos sites e das plataformas móveis que vão envolver o utilizador e convidá-lo a assumir um papel ativo e de produção de conteúdo. Cordeiro (2004, p. 3) afirma que o website “deverá traduzir- se na representação de uma estrutura paralela que não deve ser confundida com o seu formato tradicional.” Quadros (s/d, p. 48) é perentória a afirmar que “ os web designers encarregados da criação e manutenção dos sites jornalísticos são cada vez mais instigados a desenvolverem modelos que atendam às demandas dos usuários, no que tange especificamente à forma e à funcionalidade ou “usabilidade”. Os conteúdos distinguem-se dos que são oferecidos pelo jornal convencional, apoiando-se numa nova estrutura multimédia de forma a “estimular a visita e o regresso do utilizador, apresentando conteúdos com interesse e relevância para o seu público.” (Cordeiro, 2004, p. 3) A apresentação da página não se resume só às notícias. Esta nova forma de chegar ao público inclui uma apresentação dos jornalistas, publicitação de passatempos, vídeos, infografias, notícias ou sons em arquivo.

“ Predomina la interrelación de (vídeo, áudio e texto) para dar origen a una nueva forma expressiva presente en los medios audiovisuales propiamente dichos o aquellos que trabajan con imágenes, escritura y sonidos simultânea y sucessivamente.” (Cebrián Herreros, 2007, p. 24)

As características que um site deverá reunir são fundamentalmente elementos potenciais que, bem desenvolvidos, em maior ou menor amplitude, são utilizados em sites jornalísticos. Palácios (2003, p. 3) não acredita “existir um formato canónico, nem tampouco «mais avançado» ou «mais apropriado» no jornalismo”. O autor prefere falar numa “multiplicidade de formatos possíveis e complementares” que vêm dar uma função renovada às Novas Tecnologias.

Se é verdade que alguns sites preferem apostar numa atualização contínua com “modalidades interativas” e apoiadas num “sistema dialógico que altera tanto o modelo comunicativo como o comportamento das audiências” (Cordeiro, 2004, p. 7), não menos verdade é o pensamento de Palácios (2003, p. 3) que faz a distinção entre sites que exploram a multimedialidade e o aprofundamento de assuntos, com a disponibilização dados visuais; e outros ensaiam modelos do tipo P2P (peer to peer), com um jornalismo tipicamente aberto, onde a aposta na interatividade e a disponibilização das contribuições dos utilizadores é uma realidade.

Parece ainda não existir uma fórmula concreta na construção de sites jornalísticos, pois cada meio tem produtos diferentes e públicos-alvo muito distintos. Mas, como defende Quadros e Junior (s/d, p. 1) “ é impossível dissociar desenho e conteúdo de qualquer produto jornalístico, pois um depende do outro para conquistar e garantir a fidelidade do leitor”, já que verdadeiramente “(…) ninguém sabe a receita correta, não temos regras e formatos definidos” para a construção de uma página Web. Uma coisa é certa: um aspeto fundamental quando se estuda qualquer tema ligado à Web é a análise da homepage, pelas características tão únicas que assume e porque é a porta que recebe o internauta.

“The difficulty may be the creation of a universal symbology, but if it’s true that the large majority of experiments to create a universal visual language have failed, it is not less true that the large numbers of icons have managed to impose them at a global level: The Internet’s own history proves a predisposition of the users to use a group of sign accepted in all cyberspace (Canavilhas, 2006, p. 5)

Uma proposta de continuidade aos modelos vigentes seria como uma separação de sentidos. Separar ler, ouvir e ver não faz sentido para a informação partilhada na era digital.

“When talking about text assimilation we use the verb to read. When we speak about the same relation to a photograph, a film or a painting we apply the verb to see. When dealing with sound we use the verb to hear. (…) It is possible to read a picture, a movie, a painting or a song, thus departing from the semiotic hypothesis that the world is a text open to be presented under different forms”. (Canavilhas, 2006, p. 9)

Freire acredita que “o que tem mudado é a enunciação, o modo como as coisas são ditas, e neste modo de dizer incluem-se também as formas como o conteúdo é apresentado. É aqui que entra o design de notícias como modalizador do discurso jornalístico actual” (Freire, 2007). Pensar nas características de apresentação da informação online requer “una nueva concepcion del diseño que va mucho más allá de la estética y debe, sobre todo, facilitar al lector la navegación.” (Concha, 2009, p. 3) As páginas online têm que respeitar também certos critérios, nomeadamente a usabilidade. Ribeiro (cit. in Prata, 2009, p. 39) define a usabilidade como “a medição da qualidade da interação do usuário com o produto ou sistema – website, software, tecnologia móvel ou qualquer dispositivo operacional.”

Perante estes pressupostos pareceu-nos relevante abordar ainda o design da disposição das notícias. Freire, no seu discurso no 5º Congresso da Sopcom, sobre o papel do design de notícias no discurso jornalístico do Século XXI, refere que “o design de notícias vem para potencializar este discurso, organizar os conteúdos, criar identidade,

atrair a atenção do leitor e construir o sentido pela relação entre verbal e não verbal.” (idem), acreditando que o melhor modelo é aquele que respeita a simplicidade. Conclui Freire que “a visibilidade está ligada a um importante princípio da perceção visual, a simplicidade. Aquilo que se apresenta de forma simples é mais fácil de ser identificado, imaginado e memorizado.” (Freire, 2007) A organização, o apelo visual e a fragmentação são características deste novo modelo de apresentação jornalística. Por essa mesma razão, nas palavras de Freire o design assume-se (2007, p. 10) “como elemento de organização desta leitura não-linear, com a missão de fragmentar o texto e fazer aflorar os enunciados antes amalgamados no texto compacto”.

Mas no livro de Nair Prata, WebRadio, novos géneros, novas formas de interacção, a autora revela-nos os principais tópicos a ter em conta num design de uma homepage. Citando Nielsen, apontado como um precursor nas pesquisas de formatação das homepages, a autora (Prata, 2009, p. 41) propõe 40 tópicos a ter em conta para o design de uma homepage, entre os quais se contabilizam o tempo de download, a página de abertura, cor, tamanho, comprimento, largura, publicidade, fontes, links, informações sobre a empresa, política de privacidade, entre outros, tudo para que o nível de navegabilidade e usabilidade seja o mais eficaz possível.

No fundo estas novas circunstâncias alteram também a forma de ler o jornal já que aumentaram o número de estímulos para o simples usuário. O jornalismo impresso atual sofre pressões por mudanças, decorrentes do crescimento da oferta de suportes e da multiplicação de canais ao serviço dos leitores. Uma das formas de responder a estas exigências foi a revisão do que é exposto e o desenho é uma das ferramentas desta metamorfose.

A preocupação com o lado mais atrativo das notícias parece provocar um atropelamento no panorama informativo que compete com mais com, mais vídeo, mais interatividade e mais feeds. Os jornais parecem imitar a Internet, dando ao leitor o que querem, investindo em temas mais leves e que geram maior controvérsia. Esta multiplicidade de ferramentas atrai ou contribui para a saturação jornalística? Se uma página é difícil de entender, avançamos para a seguinte? As empresas jornalísticas aumentam o volume e aumentam a velocidade da sua produção, aliando-se a estes conteúdos atrativos, para competir com os restantes meios, mas esta estratégia poderá

desviar-se, mais uma vez, do princípio básico de informar respeitando os princípios da credibilidade, da objetividade e da verdade.

Na época de ouro da televisão, muitos espectadores abandonaram as notícias a favor do entretenimento, especialmente com a entrada do cabo e do satélite nas casas dos portugueses. E apesar dos canais especializado como a SIC Notícias ou a RTP Informação conseguirem criar audiências junto de espectadores que procuram as notícias e ávidos de informação, o crescimento da internet e a decadência dos jornais poderá surtir um efeito semelhante ao abrir a possibilidade da notícia e do entretenimento no mesmo suporte. A partir do momento em que há um espólio de escolhas muitos serão os que escolhem o entretenimento em vez da notícia contribuindo para um acentuado fosso de conhecimento. Aqui o público pode escolher entrar ou não no diálogo público, ser passivo ou ativo perante o mundo e perante a sua mutação ideológica. O novo meio [ambiente] digital facilita a descentralização individual, de forma aberta e voluntária, mas onde tanto podemos partilhar informação como desconhecimento. (Starr, 2009) Isto pode constituir um problema.

Perante a abundância de informação que circula por toda a web, e agora em estreito paralelismo com os novos players como os agregadores de notícias ou as redes sociais, gera-se uma competição pela atenção da audiência e por quem consome a informação, inserida na lógica da economia da atenção (Davenport e Beck, 2001). Os consumidores são submetidos a um bombardeamento de grandes volumes informacionais, que afetam não só a produção e a circulação, mas também a forma como a informação é consumida. Davenport e Beck (2001, p. 13) reforçam a necessidade de “um equilíbrio entre a quantidade de informações e os limites cognitivos humanos de processamento de mensagens”. A produtividade de um meio apenas atende aos parâmetros de velocidade e quantidade e não tanto à qualidade de pensamento e de ideias.

Bockwoski (2005) confirma que a Internet é um autêntico campo de distrações. Quando consumimos notícias na web fazemo-lo em menos tempo que em papel e em paralelo com outras atividades. Esse é o verdadeiro desafio. E para que os leitores não se percam no meio de tantos estímulos, muitas vezes mais concentrados em processar rapidamente o que recebem, o primeiro passo, segundo Davenport e Beck, seria

despertar a atenção usando para esse efeito a clareza e o valor da informação. O desdobramento de plataformas e de conteúdos é tal que o envolvimento tecnológico dificulta o foco de atenção do leitor, causando alguma dispersão e a multiplicação de vídeos, links e galerias fotográficas levam a que o consumo desses bens não seja muitas vezes efetivado. Acrescentamos que o jornalismo, seja em que plataforma for, não pode abrir mão dos valores mais enraizados da sua tradição: um texto bem escrito, edições bem cuidadas, fontes devidamente apuradas, num exercício sobre a escrita, constante.