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GESTÃO DO CONHECIMENTO

COMUNIDADE ACADÊMICA

Nesse sentido, a ciência da informação, tal como uma ciência social, emprega uma variedade de métodos de pesquisa, cada um apropriado a determinados tipos de problemas. O tipo de problema, por seu turno, apontará para uma abordagem quantitativa ou qualitativa, ou ainda a utilização concomitante das duas abordagens. O foco, os objetivos e o referencial teórico desta dissertação apontam para uma abordagem metodológica essencialmente qualitativa, pois fundamenta-se na interpretação da literatura e da percepção dos sujeitos para formulação teórica a que se propôs.

Demo (1988, p. 23) distingue, de forma genérica, quatro tipos básicos de pesquisa científica, dentre estes está a pesquisa teórica. A pesquisa teórica volta-se para a formulação e o esclarecimento de quadros teóricos de referência, os quais podem ser entendidos como os contextos essenciais para o pesquisador movimentar-se. Desta forma, o autor descreve procedimentos fundamentais para a construção de quadros teóricos de referência, o primeiro diz respeito ao domínio dos clássicos de uma determinada disciplina, onde a literatura carrega consigo a acumulação já feita de conhecimento, os conflitos de correntes de pensamentos, a cristalização de certas práticas de investigação, o ambiente atual da discussão em torno do assunto e outros. O segundo procedimento é o domínio da literatura fundamental, por meio da qual toma-se conhecimento da produção existente, estimulando a criatividade do pesquisador o diálogo crítico. O terceiro procedimento é o vigor crítico, por meio do qual instala-se a discussão aberta como o meio para o crescimento científico. Portanto, dado o seu objetivo, a proposta de investigação que ora é apresentada constitui-se em uma pesquisa teórica por buscar delineamento de um quadro teórico de referência, uma vez que propõe desenvolver um modelo teórico que represente a relação entre duas abordagens distintas (gestão do conhecimento e comunicação científica) as quais, juntas, suportarão, em termos teóricos e conceituais, o que se denomina nesta dissertação de gestão do conhecimento científico.

As buscas realizadas nas principais bases de dados mostraram uma significativa ausência de pesquisas ou reflexões que tenham contemplado a abordagem que se pretende desenvolver. Portanto, o problema em questão carece de pressupostos teóricos, e, logo, o esforço empreendido relaciona-se principalmente com a proposição de fundamentos teóricos que sustentem a abordagem em construção. Nesse sentido, a intenção é elaborar e obter conhecimentos que permitam a estruturação de pressupostos teóricos que subsidiem a realização de estudos futuros sobre gestão do conhecimento científico. Desta maneira, a natureza do estudo aponta para uma pesquisa exploratória.

Pesquisas exploratórias, de uma maneira geral, pretendem expor, criar ou aperfeiçoar conceitos e idéias sobre um determinado fenômeno. Assim, tais estudos buscam elucidar

questões complexas em sua essência. Os estudos exploratórios debruçam-se sobre temáticas as quais o conhecimento produzido a respeito é bastante limitado, além de prover subsídios para a construção de hipóteses mais precisas. Segundo Selltiz et al (1975 p. 60), estudos exploratórios podem ter outras funções, dentre elas aumentar o conhecimento do pesquisador acerca do fenômeno que deseja investigar em estudo posterior ou o esclarecimento de conceitos.

5.2.1 - O raciocínio abdutivo e o paradigma indiciário

Em relação ao tipo de raciocínio empregado, este estudo fez uso do raciocínio abdutivo, conforme Oddone (1998, p. 54). Resgatado no final do século XIX pelo filósofo estadunidense Charles Sanders Peirce, o conceito de abdução foi originalmente cunhado por Aristóteles. Peirce, no entanto, o compôs como um terceiro modo de raciocínio lógico, ao lado da indução e dedução.

A abdução, em contraposição à indução e à dedução, permite uma maneira de buscar o conhecimento fundamentado no raciocínio criativo. Inicia-se com a percepção de problemas ou lacunas que em uma primeira vista são sem solução. Gomes (1998) afirma que o raciocínio sugerido por Peirce (1989) tem o mérito de levar em consideração a possibilidade de interferência de qualquer lateralidade, e o fato de que sempre há algo que escapa ao regime de controle, mesmo na observação. Segundo Peirce (1989), abdução é o processo de “formação de uma hipótese explanatória. É a única operação lógica que apresenta uma idéia nova, pois a indução nada faz além de determinar um valor, e a dedução meramente desenvolve as conseqüências necessárias de uma hipótese pura”. Gomes acrescenta que essa coisa que não é nem dedução nem indução, que procura indícios e se firma na noção de que "eliminadas todas as impossibilidades aquilo que restar deve ser verdadeiro" está a nos falar de probabilidades e não de certezas incontestáveis.

Fundamentado na abordagem abdutiva, o paradigma indiciário, formulado por Carlo Ginzburg (1989), é igualmente importante para o presente estudo. Ginzburg (1989) descobre e analisa similaridades entre os métodos de investigação utilizados por Freud, pelo detetive Sherlock Holmes e pelo estudioso de obras de arte Giovanni Morelli. A intenção de Ginzburg foi “mostrar como, por volta do final do século dezenove, um modelo epistemológico (ou se preferirem, um paradigma) surge discretamente na esfera das ciências sociais”, tendo sido, na opinião do autor, crescentemente utilizado como método. Porém, segundo o próprio

Ginzburg, embora o paradigma venha sendo amplamente utilizado, até agora não recebeu a devida atenção (GINZBURG, 1989, p. 89).

O modelo epistemológico do que Ginzburg chamou de paradigma indiciário tem raízes por demais antigas, que remeteriam à própria evolução da humanidade20. É baseado em um saber do ‘tipo venatório’, que se caracteriza pela capacidade de, a partir de dados aparentemente negligenciáveis, reconstruir ou descrever uma realidade complexa que não seria experimentável cientificamente (GINZBURG, 1989, p. 152).

Os argumentos de Ginzburg revelam a importância das minúcias ou pormenores que são desprezados na investigação de fenômenos, pois, segundo o autor, quanto mais os traços individuais são considerados pertinentes tanto mais se esvai a possibilidade de um conhecimento científico rigoroso. Ao longo de seu texto, o autor descreve o modelo como um procedimento conjectural que se baseia na interpretação de pistas e sintomas. Com base em muitos outros autores, Ginzburg mostra como o paradigma indiciário vem sendo utilizado ao longo da história da humanidade. Porém, “esse paradigma permaneceu implícito, esmagado pelo prestigioso (e socialmente mais elevado) modelo de conhecimento elaborado por Platão” (GINZBURG, 1989, p. 155)21.

Contrapondo-se ao modelo no qual se fundamenta a ciência moderna, Ginzburg põe em relevo a unidade, o individual, uma vez que a ciência moderna se opõe ao estudo dos fenômenos singulares, tendo estes como empecilhos para um conhecimento científico rigoroso. Segundo Góes (2000), o ponto principal do paradigma de Ginzburg é a superposição do singular, pois as formas de saber mais assumidas implicam uma atitude orientada para casos individuais. Estes, por sua vez, devem ser reconstruídos, compreendidos por meio de sinais, signos, pistas ou indícios. Embora ressalte o particular, o paradigma indiciário não renega a totalidade, pois o fim desse modelo epistemológico é a interconexão de fenômenos e não o indício no seu significado como conhecimento isolado (GÓES, 2000). Segundo Ginzburg (1989) “se a realidade é opaca, existem zonas privilegiadas - sinais, indícios que permitem decifrá-la”. O paradigma indiciário se firma nos pormenores - fundamentais no

20

“Por milênios o homem foi caçador. [...] Aprendeu a farejar, registrar, interpretar e classificar pistas infinitesimais como fios de barba. Aprendeu a fazer operações mentais complexas com rapidez fulminante, no interior de um denso bosque ou numa clareira cheia de ciladas. Gerações e gerações de caçadores enriqueceram e transmitiram esse patrimônio cognoscitivo...” (Ginzburg, 1989, p.151)

21

“[...] como é óbvio, a cesura decisiva nesse sentido é constituída pelo aparecimento de um paradigma científico centrado na física galileana, mas que se revelou mais duradouro que ela. Ainda que a física moderna não se possa definir como ‘galileana’, o significado epistemológico de Galileu para a ciência em geral permaneceu intacto. Ora, é claro que o grupo de disciplinas que chamamos indiciárias (incluída a medicina) não entra absolutamente nos critérios de cientificidade deduzíveis do paradigma galileano. Trata-se, de fato, de disciplinas eminentemente qualitativas, que têm por objeto casos, situações, documentos individuais, enquantoindividuais [...]” (GINZBURG, 1989, p. 156)

discernimento e construção do conhecimento científico; naquilo que é aparentemente irrelevante.

Um dos pontos-chave para a compreensão do ângulo relevante do paradigma indiciário como uma abordagem investigativa nesta dissertação reside no fato de ser essencialmente qualitativo e fundamentado no raciocínio abdutivo. Este, por sua vez, implica em que o rigor da ciência passa a ser construído não por fórmulas matemáticas, experimentação ou comprovações estatísticas, mas sim pela importância dos indícios analisados. Sendo assim, toma-se como relevante a singularidade e não regularidade, como mencionado anteriormente. Segundo Quartarolla22 (1994, apud DUARTE, 1998, p. 41), nesse

modelo o ‘rigor flexível’ ao se fazer ciência possibilita aliar a intuição do pesquisador à iluminação dos dados singulares, o que permite formular hipóteses explicativas interessantes para aspectos da realidade não alcançados por outros modelos.

Neste sentido, ao se ocupar também da investigação de fatos que possam levar à construção de pressupostos e hipóteses testáveis, Richter et al (2002) fazem uma ponte entre o paradigma indiciário e a abdução23. A ligação entre as duas abordagens torna cada vez mais evidente o caráter científico sob o qual se estrutura a investigação indiciária. Em ambos os casos, segundo os autores, o processo de aceitação de uma hipótese explicativa que determine as causas de um “fato surpreendente” exige constante trabalho lógico, implicando a observação criteriosa de qualquer fenômeno passível de constituir uma hipótese.

Portanto, dada a natureza exploratória do presente estudo, os seus objetivos foram atingidos mediante a abordagem qualitativa, com base no raciocínio abdutivo e no paradigma indiciário. Essas características da abordagem metodológica, associadas ao referencial teórico construído a partir da literatura, nortearam a busca de respostas para o problema pesquisado, lançando mão de indícios e pistas obtidos ao longo de todo o processo de investigação.

22

“Torna-se necessário [...] o estabelecimento de um rigor metodológico diferenciado daquele instaurado pelas metodologias experimentais, uma vez que o olhar do pesquisador está voltado, neste paradigma, para a singularidade dos dados. No interior desse ‘rigor flexível’ (tal como o denomina em Ginzburg) entram em jogo outros elementos, como a intuição do investigador na observação do singular, do idiossincrático, bem como sua capacidade de, com base no caráter iluminador desses dados singulares - tal como expõe o paradigma indiciário - formular hipóteses explicativas interessantes para aspectos da realidade que não foram captados diretamente, mas, sobretudo, são recuperados através dos sintomas, de indícios” Quartarolla (1994 apud DUARTE, 1998, p. 41).

23

Harrowitz (1991, p. 204) une a perspectiva do paradigma indiciário ao raciocínio abdutivo ao afirmar que “a importância do modelo conjectural não se encontra na noção de leitura de signos codificados tais como os impressos, mas principalmente, no fato de os sistemas debatidos por Ginzburg serem desenvolvidos e investidos de sentido através de um processo que muito se assemelha à abdução. As regras foram postuladas para explicar os fatos observados até que se pudesse uma causalidade, testar uma hipótese. Como na abdução, é preciso um reconhecimento cultural ou experencial para codificar um sistema. A abdução é, literalmente, a base necessária que antecede a codificação de um signo. Como diz Peirce, a abdução cria uma nova idéia [...]”.

5.3 - Desenho da pesquisa

Selltiz et al (1975, p.70) sugerem, como técnicas de coleta de dados para estudos exploratórios, dentre outras, o exame de registros de conhecimentos existentes e a entrevista não estruturada. A partir dessas recomendações, e, partindo de uma abordagem essencialmente qualitativa, cada objetivo deste estudo necessitou de métodos e técnicas adequadas, como descrito no quadro 8.

Quadro 8 – Objetivos, métodos e fontes de coleta dos dados

OBJETIVOS MÉTODOS

DE INVESTIGAÇÃO

FONTES DE COLETA DOS