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Como muito bem lembrou Alexandre Marques (pesquisador da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC):

“Uma comunidade científica caracteriza-se pela prática de uma especialidade científica, por uma formação teórica comum, pela circulação abundante de informação no interior do grupo e pela unanimidade de juízo em assuntos profissionais. Em sentido particular, o paradigma é um exemplar; é um conjunto de soluções de problemas concretos, uma realização científica concreta que fornece os instrumentos conceptuais e instrumentais para a solução de problemas. O paradigma [no sentido de Thomas Khun] é, neste sentido, uma ‘concepção de mundo’ que, pressupondo um ‘modo de ver’ e de ‘praticar’, engloba um conjunto de teorias, instrumentos, conceitos e métodos de investigação; noutro caso, o conceito é utilizado para significar um conjunto de ‘realizações científicas concretas’ capazes de fornecer ‘modelos dos quais brotam as tradições coerentes e específicas da pesquisa científica’. ‘Assim, a descrição de Newton do movimento dos planetas (Lei da Gravitação Universal), ou a descrição de Franklin da garrafa de Leyden são, respectivamente, exemplos de paradigmas para a prática da mecânica e para a ciência da eletricidade. Kuhn [2006] também designa estes ‘modelos concretos’ como ‘modelos exemplares’’.” (MARQUES, S/D.)7

Este conjunto de práticas que fundamentam uma “concepção de mundo”, um “modo de ver” e de “praticar”, que sujaz ao mundo científico, engloba tanto fatores teórico- metodológicos como práticos. A dinâmica social no interior do campo científico é de suma importância para a construção da relação sujeito e objeto.

A sociologia e a antropologia da ciência podem ser caracterizadas como disciplinas da ciência social voltadas para o estudo da dinâmica social existente no interior da atividade de pesquisa científica. Para além da problemática ontológica/epistemológica, a observação da dinâmica social possibilitou a criação de uma análise reflexiva da ciência. Neste sentido, a forma das ações sociais pôde ser tomada como parte constituinte da construção de proposições e de teses científicas. Em Khun (1996) já era possível observarmos a dinâmica da pesquisa sob a idéia de comunidade científica, particularmente quanto à relação entre as correntes de cientistas conservadores e correntes de cientistas inovadores.

A dinâmica de troca simbólica no interior do campo científico também seria fundamental para o debate em tela (BOURDIEU, 2004a e 2004b). A aquisição e acúmulo de capital simbólico, neste sentido, serão orientados pela ação instrumental, analisada por Habermas (2002). Tanto sobre a pesquisa nas ciências naturais, voltada para a análise de objetos físicos, quanto sobre o uso de conhecimento de grupos sociais tradicionais para o desenvolvimento de P&D, a ação instrumental e os critérios solidificados na estrutura do campo influenciarão a lógica da pesquisa e a lógica da interação entre comunidade científica e comunidades tradicionais. Sob a noção de conhecimento-regulação (SANTOS, 2007), a passagem do caos à ordem será processada através da manipulação da natureza e do conhecimento de povos tradicionais. Este procedimento de manipulação instrumental

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produzirá ganhos para os cientistas na forma de capital científico “puro” ou “institucional” ou financeiro, quando da realização de um projeto de pesquisa de cunho comercial. Por outro lado, a manipulação conduzida pela ação instrumental tornará o conhecimento de povos tradicionais em uma “verdade formular”, passível de manipulação, de controle e de apropriação. Da mesma forma como cientistas procederiam com o tratamento de substâncias isoladas, princípios ativos e genes, procederiam com o conhecimento de comunidades locais. Esta é, portanto, a dinâmica social pela qual estamos interessados neste estudo.

Rabinow (1991) observou as novas formas de sociabilidade que resultam da relação entre as novas biotecnologias e a sociedade. Para o autor, as chamadas tecnologias da vida dificilmente superarão a representatividade social obtida pela economia informacional. No entanto, ao se instituir como uma forma de esclarecimento, as tecnologias da vida possuem um enorme potencial para modificar e influenciar diretamente algumas e importantes formas de sociabilidade. De acordo com Rabinow (1991), esta dinâmica poderá ser representada pelo conceito de biossocialidade (biosociality).

Para além da dinâmica social de interações e da constituição de grupos que apresentam características e objetivos similares, a base da prática e da ação de cientistas, racional e instrumental, influenciaria a dinâmica entre cientistas e grupos tradicionais, particularmente quanto à P&D com auxílio de conhecimentos de grupos sociais tradicionais. Neste universo, a ação instrumental resultaria na deslegitimação do conhecimento tradicional de comunidades locais e, de outro lado, acarretaria a reconfiguração de práticas sociais e de formas de sociabilidade.

As novas formas de sociabilidade, de subjetividade e de identificação coletiva, debatidas por Rabinow (1991), são importantes tanto para o interior quanto para o exterior do campo científico. Para além dos aspectos societários diretamente relacionados com a atividade de pesquisa científica, a antropóloga norte americana Cori Hayden (2007) chama atenção para os novos aspectos éticos da pesquisa biotecnológica, especialmente sobre as atividades que se caracterizam pelo emprego de conhecimento de grupos tradicionais e indígenas. De acordo com a autora, desde meados da década de 80 com o avanço da pesquisa biotecnológica de cunho comercial, novos aspectos éticos têm surgido, particularmente sobre a idéia de divisão de benefícios.

Sob a perspectiva da divisão de benefícios, a comunidade de cientistas que trabalha com a utilização de saberes tradicionais de comunidades locais e indígenas deve adaptar suas práticas de pesquisa às novas exigências éticas. A pesquisa desenvolvida com voluntários foi substituída pela contratação juridicamente mediada, onde a noção de “doação”

de tecidos e de material biológico em geral, deu lugar ao contrato de divisão de benefícios individualizado. Nesta perspectiva, os ganhos individuais deverão ser individualmente repartidos. Por outro lado, os voluntários também deverão adaptar-se ao universo da pesquisa comercial, tornando-se partes contratantes que fornecem material biológico valioso à pesquisa e desenvolvimento e ciência e tecnologia. O conhecimento de povos tradicionais, neste sentido, seria entendido como mais um insumo, assim como já seriam compreendidos os genes, os tecidos e as substâncias químicas. Com isso, ao cederem seus saberes, as comunidades locais/indígenas deverão receber benefícios proporcionais ao valor econômico potencial.

Todavia, a incorporação destes novos parâmetros éticos na dinâmica de pesquisa ainda é um processo em construção. Como veremos nos próximos capítulos, a prática de cientistas ainda encontra-se em um processo de adaptação, em que os novos parâmetros têm sido objeto de debates infindáveis. Com os critérios jurídicos ainda em fase de estruturação e debate, as atividades normalmente desenvolvidas por cientistas acabam paralisadas por alguma das novas e contraditórias exigências processuais. Tanto a idéia da pesquisa científica, pautada no contrato e na divisão de benefícios, quanto à idéia de pesquisa aberta, baseada no livre acesso às informações, são debatidas pelos agentes sociais no interior e no exterior do campo científico. No entanto, as novas normas parecem subtrair parte da autonomia de cientistas com relação ao domínio e à condução de suas atividades de pesquisa, muitas vezes impossibilitando o desenvolvimento de suas práticas, tal quais desejadas por cientistas. Para além da atividade empírica, a redução da autonomia surge como uma barreira para a aquisição e para o acúmulo de capitais simbólicos. Cientistas, portanto, buscariam a elaboração de normas jurídicas e éticas que possibilitem o desenvolvimento pleno de suas práticas, sejam elas de cunho científico ou de cunho comercial.

A trajetória dos cientistas até a transformação final do conhecimento de populações tradicionais é marcada por uma série de conflitos sociais. Desde a interação entre comunidade científica e comunidades locais, o acesso e uso destes saberes são mediados por inúmeros órgãos federais de fiscalização. Na dimensão teórica, a transformação de um saber em outro originará a legitimidade e, finalmente, o conhecimento científico. Neste universo, a atividade dos cientistas será vigiada por organismos sociais e governamentais e normatizada por leis federais. A trajetória de cientistas rumo ao progresso dependerá, portanto, do debate com agentes situados no interior e no exterior do campo científico, assim como dependerá da mediação jurídica de instituições federais e estaduais. Para melhor visualizarmos esta dinâmica, realizaremos um estudo de caso no próximo capítulo.

Com isso, analisaremos uma interessante face da dinâmica de pesquisa tecnocientífica. Da tradição à modernidade, tomamos a prática de etnofarmacólogos e etnobiológos que seguem a trajetória “da aldeia ao laboratório” (PIVETTA, 2001). Iniciamos a análise empírica examinando a trajetória do Projeto Krahô, desenvolvido por etnofarmacólogos da UNIFESP. A tensão entre os agentes sociais será de suma relevância para nossa análise. O suposto utilitarismo da atividade científica, como veremos, contrastará com a luta pelo reconhecimento dos direitos de comunidades locais e indígenas sobre a legitimidade de seus conhecimentos e da instituição da divisão de benefícios.